A hipótese do animal de estimação
(uma crônica para quem ainda se atreve a olhar para cima)
E se fôssemos o bichinho de alguém?
A pergunta tem o ar daqueles delírios que costumam frequentar a cabeça por volta das três da madrugada, entre o terceiro café e o quarto desespero, e que ao primeiro raio de sol chamamos de bobagem para poder dormir em paz. Pois não chame. Pegue-a com pinça, vire-a do avesso, sacuda-a pelos calcanhares e veja o que cai dos bolsos. É o exercício mais saudável que um homem pode fazer antes de pedir a bênção do dia.
Comecemos pela parte fácil, o gato. Imagine-se gato. O gato vive numa casa que ele não construiu, em cima de tapetes que ele não comprou, comendo ração que aparece como num passe de mágica, vigiado por uma figura grande, peluda em cima e calva nos lados, que de vez em quando o leva ao veterinário para o que parece, do ponto de vista felino, um sequestro com luvas. O gato não tem a menor ideia da existência do salário, do supermercado, da economia mundial, da reforma tributária, da pólvora ou da gravidade. Sabe que come, dorme, mia, dorme de novo. Sabe também, como qualquer um de nós, que existe algo maior; mas confunde esse algo com o sofá da sala. É um animal religioso à sua maneira, adora o que pode lamber.
A pergunta da crônica é simples e desonesta como toda pergunta interessante, qual seja: e se nós também fôssemos gatos? E se a casa em que vivemos, esta belíssima esfera azul plantada num lugar improvável do espaço, com uma lua de tamanho exato, com uma atmosfera de composição exata, com a inclinação exata para ter estações em vez de torradeira, com uma órbita exata para não virar gelo nem brasa, com um campo magnético exato para nos proteger do banho de radiação que nos cozinharia em pé, e se essa casa fosse, digamos, projeto. Não esta palavra-mãe da preguiça contemporânea, “coincidência”. Projeto mesmo. Casa habitável construída por alguém. E se, além do Construtor, existissem inquilinos mais velhos, mais técnicos, talvez menos respeitáveis, vivendo no porão, escondidos no quintal, dormindo no fundo do oceano, e olhando-nos com o mesmo carinho desconfiado com que se olha um cachorro que aprendeu a abrir a porta da geladeira?
II
A pergunta, vou avisando, não é nova. Quem escreveu primeiro foi um senhor chamado Enoque, bisavô de Noé, num livro que a tradição apócrifa nos manda ler com cuidado e que os Pais da Igreja citaram sem o menor pudor. Conta Enoque, ou conta-se em nome dele, que houve uma vez duzentos anjos chamados Vigilantes que, em vez de cuidar de seus afazeres celestiais, resolveram descer ao Monte Hermom para um congresso entre solteiros. Lá juraram uns aos outros que tomariam mulheres dos homens, ensinariam aos homens metalurgia, magia, cosmética, astronomia, encantamentos, farmacopeia, leitura das estrelas e produziriam filhos que a Escritura, em Gênesis 6, chama de gigantes, e que Enoque chama de Nephilim, palavra que, traduzida com franqueza, quer dizer “os que caíram”. A vinda desses senhores não foi pacífica. Era um congresso, mas era também uma invasão. A consequência foi tão má que, segundo a narrativa, Deus achou por bem desistir do experimento e mandou aquela chuva, que de chuva tinha o nome, mas que era, de fato, um reset.
Ora, quando o leitor moderno encontra essa história, costuma rir com superioridade. É a mesma risada com que rimos do gato a ronronar em cima do teclado, a risada de quem não entende o que está olhando. O contemporâneo, sobretudo o contemporâneo de doutorado, prefere acreditar que tudo é metáfora, alegoria, símbolo, qualquer coisa exceto descrição. Eu, modesto cronista, prefiro fazer-lhe uma proposta menos elegante. E se Enoque estivesse simplesmente contando o que viu? E se aqueles Vigilantes ainda estiverem por aí, presos, escondidos, talvez engaiolados, talvez de férias, talvez não tão presos quanto se gostaria?
III
Vamos à Lua, que é onde o livreto de mistério fica de tirar o fôlego.
A Lua é desproporcional. Esta é a primeira coisa que qualquer astrônomo honesto diz quando lhe perguntam pelo nosso satélite natural. É grande demais, próxima demais, redonda demais, leve demais. É como se Deus, num momento de capricho artístico, tivesse pegado um pedaço de planeta e colocado ali, à mão, para servir de contrapeso. Não é exagero. A Lua é cerca de quatrocentas vezes menor que o Sol e, por uma piada cósmica das melhores, está cerca de quatrocentas vezes mais perto da Terra do que o Sol. O resultado, todo mundo já viu na televisão e alguns viram com os próprios olhos. Durante um eclipse total, o disco da Lua encaixa-se exatamente no disco do Sol como uma tampa que estava à espera da panela desde sempre. É um ajuste de costureiro. Faltaria poesia ao universo se não fosse tanta a precisão.
Sem a Lua, não haveria marés que respiram em ritmo civilizado. Haveria, em vez disso, ondas gigantes que engoliriam continentes inteiros como quem engole pastilha. Sem a Lua, o eixo da Terra dançaria como bêbado em festa de fim de ano, e em vez de quatro estações teríamos a roleta-russa climática. Sem a Lua, a vida que conhecemos não seria, pura e simplesmente, possível. Os oceanos seriam outra coisa, o ar seria outra coisa, e os homens, se houvesse homens, seriam coisas que não conheceríamos.
E então o leitor pergunta: e daí? Daí que coincidências, quando ficam empilhadas demais, deixam de ser coincidências e passam a ser, no mínimo, suspeitas. Quando alguém ganha sete loterias seguidas, a polícia investiga. Não acuso a Lua de fraude eleitoral; chamo apenas a atenção do leitor para um detalhe que os antigos sabiam e os modernos perderam, qual seja, que nada disso é normal. A Lua é um capricho. E como todo capricho, foi escolhido. Ou por Deus, em primeiro lugar e sem dúvida nenhuma, ou, em segundo lugar, ah, em segundo lugar começa o nosso problema.
Porque os astronautas da Apolo, que iam à Lua e não eram exatamente meninos influenciáveis, voltavam com histórias estranhas. Diziam, em particular o mais ousado, que a Lua é vigiada. Que orbes luminosos acompanhavam-nos nas missões. Que ouviam coisas no rádio que não constavam do roteiro. Que filmavam objetos que, no relatório oficial, jamais existiram. E agora, ano da graça de 2026, lá vem o governo americano abrindo um arquivo e nos mostrando, com cara de quem desabotoa a camisa para mostrar a tatuagem, uma fotografia da Apolo 17 com um triângulo pairando sobre o módulo lunar. Era assim, era assim que eles diziam, e ficavam loucos? Que riam deles, que perdiam a carreira, que apagavam-lhes os arquivos? Pois então. A fotografia está lá. O triângulo está lá. Os anjos da NASA, esses, levarão ainda algum tempo para descerem da árvore.
IV
Atravessemos o deserto.
No Egito, há três pirâmides em Gizé que, vistas de longe, parecem três montanhas geométricas. Vistas de perto, são três obras de uma engenharia que nós, com nossos guindastes, nossos GPS, nossos drones e nossas calculadoras quânticas, ainda confessamos, nos momentos mais honestos, não saber direito como reproduzir. As pedras pesam toneladas, foram cortadas em ângulos que os pedreiros modernos invejam, foram empilhadas com folga inferior à de um cartão de visita entre uma e outra. E há um detalhe que, ao olhar mais demorado, deveria emendar mais de uma noite mal dormida. As três pirâmides estão alinhadas com o cinturão de Órion. Aquelas três estrelas que aqui no Brasil chamamos, com nossa irreverência sertaneja, de Três Marias. Não estão alinhadas por acaso. Estão alinhadas com precisão de relógio suíço e em proporções que reproduzem, na areia, o que está no céu.
A explicação acadêmica, sempre cautelosa, sempre senhorial, é que os egípcios eram bons astrônomos. Sim, eram. Mas para um povo da Idade do Bronze fazer um Google Maps às avessas, copiando a posição estelar para o chão de cinco hectares de pedra, é preciso mais do que astronomia, é preciso uma vontade peculiar. É preciso querer apontar para alguma coisa. E para o que apontariam os faraós, senão para o lugar de onde achavam ter vindo? E quem teria ensinado a eles essa engenharia que ainda nos surpreende, senão alguém com tecnologia que eles não tinham? E que tipo de alguém teria essa tecnologia, senão alguém que não era exatamente daqui?
Aqui entra Nimrod, em Gênesis capítulo 10, descrito como “o primeiro homem poderoso na terra” e “poderoso caçador diante do Senhor”, expressão que a tradição rabínica entende, com gosto, como caçador no sentido contrário, “caçador contra o Senhor”. Nimrod constrói Babel, sobe a torre, quer o céu pela escada. Há quem o coloque como descendente da linhagem dos gigantes, dos filhos dos Vigilantes que escaparam ao dilúvio, dos Nephilim de segunda geração. E há sociedades secretas modernas, o leitor adivinha quais, que se orgulham de descender dele e que constroem suas próprias torres, com nomes que mudaram, mas cuja intenção qualquer rapaz educado em catecismo identifica de primeira, qual seja, subir ao céu sem passar pela cruz.
V
Falemos do porão.
O porão do mundo, segundo as testemunhas, segundo os pilotos da Marinha, segundo as histórias que agora finalmente caem do guarda-roupa para o tapete da sala, é úmido e está debaixo d’água. Os objetos não identificados que entram e saem do oceano não estão de passagem; têm endereço fixo. Estão lá há muito tempo, e o tempo, para eles, parece ser uma piada antiga. Há quem diga, com base no Livro de Enoque e em coisas correlatas, que os Vigilantes condenados foram acorrentados em “vales escuros” da terra, nas profundezas, em lugares que a Escritura chama de Tártaro e que os modernos chamam de fossa abissal. A segunda epístola de Pedro é generosa em detalhes. “Anjos que pecaram”, diz Pedro, “Deus não os poupou, mas, havendo-os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão”. Acorrentados, repito, mas não inativos. Acorrentados, mas com licença de monitorar, talvez de operar, talvez de pedir favores aos seus.
E é aí que entra a parte que ninguém quer ler em voz alta.
A parte do Epstein, por exemplo. Toda vez que se descobre, na história dos homens, um anel de gente poderosíssima envolvida em ritualizar a corrupção da inocência, em comprar e vender crianças com a frieza de quem compra batata, em “colher” o que jamais deveria ser colhido, em fazer experiências de natureza reprodutiva em escala industrial, em recolher amostras antes do tempo, em manter câmaras frias com gente em fila esperando a vez no congelador, o cronista honesto pergunta-se. Isto é apenas vício humano levado ao paroxismo, ou há aqui um patrocinador invisível, alguém que oferece o cardápio?
Porque as descrições das supostas abduções, com seus exames, suas extrações, seus fetos retirados, suas amostras de tecido, suas mesas frias com instrumentos finos, têm uma semelhança incômoda com as descrições das supostas operações dos figurões de smoking na ilha do milionário. É como se alguém estivesse pedindo na cozinha o mesmo prato em duas mesas separadas. As entidades vêm de cima e fazem com as suas próprias mãos; os homens fazem na ilha, na casa de campo, no quarto sigiloso, e parece que prestam contas a alguém. Como em qualquer franquia, é claro que há padronização.
Há uma palavra antiga para o que move um homem a fazer essas coisas. Não é “transtorno”. Não é “doença”. Não é “infância difícil”. A palavra antiga é demônio, e o leitor moderno, que treme só de pronunciá-la em voz alta, é exatamente o leitor que mais precisa pronunciá-la em voz alta. E se o que move um Epstein da vida não é apenas a sua psicopatia clínica, mas a presença, encruada nele, de uma daquelas entidades antigas que precisam de gente como ele para fazer o serviço aqui em cima, porque elas, lá embaixo, estão presas como o cachorro do vizinho está preso na coleira, e os Epsteins do mundo são, por assim dizer, a parte solta da coleira? Pode ser. Talvez não seja. Mas se for, faz mais sentido que muita coisa que sai do laboratório de comportamento das universidades de Harvard, e olhe que o financiamento delas, esse, vai-se confirmando, conversa de outro dia.
VI
Agora vem a parte deliciosa.
E se tudo isso, esta Terra, este corpo, este café que esfria enquanto eu escrevo, este Brasil, esta Bíblia em cima da minha mesa, se tudo isso fosse, digamos, uma simulação? Não no sentido pobre do filme dos irmãos Wachowski, com gente em casulo dando sangue para a torradeira computacional. No sentido alto, no sentido teológico, no sentido em que Santo Agostinho falava do tempo, isto é, no sentido em que a realidade que percebemos é, comparada ao real, uma sombra do quarto andar.
Vivemos em quatro dimensões, três espaciais e uma de tempo, e essa quarta dimensão, o tempo, anda só para frente, como criança levada pela mão à força, porque é tudo o que nossos olhos conseguem suportar. Existem dimensões superiores, e para os habitantes da quinta o tempo é visto como nós vemos uma rua, com começo e fim ao mesmo tempo. Para os da sexta, o tempo é uma tapeçaria pendurada na parede, e existem outras tapeçarias com outros desenhos possíveis, igualmente penduradas no mesmo museu. Para os da sétima, ah, para os da sétima, há uma sala onde todas as tapeçarias possíveis estão expostas como num acervo sem hora de fechar, e o curador caminha por entre elas, escolhendo qual será a sagrada, qual será a permitida, qual será a que vai entrar na história.
Naquele filme do Christopher Nolan, Interestelar, há a cena memorável em que o astronauta, dentro do buraco negro, encontra-se numa biblioteca onde o tempo está empilhado nas estantes, e ele consegue, com a mão esticada, tocar instantes do passado como se fossem livros na prateleira. Aquilo não é ficção pura. É matemática especulativa elegantemente embrulhada para venda no cinema. É a maneira como nós, do quarto andar, tentamos imaginar como seria olhar a vida do quinto, do sexto, do sétimo. É também, sem que o roteirista quisesse, uma das melhores aproximações modernas que vi do que a tradição cristã chamou, com palavra mais bela, de eternidade.
Porque o Deus em que acreditamos não habita o quinto, nem o sexto, nem o sétimo andar. Habita o terraço. Está fora do prédio. Vê-nos como quem assiste a um filme já editado, com começo, meio e fim, e ainda assim, prodígio dos prodígios, deixa-nos a impressão de estarmos escolhendo. Porque, de fato, estamos. Esta é a doutrina escandalosa do livre-arbítrio. O homem é livre, e Deus, do alto da Sua dimensão sem nome, sabe o que o homem vai escolher, sem que isso comprometa a liberdade da escolha. Os anjos, esses, não são Deus, mas têm um andar a mais que nós.
Por isso podem aparecer e desaparecer em sonhos, por isso podem estar em vários lugares de uma vez, por isso conseguem, segundo a Escritura, deter exércitos com a ponta de uma espada. E se cada um de nós tem, pela palavra de Cristo em Mateus capítulo 18, um anjo que vê sem cessar o rosto do Pai, então o número de inteligências não humanas que cercam este planeta agora, neste minuto, é da ordem de oito bilhões a mais. Sem contar, claro, os outros.
Os caídos. Os Vigilantes que não cumpriram a tarefa. Os que continuam por aí, monitorando suas missões mal terminadas, voando sobre silos nucleares como o mosquito voa sobre uma vela quase apagada, querendo soprar antes que se apaguem de vez, querendo soprar e não conseguindo, porque a coleira ainda os segura. Quem segura a coleira é o Outro. É o que está no terraço. É o que não tem nome de pessoa, tem nome de Pessoa.
VII
A esta altura, leitor paciente, você já se cansou de mim e quer voltar para o noticiário, que é, como dizia o velho cronista, o lugar onde a humanidade vai se aliviar da metafísica. Compreendo. Permita-me, antes que saia, uma palavra a mais. É a palavra de fechamento desta crônica, e é também a palavra com a qual o Evangelho de São João abre o seu primeiro capítulo. “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.”
O leitor materialista, que chegou até aqui por curiosidade ou por insônia, lerá esta frase como retórica antiga. Eu leio-a como dado. Diante de tudo o que escrevi, dos Vigilantes ao tesseract, das pirâmides às naves que entram no mar a mil nós, da Lua exata aos Epsteins do mundo, do quinto andar ao terraço, há uma e apenas uma chave que abre todas as portas sem precisar arrombar nenhuma. Essa chave é Cristo.
Não o Cristo decoração de altar, não o Cristo do estampido de Páscoa, não o Cristo dos políticos vestidos de bispo na hora do almoço; o Cristo do Evangelho, o que disse, em João capítulo 8, versículo 32, “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”, e que entendia da palavra que usava, porque Ele era a verdade. O Cristo que, em três anos de ministério, expulsou demônios com mais frequência do que prometeu reforma tributária. O Cristo que sabia que os Vigilantes estavam por aí e que não os temia, porque o terraço estava com Ele, e Ele estava no terraço, e por uma graça que nenhuma simulação consegue programar, desceu à nossa quarta dimensão miserável para morrer numa cruz romana, num pedaço pequeno de um pedaço pequeno deste planeta-experimento, e ressuscitar para que os experimentos malvados de quem quer que seja, em laboratório ou em ilha, em porão oceânico ou em escritório de Washington, tenham um dia de explicar à Inteligência Original o que estavam, exatamente, tentando fazer com o gato.
E se. E se. E se fôssemos o bichinho de estimação de seres antigos que nos olham com fome e nojo, que nos mantêm dentro do quintal cósmico chamado órbita de Marte, que sopram nas velas das nossas torres de Babel para que nunca cheguemos longe demais, que nos vendem a ilusão de quatro dimensões para que jamais imaginemos o terraço?
Pois respondo. Não somos. Não pertencemos a eles. Pertencemos a Outro. Esse Outro veio aqui, comeu o nosso pão, chorou nossas lágrimas, sangrou nosso sangue e deixou um endereço para quem quiser sair do experimento. O endereço é uma porta. A porta tem um nome. O nome ainda é, há dois mil anos, o mesmo. Quem entrar por ela passa, no idioma dos anjos, do quarto andar direto ao terraço, sem escala em nenhum porão.
Os Vigilantes que se acomodem nas suas correntes. O bichinho aprendeu a ler.









