A infraestrutura brasileira de Jeffrey Epstein
Como o maior predador sexual da história americana montou uma operação de 17 anos no Brasil, com CPF, apartamento, escritório de advocacia, recrutamento de meninas e acesso à elite financeira do país
Essa é uma reportagem investigativa das ligações de Jeffrey Epstein no Brasil com a ajuda da IA da Arvor (https://arvor.co)
Na manhã de 2 de abril de 2003, um Boeing 727 de cauda registrada como N908JE decolou das Ilhas Virgens Americanas com destino ao Aeroporto de Guarulhos. A bordo, seis passageiros: Jeffrey Epstein, Ghislaine Maxwell, Jean-Luc Brunel, Sarah Kellen, Naomi Campbell e uma massagista chamada Magale Blachou. O avião, que a imprensa americana viria a batizar de “Lolita Express”, já carregava uma reputação sinistra. A supermodelo e o financista bilionário eram as figuras públicas. Brunel, o agente de modelos francês, e Kellen, a agendadora de “massagens” com menores, eram as engrenagens do sistema. A massagista era o eufemismo em pessoa.
Três semanas depois daquele pouso em São Paulo, Jeffrey Edward Epstein estaria registrado na Receita Federal do Brasil. O CPF foi emitido em 23 de abril de 2003, no endereço da Rua da Consolação, 247, 3º andar, que corresponde ao escritório do Machado Meyer Sendacz & Opice Advogados, um dos maiores do país (EFTA00299901). Em maio, Epstein já era proprietário de um apartamento de 93 metros quadrados na Vila Olímpia, bairro nobre de São Paulo, comprado por R$ 245 mil. Antes do final do ano, já teria jantado com executivos do Itaú BBA, negociado reuniões com o presidente do Banco Central e recebido propostas de investimento do homem mais rico da América do Sul.
O Brasil não foi, para Epstein, uma escala tropical entre voos de jato particular. Foi um teatro de operações. E a análise forense de cerca de 580 mil documentos liberados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, combinada com buscas em bases de dados de grafos e dezenas de pesquisas em fontes abertas, permite reconstruir, com precisão documental que dispensa adjetivos, a extensão e a profundidade dessa operação.
Este artigo apresenta pela primeira vez, em português, o mapa completo das conexões de Epstein com o Brasil: mais de 120 nomes identificados, 150 documentos citados individualmente, dez transferências bancárias diretas, seis propriedades identificadas ou oferecidas, um helicóptero exportado, um CPF ativo até hoje e pelo menos uma vítima brasileira que, aos 14 anos, foi designada “Minor Victim 1” no indiciamento federal que levaria Epstein à morte na cela.
Uma observação de método antes de prosseguir: a presença de um nome nos documentos de Epstein não equivale a participação em crimes. Contato social não é cumplicidade. Relação profissional não é conspiração. A distinção entre essas categorias só pode ser estabelecida por investigação formal com poder de intimação, oitiva e perícia. O que este artigo faz é fornecer, com citação de fonte para cada afirmação, o mapa do que os documentos dizem. Que as autoridades competentes façam o resto.
O brasileiro Jeffrey Epstein
Os extratos da conta 739-110438 do JPMorgan Private Bank documentam, com a aridez própria dos balancetes, a montagem de uma infraestrutura legal no Brasil. O primeiro pagamento ao Machado Meyer, datado de 22 de abril de 2003, no valor de 76 mil a 78 mil dólares, traz uma referência que não admite ambiguidade: “PURCHASE OF APT IN BRAZIL” (EFTA01482376, EFTA01526036). É o apartamento da Vila Olímpia, formalizado em maio por aproximadamente R$ 245 mil
O Machado Meyer Sendacz & Opice é, para quem não acompanha o mercado jurídico, um dos dez maiores escritórios de advocacia do Brasil, com atuação em fusões e aquisições, mercado de capitais e direito societário desde 1972. Que um pedófilo condenado tenha contratado esse escritório para montar sua base operacional no país é um fato jornalístico que merece registro, embora não implique responsabilidade do escritório por atos de seu cliente.
Os pagamentos ao Machado Meyer prosseguiram por pelo menos dezoito meses. Ao todo, somam aproximadamente 94.595 dólares em pelo menos dez faturas entre abril de 2003 e outubro de 2004 (EFTA01482652, EFTA01526549). O valor e a duração sugerem serviços que iam além da simples compra do apartamento: manutenção do CPF, procuração, e possivelmente abertura de estruturas societárias.
No inventário de documentos apreendidos pela polícia americana, o CPF brasileiro de Epstein aparece guardado com uma “procuração antiga” (”Brazilian CPF — Has old POA in it”), ao lado de documentos da MC2 de Brunel (EFTA00299901). A proximidade física desses papéis num mesmo gabinete insinua o que a análise documental confirma: a infraestrutura legal no Brasil e o esquema de modelos eram peças da mesma engrenagem.
Em outubro de 2011, Nicole Junkermann, investidora israelense-alemã que aparece em 1.927 documentos nos arquivos Epstein, perguntou ao financista: “What do you think about taking brazilian citizenship?” Epstein respondeu: “Interesting idea, however visas could be a problem” (EFTA00638201, EFTA00921556). A resposta revela que ele não descartava a ideia por desinteresse, mas por questões práticas. À época, Brasil e Estados Unidos não possuíam tratado bilateral de extradição, o que tornava o país um refúgio potencial para quem quisesse evitar o braço longo da lei americana.
Epstein vendeu o apartamento da Vila Olímpia em agosto de 2005, com prejuízo de 28%, a Ana Maria Gomes Macedo, por R$ 179.300. A venda coincide com o período em que a polícia de Palm Beach iniciou sua investigação sobre o financista. Mas sair do apartamento não significou sair do Brasil. Os documentos mostram que Epstein manteve operações no país por mais catorze anos, até sua prisão em julho de 2019.
Em nenhum outro país da América Latina, Epstein montou estrutura comparável. A Argentina aparece em 41 documentos, o Chile em 18, a Colômbia em 22. O Brasil, com mais de mil referências diretas, era incomparavelmente mais central.
A agenda de endereços
O chamado “Little Black Book” de Epstein, com 97 páginas e mais de 1.500 nomes, contém um bloco dedicado ao “BRAZIL” na página 63 do caderno, além de entradas espalhadas com telefones de código +55. É o mapa social do projeto Brasil de Epstein, e cada nome nele registrado representa um vetor de acesso.
Falei sobre isso nessa thread do X aqui:
Mário Garnero Jr. aparece nas páginas 63 e 88 do caderno, com telefones de São Paulo e endereço na Avenida Brigadeiro Faria Lima, sede do Brasilinvest (EFTA00183004). Para o leitor brasileiro, o contexto é necessário: Mário Garnero pai é fundador do Brasilinvest Group, banco de investimento que atraiu 16 bilhões de dólares em investimentos para o país. Jacob Rothschild o chamava de “quarto filho”. Nathaniel Rothschild integrou o conselho do Brasilinvest desde 2002. A entrada no Black Book o coloca na seção “Travel”, junto com Aero Leasing, Air France e American Express. Nos documentos do Elasticsearch, “Garnero” retorna três ocorrências, incluindo uma tabela financeira de empresas de aquisição de propósito específico (SPACs) que lista o nome como alvo de investimento (EFTA01414378). A conexão é de agenda de contatos, não de comunicação direta.
Cecília e Abram Szajman aparecem na página 63, bloco “BRAZIL”, com dois telefones de São Paulo. Abram Szajman preside a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomércioSP) desde 1984 e fundou a VR Benefícios. O casal dá nome a um campus do Hospital Albert Einstein no Morumbi. “Szajman” retorna zero documentos relevantes nos arquivos do caso. A presença é exclusivamente de agenda.
Pedro Diniz, ex-piloto de Fórmula 1 e filho de Abílio Diniz, fundador do Grupo Pão de Açúcar, aparece com endereço na Rua Amauri e telefones de São Paulo. “Pedro Diniz” como frase exata retorna zero documentos nos arquivos. No grafo Neo4j, o sobrenome “Diniz” co-ocorre com Calvin Klein, Sharon Stone e Mario Testino, sugerindo contexto de eventos de moda e celebridades, mas sem comunicação direta com Epstein.
Riccardo Mansur Filho, anotado como “#1 Polo player”, aparece com telefone +55. Os 13 resultados de “Mansur” no Elasticsearch referem-se exclusivamente a homônimos: Mullah Mansur do Talibã, uma clínica em Nova York, uma compra no AliExpress pela namorada de Epstein. O polista Ricardo Mansur não aparece em nenhum documento do caso além do caderno. Em janeiro de 2026, confirmou por WhatsApp que seu nome estava no Black Book, mas negou qualquer relação com Epstein.
A entrada mais reveladora, porém, não tem nome de pessoa. Na página 8 do caderno, a palavra “Brazil” corresponde a um número de telefone da Karin Models Brasil, a agência de Jean-Luc Brunel. É o elo operacional entre o recrutador de modelos e os contatos brasileiros de Epstein: um telefone de agência de modelos, registrado como se fosse um contato de país.
E depois há Marcelo de Andrade, residente no Jardim Botânico, Rio de Janeiro, com nove números de telefone no Black Book. Andrade foi o intermediário social que abriu as portas da elite financeira brasileira para Maxwell e Epstein. Seus emails de dezembro de 2002 a março de 2003 constituem um roteiro de reuniões de alto nível.

Em 11 de dezembro de 2002, Andrade escreveu a Maxwell propondo encontros com Armínio Fraga (”President of Brazil Central Bank”), Jorge Paulo Lemann (”the most prestigious Business man in the region”) e Luís Fernando Levy, dono da Gazeta Mercantil. Epstein anotou ao lado do nome de Fraga: “Yes JE would like to meet him” (EFTA00578656). Andrade alertava: “These people are hard to catch at the last week of the year!”
Em 14 de março de 2003, semanas antes do voo ao Brasil, Andrade escreveu a Maxwell: “Dearest Ghislaine, I’m soooooooo happy you’re finally coming!” E acrescentou que a Gazeta Mercantil “may represent an interesting investment opportunity, since they are not in a comfortable financial position” (EFTA00578765). A relação afetiva com Maxwell transparece na linguagem: ele a chamava de “Bond Girl” e assinava “Um grande beijo, Marcelo”. Maxwell respondeu: “Personally I miss you” (EFTA00579700).
Jean-Marc Etlin, à época CEO do Itaú BBA, aparece em 30 documentos. Seu email foi solicitado pelo UBS Warburg em março de 2003, no mesmo período em que Andrade organizava reuniões com a elite financeira (EFTA00578798). Maxwell viajava a São Paulo e hospedava-se no Hotel Unique para jantares a sós com Etlin: “Jean Marc, this time I am coming to Sao Paulo. I will be staying at the Hotel Unique and staying from Wed to Sat. Will you be around? Can we get together and have dinner?” (EFTA00579968). Em outra mensagem, Maxwell lamentou não ter encontrado “Maggie”, possivelmente esposa de Etlin: “Sorry that I did not get to see Maggie and her bags” (EFTA02334662). Para quem não conhece: o Itaú BBA é o braço de atacado do maior banco privado da América Latina.
O Black Book, em sua totalidade, era uma ferramenta de poder. Os cinco nomes do bloco “Brazil” mapeiam cinco vetores de acesso: dinheiro (Garnero/Rothschild), poder institucional (Szajman/FecomércioSP), prestígio social (Pedro Diniz), tradição familiar (Mansur) e recrutamento de modelos (Karin Models/Brunel e, possivelmente, Naomi Campbell). É, em miniatura, o projeto Brasil de Epstein.
O mordomo
Valdson Vieira Cotrin aparece em mais de 4 mil documentos no Elasticsearch e em 1.131 no grafo Neo4j. É o funcionário mais documentado de toda a rede Epstein com conexão ao Brasil. Uma correção importante: dossiês anteriores o tratavam como brasileiro, apenas. Ele é nascido no Brasil, mas também teria nacionalidade portuguesa. Sua esposa, Maria da Conceição Gomes de Melo, é brasileira. A distinção consta em email de Lesley Groff, assistente executiva de Epstein: “Valdson is Portuguese. Maria Brazilian” (EFTA02266064).
Suas funções iam muito além das de um mordomo. Era motorista em Paris (167 menções a “drive”), chef (”excellent chef”, 64 menções a “cook”), coordenador de buscas no aeroporto Charles de Gaulle (504 menções a “airport”), comprador de itens de luxo (Apple Watches, bolsas da Hermès) e, de modo perturbador, recrutador de funcionários brasileiros.
O voo com a vítima. Em 30 de dezembro de 2006, Valdson embarcou no voo Continental Airlines 1884, de Newark para St. Thomas, acompanhando uma vítima identificada e outra jovem. O email organizando a viagem dizia: “You will be going with a girl named [REDACTED] and a guy named Valdson. They will both be staying at 301 E. 66 as well” (EFTA00145606, EFTA00146704). É a evidência mais direta que conecta Valdson ao transporte de vítimas para a ilha de Epstein.
A “menina no apartamento”. Em junho de 2009, Epstein escreveu a Maxwell: “tell valdson, he does not have to cook for the girl in the apt” (EFTA00882829). A instrução ia de Epstein a Maxwell, não diretamente a Valdson, e referia-se a uma “menina” no apartamento de Paris para quem Valdson cozinhava. O uso do artigo definido (”the girl”) indica que todos sabiam de quem se tratava.
O diário perturbador. Uma narrativa encontrada nos documentos descreve o cotidiano de alguém que convivia com Valdson e aprendia a cozinhar com ele, enquanto, simultaneamente, servia Epstein com “massagens” e oferecia “sex dvd”: “I cooked with valdson, Learned his fried egg and potatoes breakfast [...] I offer the sex dvd” (EFTA00765821). Valdson estava fisicamente presente no ambiente de abuso?
O sistema de transporte. Em setembro de 2018, Groff perguntou a Julia Santos, recrutadora de Epstein: “How do the girls get picked up from the airport? Valdson?” Julia respondeu: “Valdson usually organizes another driver for the guests” (EFTA02258599). Em maio de 2013: “Jeffrey has requested Valdson drive the girls everywhere they want to go!!” (EFTA00390073). O advérbio “usually” denuncia rotina, não exceção.
Valdson recebia salário de 67.300 euros por ano (EFTA01118173) e passagem anual ao Brasil paga por Epstein: “In addition we purchase an annual ticket for valdson each year to brazil” (EFTA01177826). Suas viagens ao país estão documentadas em ao menos seis ocasiões entre 2013 e 2019, incluindo uma ida a Brasília em janeiro de 2019 (EFTA02266249).
Em dezembro de 2018, Valdson recomendou a Epstein dois irmãos brasileiros oriundos de “círculos diplomáticos”: “They are a brother and a sister who have been working in diplomatic circles in Brasil” (EFTA02609786). Valdson não era apenas funcionário. Era recrutador de outros brasileiros para a máquina.
E há um detalhe que transforma o perturbador em sinistro: a pasta com documentos de Valdson foi marcada para deleção por um promotor federal em abril de 2021 (EFTA00105855), o mesmo ano em que Ghislaine Maxwell foi condenada. A pergunta se impõe: por que promotores federais quiseram destruir registros de um simples empregado doméstico?
O pipeline
A rede de recrutamento de mulheres e meninas brasileiras para o sistema Epstein operava em quatro camadas documentadas: agências de modelos, concursos de beleza, contatos pessoais e prostituição. No centro de todas elas estava Jean-Luc Brunel.
Brunel, agente de modelos francês que fundou a Karin Models e depois a MC2 Model Management (financiada por Epstein), aparece em 616 documentos. Em fevereiro de 2022, foi encontrado morto em sua cela na prisão de la Santé, em Paris, por suposto suicídio. Sua agência MC2 mantinha uma campanha chamada “Made in Brazil” (EFTA02442944, EFTA02442962). Brunel percorria cidades brasileiras buscando modelos: “I am going to Joao Pessoa tonight, Recife. Back in Natal. Then Sao Paulo where I have found a booker to bring back to NY” (EFTA02415937).
O depoimento de Maritza Vasquez, contadora da MC2, é o documento mais incriminatório. Vasquez testemunhou, sob juramento, que Brunel levou quatro meninas brasileiras da mesma agência à casa de Epstein (EFTA00181297, EFTA01248647). A “mother agent” dessas meninas era uma mulher negra cujo nome Vasquez disse ter fornecido anteriormente ao FBI, mas que não lembrava no momento do depoimento. Vasquez também confirmou que Brunel tinha uma fornecedora de prostitutas no Brasil:
“He was having a connection with a woman in Brazil that she was giving him prostitutes when he needed it [...] Real prostitutes [...] They were underage girls. Like, 16, 17, 18.” (EFTA00181297)
Vasquez atestou que meninas de 13 a 14 anos ficavam nos apartamentos financiados por Epstein, e que Brunel confessou abertamente: “One day he told me that he wishes he can sleep with one of those girls that was underage.” A frase final de Vasquez sobre o poder de compra no Brasil é um soco no estômago: “Five thousand dollars in Brazil is a lot of money. You know, you can buy a house.”
Ramsey Elkholy, intermediário de Epstein com 1.250 documentos nos arquivos, operava como caçador de agências de modelos no Brasil. Em setembro de 2016, propôs a Epstein comprar a Joy Models, cofundada por John Casablancas (fundador da Elite Agency, acusado de assédio a modelos menores) e Liliana Gomes, creditada pela descoberta de Gisele Bündchen. Epstein perguntou: “do you want to own a part of joy?” (EFTA02450934).
Em dezembro de 2016, Elkholy escreveu a frase que sintetiza todo o empreendimento numa sentença obscena: “maybe just buy Brazil for a couple hundred k, that will insure a steady stream of punani” (EFTA01786159). Em janeiro de 2017, reiterou: “My main focus was on Brazil, much cheaper shares and would get me the same results (pussy).”
Elkholy também negociou a compra da Ford Models Brasil, obtendo autorização de Epstein para assinar acordo de confidencialidade (NDA): “You can sign the NDA and get the Ford numbers” (EFTA02449800). Propôs concursos de beleza para atrair, nas suas palavras, “country bumpkins with no experience as models” (caipiras sem experiência como modelos) que poderiam ser levadas “anywhere in the US, or to Paris or the Caribbean.” O investimento proposto: 500 mil dólares para adquirir uma marca, com a promessa explícita de “having access to all the girls, with which you could decide what to do.”
Em janeiro de 2017, Elkholy sugeriu comprar a São Paulo Fashion Week inteira: “SPFW is up for sale. That would be great for you I think, you can buy it or we buy it together, and have me as casting director and you will be swimming” (EFTA02391888). A expressão “you will be swimming” (você vai nadar nelas) dispensa comentários. Para quem não conhece: a São Paulo Fashion Week é o maior evento de moda da América Latina, vitrine de centenas de modelos jovens a cada edição.
O concurso Models New Generation, organizado por Brunel, coroou a brasileira Alyne Weber, de 15 anos, natural de Seara, Santa Catarina, como vencedora, premiando-a com mais de 300 mil dólares em contratos de modelagem (HOUSE_OVERSIGHT_011908). A agência Mega Partners, de Brasília, confirmou que não conseguia trabalhar com a MC2 havia cinco a seis anos por causa das acusações de tráfico sexual (EFTA01122242). A Fox Fashion Agency, de Belgrado, enviou mensagem similar: “We can’t place any new faces with you because the parents will refuse” (EFTA01122242).
Três meses antes da prisão de Epstein, entre março e abril de 2019, Brunel empreendeu uma última turnê pelo sul do Brasil, visitando mais de vinte agências de modelos e focando, segundo reportagens do Breitbart e do Western Journal, em “fazendas e quadras de vôlei no estado mais ao sul”. O estado mais ao sul é o Rio Grande do Sul, vizinho de Santa Catarina, onde ficam Florianópolis (propriedade de Epstein segundo denúncia do FBI) e Blumenau (destino de transferência bancária para uma brasileira chamada Raquel Goetten). A Agência Pública reportou que, nessa viagem, a escolha principal de Brunel foi uma menina de 13 anos chamada “Marcela”. Brunel visitou a mãe da menina, ofereceu pagamento em dólares e prometeu uma viagem à Disney. O agente local achou a oferta suspeita. Quando confrontado por WhatsApp após a prisão de Epstein, Brunel respondeu: “Someone I was friends with went to prison, but I have nothing to do with it.”
Os investigadores americanos perguntaram diretamente ao piloto de Epstein: “Ever heard that he imports underage girls from Brazil to his island in St. Thomas?” O piloto respondeu: “No, no, never heard that” (EFTA00181380). A pergunta, por si só, demonstra que as autoridades possuíam informações de inteligência sobre importação de menores brasileiras. A resposta, como tantas outras neste caso, demonstra que ninguém nunca ouviu nada.
As vítimas
Marina Lacerda é brasileira, imigrante que vivia em Queens, Nova York, com a mãe e a irmã num único quarto. Foi designada “Minor Victim 1” no indiciamento federal de 2019. Recrutada aos 14 anos em 2002 para “massagem” na residência de Epstein, acreditou que a associação com o financista “abriria portas para ela como imigrante do Brasil”. Epstein perdeu interesse quando ela completou 16 a 17 anos, dizendo: “you’re too old.” Após isso, Marina passou a recrutar outras jovens, transformando-se de vítima em peça da engrenagem, conforme o mecanismo piramidal que Epstein aperfeiçoou. Em setembro de 2025, Marina falou publicamente pela primeira vez, testemunhando perante membros do Congresso americano e exigindo transparência nos arquivos.

Uma vítima de São Paulo foi abusada entre 2002 e 2009, em Nova York, Palm Beach e na própria capital paulista, e traficada para pelo menos dois outros homens. O caso está documentado no email da advogada Mariann Wang ao SDNY, promotoria federal de Nova York (EFTA00091003).
Alfredo Rodriguez, gerente doméstico de Epstein que morreu em 2015 após tentar vender o Black Book ao FBI, descreveu ter visto “naked girls from Brazil [...] all minors, all young girls... they had braces” (EFTA00263107). O detalhe do aparelho ortodôntico é, ao mesmo tempo, marca de adolescência e cicatriz documental.
Um “Brazilian bathing suit” (traje de banho brasileiro) consta como evidência física apreendida pelo FBI, dado por Epstein a uma vítima menor (EFTA01697637). O FBI emitiu recibo formal de propriedade. Epstein trazia presentes do Brasil para suas vítimas, o que demonstra que as viagens ao país e a exploração sexual não eram domínios separados, mas partes de um mesmo fluxo contínuo.
A partir de janeiro de 2011, emails descrevem o recrutamento de uma mulher dos arredores de Natal, no Rio Grande do Norte. Oriunda de “família simples”, não falava inglês e nunca viajara. Epstein pediu fotos em traje de banho e roupa íntima. A intermediária que a apresentou sugeriu que ambas viajassem no mesmo voo “para facilitar a jornada”. Não está confirmado se a viagem se concretizou. Esse caso, porém, deflagrou em fevereiro de 2026 a investigação do Ministério Público Federal, conduzida pela Unidade Nacional de Combate ao Tráfico de Pessoas (UNTC), sob a procuradora da República Cinthia Gabriela Borges. É a primeira investigação formal brasileira sobre a rede Epstein.
O FBI identificou outra pessoa nascida no Brasil, em 29 de junho de 1988, residente em Astoria, Queens, que foi classificada simultaneamente como vítima e coconspiradora: “She is more properly classified as a victim. She could be charged as a co-conspirator during the period that she recruited girls” (EFTA00234715). A frase ilustra, com a precisão fria de um relatório policial, o mecanismo piramidal de Epstein: vítimas recrutando vítimas, numa cadeia em que a fronteira entre crime e exploração se dissolve.
Julia Santos, recrutadora operacional que aparece em 122 documentos, avaliava mulheres por idade e aparência em Moscou, Kiev e Paris, reportando diretamente a Epstein. Sobre uma candidata em Moscou: “Dark. Seems pretty cute in the pictures. Shall I meet in person?” Epstein respondeu com uma única palavra: “Eye color?” (EFTA02344845). Sobre outra: “She refused to tell me. I think 26.” Epstein respondeu, também com uma única palavra: “Age” (EFTA02398135). Quando Julia informou que uma mulher ficaria no apartamento de Paris, Epstein ordenou: “NO FOOD IN THE FRIDGE. She needs to lose 6 kilos” (EFTA00964428). O controle de peso era mecanismo de controle, não recomendação dietética.
Elen Capri de Souza Ferreira, modelo da Mega Model Brasil e DJ em Nova York, é a mulher brasileira mais documentada nos arquivos Epstein, com 218 documentos. Manteve relação íntima e prolongada com o financista entre novembro de 2011 e julho de 2012. “I want sleep w uuuuuuuuu”, escreveu ela (EFTA02380854). “My lover. Wait for me [...] love you take care” (EFTA02551040). Epstein a convidava para a ilha: “Sunday 1st to island?” Ela respondia: “Yeahhhhhhhhhhhh loveeeeee” (EFTA02405056).
Epstein a direcionou para a agência Next Models e insistiu em enviar dinheiro: “I want to give or send you money. I don’t like it that you have none” (EFTA02551045). Elen forneceu dados de sua conta no Banco Itaú. O padrão de controle era claro: “you only think of your own pleasure, you come and tell me you chill all day in the apartment day after day, but did not have any time at all to make my playlist” (EFTA02381758). Ele controlava seu tempo, suas atividades e suas finanças. A questão central permanece sem resposta: Elen era vítima ou participante voluntária? A assimetria de poder, a dependência financeira e a coordenação pelas mesmas pessoas que organizavam o tráfico (Sarah Kellen, Lesley Groff) sugerem que Elen ocupava uma zona cinzenta deliberadamente criada pelo sistema Epstein, em que as fronteiras entre consentimento e exploração eram apagadas como se fossem inconvenientes.
A Elite Brasileira de Epstein
Banqueiros, bilionários, políticos e o rastro do dinheiro: como o financista americano penetrou nos círculos mais exclusivos do Brasil e apostou contra a economia do país
A elite
Quem procura nos documentos de Epstein o nome dos grandes banqueiros brasileiros encontra, com frequência, mais do que esperava, e menos do que temia. Encontra reuniões agendadas, almoços propostos, jantares realizados, propostas de negócios encaminhadas. Não encontra, salvo raras exceções, evidência de participação em crimes. A distinção é importante e deve ser respeitada ao longo de todo este texto. Mas a distinção não deve servir de biombo para esconder a pergunta mais incômoda: o que todos esses homens inteligentes e bem informados sabiam sobre Jeffrey Epstein quando se sentaram à mesa com ele?
Eike Batista, o empresário brasileiro mais documentado nos arquivos, aparece em 105 documentos. A rede que o conectava a Epstein tinha quatro elos. O primeiro era Leon Black, fundador da Apollo Global Management, que pagou 170 milhões de dólares a Epstein ao longo de anos e o recomendou pessoalmente: “Leon Black told me I would like EB” (EFTA00929717). O segundo era Ian Osborne, intermediário britânico que viajou ao Brasil pelo menos dez vezes em dezoito meses entre 2011 e 2013, servindo como ponte entre Epstein e a elite financeira do país. Osborne tentou convencer Eike a fazer uma parada na ilha de Epstein: “He lands later tonight here in NY and I’ll try to convince him to stop off. He wants to meet you though” (EFTA00929266). Em 30 de abril de 2012, alguém informou a Epstein: “Eike Batista is here” (EFTA02398278). Epstein respondeu: “I know, he is with ian osborne, or so ian says” (EFTA00933687).
O terceiro elo era um negócio portuário. Epstein intermediou pessoalmente negócio entre Eike e Sultan Ahmed bin Sulayem, presidente do grupo DP World (operador de portos no mundo inteiro), em Santos: “I know that eike batista approached hutchinson to jv a new port in brazil, he has cash problems.. any interest?” (EFTA00941614). O quarto elo era mais mundano: Epstein tentou conectar Eike a Isabel dos Santos, da Angola (depois condenada por corrupção): “eike batista from brazil, richest guy there, would like also to meet with isabel dos santos in london or paris” (EFTA00947615). Quando a fortuna de Eike desmoronou, Epstein comentou com Jes Staley, então CEO do JPMorgan: “eike batista having a rough week” (EFTA00939325). O cinismo era precisão cirúrgica.
Jorge Paulo Lemann, cofundador da 3G Capital e um dos homens mais ricos do Brasil, aparece em 10 documentos. Boris Nikolic, ex-assessor de Bill Gates e nexo entre Gates e Epstein, reportou uma reunião de cinco horas com Lemann em outubro de 2013: “Just left Jorge Paulo Lemann. Spent with him 5h. Immediately after I told him that I am leaving Bill and thinking of a fund, he offered to invest (I did not ask him)” (EFTA00973385). Lemann aparecia como item 2 numa lista de investidores que incluía David Rubenstein, Elon Musk, Jonathan e George Soros e Leonard Lauder (EFTA00973929). Não há evidência de que Lemann tenha se reunido diretamente com Epstein. O contato documentado é com Nikolic, não com o financista condenado.
André Esteves, CEO do BTG Pactual, aparece em 2 documentos diretos e 14 sob a sigla “BTG”. Ian Osborne escreveu a Epstein em março de 2012: “Now helicoptering to meet Andre Esteves” (EFTA00672100). Daniel Sabba, operador do Deutsche Bank dedicado à conta de Epstein, encaminhou diretamente ao financista a notícia da prisão de Esteves em novembro de 2015, durante a Operação Lava Jato (EFTA00627471), sugerindo que Epstein acompanhava com interesse os desdobramentos da investigação brasileira. Esteves nega qualquer contato com Epstein.
A família Safra aparece em 198 documentos, quase todos referentes a Jacqui Safra, sobrinho do banqueiro Edmond Safra. Jacqui integrava o círculo social íntimo de Epstein e participou do jantar de bilionários da Edge Foundation em Vancouver, em março de 2014, junto com Epstein, Jeff Bezos, Larry Page e Sergey Brin. John Brockman, presidente da Edge Foundation, intermediava a relação e oferecia oportunidades: “Had dinner with Jacqui last night, whose is in town scrambling because his loan at one of the big banks is not getting renewed. Something for you??” (EFTA02413047). A conexão Safra se estende ao Deutsche Bank por meio de Bernardo Parnes, que antes de ser CEO da divisão América Latina do banco alemão trabalhou no escritório familiar (family office) de Joseph Safra. A cadeia Safra, Parnes, Deutsche Bank, Epstein está documentada. Se ela implica conhecimento ou cumplicidade, é pergunta para investigadores, não para jornalistas.
Ian Osborne, com 1.983 documentos e 20 menções ao Brasil, merece menção à parte. Em março de 2013, reportou a Epstein: “Tomorrow and Sunday with [Itau] and Marinho (Globo) families, two of the three richest & most powerful here” (EFTA00955922). As famílias Setúbal/Villela (Itaú) e Marinho (Globo) aparecem por meio de Osborne, não de comunicação direta com Epstein. Osborne operava como emissário dos bilionários, e seu ritmo de viagens ao Brasil (ao menos dez em dezoito meses) indica que o país era uma frente prioritária de prospecção para Epstein.
Arthur Casas, um dos arquitetos mais premiados do mundo, com mais de 500 projetos no currículo, foi contratado em janeiro de 2016 para projetar construção na ilha Little St. James. A correspondência entre Lesley Groff e o estúdio de Casas (via sua assistente Kelen Bighetti) revela o processo em detalhe. Em 28 de janeiro, Groff escreveu: “Jeffrey is asking if you would like to go tour the island today after you land” (EFTA00332148). Casas visitou a ilha com sua equipe, e pagamentos foram feitos em reais, com cotação de R$ 4,10 por dólar. O projeto ficou em espera por seis meses por questões de permissão de construção. Nenhuma fonte pública conecta Casas a Epstein. A relação documentada é profissional, mas o fato de ter visitado Little St. James é jornalisticamente relevante.
Quem não aparece também interessa: Olavo Egydio Setúbal (6 resultados, todos referentes a Puerto Rico), Luiz Carlos Trabuco (0), Marcel Telles (0), Pedro Moreira Salles (0), Daniel Dantas (0), Sérgio Moro (0). A ausência desses nomes nos documentos é um fato tão relevante quanto a presença dos demais.
O eixo político
Em 21 de setembro de 2018, às 13h33, Jeffrey Epstein escreveu a Steve Bannon por iMessage: “Chomsky called me with Lula. From prison. What a world” (EFTA01615358, HOUSE_OVERSIGHT_027406).
Noam Chomsky, o linguista e intelectual americano considerado o mais influente pensador vivo da esquerda global, estava no Brasil. No dia anterior, junto com sua esposa Valeria Wasserman Chomsky (brasileira, formada pela Universidade Federal Fluminense e pela PUC-Rio), havia visitado o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cela da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba. Lula estava preso desde abril de 2018. Valeria aparece em 1.229 documentos junto com Chomsky no grafo Neo4j, demonstrando que era presença constante na comunicação deste com Epstein.
A versão exata do evento é disputada. Glenn Greenwald reportou que Valeria negou que Chomsky tivesse ligado para Epstein de dentro da prisão com Lula. O que os documentos dizem, sem margem para disputa, é o que Epstein escreveu a Bannon.
Bannon respondeu em dois minutos: “Tell him my guy is going to win in the first round.” Epstein encaminhou uma notícia sobre o Partido dos Trabalhadores e acrescentou: “Bolsonara the real deal.” Bannon corrigiu a grafia e reforçou: “Bolsonaro is the REAL deal.”
As conversas entre Epstein e Bannon sobre o Brasil constituem uma cronologia de vinte mensagens ao longo de sete meses, de setembro de 2018 a março de 2019. São um documento de como dois homens no topo da cadeia alimentar do poder global acompanhavam, como quem monitora um investimento, a ascensão de um líder populista no maior país da América Latina.
6 de setembro de 2018: Bannon informa sobre a facada em Bolsonaro. Epstein responde: “Better him than me” (EFTA01615311). A frase, traduzida pela Gazeta do Povo como “Antes ele do que eu”, é de uma crueza que dispensa comentário.
8 de outubro de 2018: Epstein demonstra conhecimento detalhado da economia brasileira: “Bolsonaro is a game changer. No refugees wanting to get in. No Brussels telling him what to do. He only has to get the economy restarted. MASSIVE. 1.8 TRILLION. gdp” (EFTA01615400). O PIB do Brasil em 2018 era de fato 1,8 trilhão de dólares. Epstein via Bolsonaro como oportunidade de mercado, não como projeto ideológico.
12 de outubro de 2018: A mensagem mais explosiva. Epstein agrupou Bolsonaro com Marine Le Pen, Matteo Salvini e Wilbur Ross (secretário de Comércio de Trump) como “portfólio” de líderes populistas e alertou Bannon sobre excesso de exposição. Bannon respondeu com a frase que, isolada de todo o resto, justificaria este artigo: “Got to keep the jair thing behind the scenes” (EFTA01615409).
Epstein brincou com “MBGA” (Make Brazil Great Again). Bannon admitiu, em texto, que sua relação com Bolsonaro deveria permanecer secreta, no mesmo período em que Bolsonaro negava publicamente qualquer associação com o estrategista americano, chamando as notícias de “fake news”.
9 de fevereiro de 2019: Epstein mediou um encontro entre Chomsky e Bannon, advertindo: “His wife is Brazilian so go gently re bolsonaro. They are friends with Lula” (EFTA01615614). O encontro de fato aconteceu e durou três horas. Bannon comentou depois: “Great gentleman. Love the wife.”
17 de março de 2019: Semanas antes da prisão, Epstein escreveu a Bannon: “I fully understand my toxicity for the moment. And I want you to win” (EFTA01615655). A frase demonstra que Epstein tinha plena consciência de que sua reputação era um passivo, e mesmo assim continuava a organizar encontros entre figuras do mais alto escalão global. A toxicidade era reconhecida. A utilidade, aparentemente, a superava.
Epstein funcionava como eixo geopolítico. Mediava conversas entre Bannon (direita populista), Chomsky (esquerda intelectual) e Miro Lajcak (ministro das Relações Exteriores da Eslováquia e presidente em exercício da OSCE), com jantares documentados na residência de Epstein em Manhattan (EFTA02244753, EFTA02240659). O Brasil não era tema casual nessas conversas. Era variável geopolítica que Epstein acompanhava com atenção de operador do mercado financeiro. Bolsonaro era “game changer” porque representava 1,8 trilhão de dólares em PIB. Lula era interessante porque Chomsky o visitava na prisão. Cada personagem político era avaliado pela função que exercia no portfólio de influência do financista.
A lista oficial de participantes do Fórum Econômico Mundial de 2011, encontrada nos arquivos de Epstein (HOUSE_OVERSIGHT_017060), contém os nomes de Antonio de Aguiar Patriota (chanceler), José Sérgio Gabrielli de Azevedo (CEO da Petrobras), Almir Guilherme Barbassa (CFO da Petrobras) e Frederico Fleury Curado (presidente da Embraer). Nenhum deles aparece em comunicação direta com Epstein, mas seus nomes constavam em documento que o financista mantinha em seus arquivos. A SwissInfo descreveu Epstein como “concierge de Davos”, alguém que utilizava o fórum para intermediar reuniões de alto nível. O WEF abriu investigação interna em fevereiro de 2026 contra seu próprio CEO, Børge Brende, por conexões com Epstein.
Os imóveis
A cartografia imobiliária de Epstein no Brasil é, por si só, um mapa de intenções. Além do apartamento comprado e vendido na Vila Olímpia, os documentos revelam interesse consistente por propriedades no Rio de Janeiro e no sul do país.
A denúncia do FBI (EFTA00020470, EFTA01244904) menciona “studio apartment in Ipanema, Brazil, and Florianópolis, Brazil”. A referência a Ipanema aparece num contexto que envolve Lord Peter Mandelson, político britânico que consultou Epstein sobre a compra de um apartamento no Condomínio Conde de Mallorca, na Rua Joana Angélica, Ipanema: R$ 5 milhões, 225 metros quadrados, quatro suítes. Mandelson declarou: “I have decided to please R [Reinaldo] as well as make an investment.” Epstein perguntou, com a precisão de quem entende de estruturas patrimoniais: “what happens if something happens to Reinaldo... do you get it, or does his family?” (EFTA02419968). Reinaldo é Reinaldo Ávila da Silva, brasileiro nascido em 1972, que emigrou para Londres nos anos 1990 e casou-se com Mandelson em 2023. Epstein financiou os estudos de osteopatia de Reinaldo e encaminhava seus emails diretamente a Mandelson. Uma empresa registrada no Rio de Janeiro, para “purchasing and selling real estate”, teve os dois como diretores. Foi liquidada em 2014. A estrutura offshore envolvendo Panamá e HSBC Private Bank Rio completa o quadro.
Em agosto de 2010, Matthieu de Boisseson, advogado francês membro da Câmara de Mediação e Arbitragem Empresarial do Brasil (CAMARB), encaminhou a Epstein uma oferta imobiliária de R$ 22 milhões na Avenida Delfim Moreira, Leblon: 640 metros quadrados, cinco suítes, no metro quadrado mais caro do Rio de Janeiro. A corretora era Laine Pereira (laineper@uol.com.br) (EFTA02407976). Boisseson, suspenso pelo Littleton Chambers de Londres em janeiro de 2026 por vínculos com Epstein, trocava emails perturbadores com Brunel: “Elle veut un enfant” (”Ela quer um filho”) e “I promise to take care about the child (and the mother) for vacation” (EFTA00969922). Não há evidência de que a compra do imóvel no Leblon tenha se concretizado.
Florianópolis, mencionada na denúncia do FBI junto com Ipanema, aparece em 14 documentos no Elasticsearch. Nunca foi investigada formalmente. A convergência geográfica é notável: Florianópolis (propriedade mencionada pelo FBI), Blumenau (destino de transferência bancária para Raquel Goetten), Santa Catarina (rastreamento de Maxwell e Brunel após a morte de Epstein pela Sky News) e Rio Grande do Sul (última turnê de Brunel em 2019) formam um corredor que vai de Curitiba a Porto Alegre, passando pela região de maior concentração de descendentes de europeus no Brasil.
Um helicóptero Sikorsky S-76C+ (serial 760472, registro N162AD) foi comprado pela Greenwich Aerogroup Brazil Leasing, Inc. de uma empresa anteriormente chamada “Air Ghislaine, Inc.” (renomeada Freedom Air International). O aparelho foi desregistrado do FAA em 10 de abril de 2013 e exportado para o Brasil (EFTA00311004, EFTA01326828). O valor estimado de um Sikorsky S-76C+ é de 5 a 8 milhões de dólares. Para quem o helicóptero operava no Brasil e a partir de onde, são perguntas sem resposta nos documentos.
O rastro do dinheiro
A reconstrução financeira das operações de Epstein no Brasil revela um padrão de sofisticação que vai muito além da compra de um apartamento em bairro paulistano. Epstein operava simultaneamente no mercado de capitais, no mercado imobiliário e no sistema bancário brasileiro, com posições que somavam, em valor nocional, mais de 15 milhões de dólares.
A aposta contra o Brasil. Em janeiro de 2015, Epstein comprou proteção via seguro contra calote soberano, o chamado Credit Default Swap (CDS), contra a dívida soberana da República Federativa do Brasil, numa operação de 10 milhões de dólares de valor nocional, intermediada pelo Deutsche Bank. Pagou 491.941 dólares de prêmio. Quando a crise política e econômica de 2015, acelerada pela Lava Jato, pelo impeachment de Dilma Rousseff e pela queda da Petrobras, levou o país ao rebaixamento de sua nota de crédito para grau especulativo (”junk”), Epstein encerrou a posição em 15 de janeiro de 2016 e embolsou 1.278.512 dólares, para um lucro líquido de 786.571 dólares e retorno de 160% (EFTA01459819, EFTA01477485). Daniel Sabba, gestor de clientes estratégicos do Deutsche Bank dedicado à conta de Epstein, aparece em 3.599 menções nos arquivos e intermediou todas as operações financeiras do financista no Brasil. A ironia perversa é que Epstein lucrava com a crise que empobrecia o mesmo país de onde recrutava suas vítimas.
Sabba enviava atualizações diárias dos CDS brasileiros a Epstein: “Brazil CDS closed at 289/294, up 15bps” (EFTA01461083). O monitoramento era obsessivo e cotidiano. Quando André Esteves foi preso pela Lava Jato em novembro de 2015, foi Sabba quem encaminhou a notícia diretamente a Epstein (EFTA00627471), sugerindo que o financista acompanhava os desdobramentos da maior investigação criminal da história brasileira como quem acompanha a cotação de um ativo.
Ações de bancos brasileiros. Epstein detinha 519 ações do Itaú Unibanco e 498 ações do Bradesco (EFTA00284678), além de operar posições de 5 milhões de dólares em opções de câmbio do real (EFTA01385511) e CDS sobre a Petrobras (EFTA01362029). A combinação de posições longas em ações de bancos com posições curtas em CDS soberano configurava uma estratégia de proteção (hedge) sofisticada.
Transferências bancárias diretas. Os registros financeiros revelam um padrão de transferências bancárias ligadas a Epstein com destino ao Brasil ao longo de mais de quinze anos. Em abril de 2003, o escritório Machado Meyer Advogados recebeu mais de 76 mil dólares via JPMorgan com destino ao Itaú, conforme o documento EFTA01482376. Um ano depois, em abril de 2004, uma transferência modesta de 550 dólares foi enviada a Raquel Elis Goetten por meio do Banco do Brasil, agência de Blumenau (EFTA01482482). Em julho de 2005, Alessandra Gomes de Macedo recebeu 37.929 dólares via Bradesco (EFTA01482620). Já em dezembro de 2007, o escritório Bernardes Jacobsen Arquitetura figura como beneficiário de 1.614 dólares transferidos ao Itaú (EFTA01590282).
O fluxo mais intrigante, porém, aparece na fase tardia. Entre dezembro de 2016 e janeiro de 2019, transferências recorrentes de 5 mil euros eram enviadas ao Banco do Brasil por intermédio de uma mulher identificada apenas como “Marcela”, com destino final a um tal “Valdson”, conforme a série documental iniciada em EFTA01410865. Em junho de 2018, outra remessa de 4.615 euros com destino ao Banco do Brasil foi retida pelo Banco Central (EFTA01407915). E em janeiro do mesmo ano, um registro interno de Epstein faz referência direta a “4 wires to Brazil account”, totalizando 20 mil euros encaminhados ao Banco do Brasil (EFTA01014073). O conjunto dessas movimentações sugere não um episódio isolado, mas uma relação financeira sustentada, cujos verdadeiros propósitos ainda aguardam esclarecimento.
A transferência retida pelo Banco Central. Em junho de 2018, o Banco Central do Brasil reteve uma transferência de 4.615 euros de Epstein. Bella Klein, coordenadora financeira do sistema, escreveu ao Deutsche Bank pedindo o cancelamento: “Brazil Central Bank holds the money and does not release to the recipient” (EFTA01407915). Seis dias depois, mudou de ideia: “Please stop the recall” (EFTA01407810). O dinheiro foi liberado. A retenção, mesmo que temporária, indica que as autoridades brasileiras detectaram e sinalizaram a transação. Se houve acompanhamento posterior, os documentos não dizem.
O mistério Macedo. O sobrenome “Macedo” aparece três vezes em contextos distintos, mas potencialmente conectados: Alessandra Gomes de Macedo recebeu 37.929 dólares via Bradesco, com a referência direta “NBNF=JEFFREY E EPSTEIN NEW YORK NY 10022” (EFTA01482620). Ana Maria Gomes Macedo comprou o apartamento da Vila Olímpia em agosto de 2005. Catia Macedo recebeu pelo menos dois pacotes FedEx International Priority de Epstein em São Paulo, na Rua da Consolação (EFTA01317758). Se as três pertencem à mesma família, configura-se uma rede de apoio logístico operada por uma única linhagem.
“Marcela”. A intermediária de pagamentos para Valdson, identificada apenas como “Marcela”, operava via Banco do Brasil. O assunto de seus emails estava em português: “Dados para recebimento de ordem de pagamento do exterior” (EFTA01366197). Pelo menos quatro transferências de 5 mil euros estão documentadas entre dezembro de 2016 e janeiro de 2019. A regularidade dos pagamentos sugere salário ou remuneração por serviços não especificados.
O fluxo financeiro total estimado entre Epstein e o Brasil situa-se entre 5,5 e 9 milhões de dólares, incluindo o helicóptero Sikorsky (5 a 8 milhões), opções de câmbio (5 milhões de nocional), CDS soberano (10 milhões de nocional), pagamentos ao Machado Meyer (94.595 dólares), transferências diretas (116 mil dólares documentados) e todos os pagamentos recorrentes em euros.
O que falta
O que falta saber é, em certos aspectos, mais perturbador do que o que já se sabe.
Trump Brazil LLC e THC Development Brazil, entidades corporativas de Donald Trump registradas em Nova York com o nome “Brazil”, aparecem em 190 documentos cada no grafo Neo4j. A presença dessas entidades nos arquivos de Epstein não está explicada. Eram objeto de monitoramento? De interesse comercial? De mera referência?
A propriedade de Epstein em Florianópolis, mencionada na denúncia do FBI, nunca foi investigada formalmente. Santa Catarina aparece em 13 documentos. Após a morte de Epstein, a Sky News reportou que Maxwell e Brunel foram rastreados naquele estado. A denúncia do FBI cita “Ipanema, Brazil, and Florianópolis, Brazil” no mesmo fôlego. São dois pontos num mapa que ninguém desenhou.
A identidade da “mother agent“, mulher negra que fornecia meninas do Brasil para Brunel, permanece desconhecida. Maritza Vasquez disse ao FBI ter fornecido o nome anteriormente. Se consta nos documentos, está sob redação.
A identidade de “Cache (Brazil)“, massagista de Palm Beach que recusou entrevista quando procurada pelos investigadores, permanece desconhecida.
A vítima de São Paulo, traficada para pelo menos dois outros homens entre 2002 e 2009, nunca teve seu caso investigado pelas autoridades brasileiras. Quem eram os outros homens?
A Greenwich Aerogroup Brazil Leasing, Inc. aparece nos documentos junto com registros da JEGE LLC, empresa de aviação de Epstein (EFTA00298018). A existência de uma empresa de leasing aeronáutico com o nome “Brazil” no portfólio de Epstein sugere operação logística permanente no país. Para quem operava o helicóptero Sikorsky? Onde estava baseado?
Há 25 linhas de investigação pendentes. A mais urgente é a que o Ministério Público Federal acaba de abrir.
A investigação do MPF
Em 10 de fevereiro de 2026, a Unidade Nacional de Combate ao Tráfico de Pessoas (UNTC), sob a procuradora da República Cinthia Gabriela Borges, abriu procedimento investigatório sigiloso para apurar possível recrutamento e envio de mulheres brasileiras para exploração sexual nos Estados Unidos. O gatilho foi uma reportagem da BBC Brasil sobre o caso da mulher de Natal, combinada com denúncia de uma equipe de investigação de fontes abertas (OSINT) que utilizou ferramentas como Maltego para mapear as conexões.
A investigação enfrenta desafios consideráveis: extraterritorialidade (os crimes teriam sido cometidos nos Estados Unidos), passagem do tempo (mais de dez anos desde os fatos mais recentes) e a exigência, pela legislação brasileira de 2016, de prova de vício de consentimento. A senadora Damares Alves anunciou que a Comissão de Direitos Humanos do Senado monitorará os arquivos.
O que esta investigação demonstra é que o capítulo brasileiro do caso Epstein permanece, em grande medida, um livro fechado. As oitenta pessoas identificadas na tabela mestra dos documentos, os 150 documentos citados individualmente e as 25 investigações pendentes constituem um mapa que as autoridades brasileiras agora têm a obrigação de percorrer. O CPF de Epstein continua ativo na Receita Federal. A propriedade de Florianópolis nunca foi buscada. A “mother agent” de Brunel nunca foi identificada. A vítima de São Paulo nunca foi ouvida por autoridades brasileiras.
Epstein morreu. Maxwell foi condenada. Brunel morreu. Mas a rede que eles construíram no Brasil, uma rede feita de CPFs, contas bancárias, apartamentos, agências de modelos, contatos de elite, transferências em euros e meninas com aparelho nos dentes, essa rede não morreu. Ela apenas ficou sem dono. E redes sem dono, como qualquer investigador sabe, não desaparecem. São absorvidas.
Lista de personagens
Aqui estão os principais nomes brasileiros ou com conexões brasileiras identificados nos arquivos Epstein, organizados por relevância documental:
Valdson Vieira Cotrin aparece em mais de 4.097 documentos. Cidadão português radicado nos Estados Unidos, exercia funções simultâneas de mordomo, motorista, chef e, segundo os registros, recrutador. É o brasileiro (ou lusófono) com maior presença nos arquivos. Está vivo.
Daniel Sabba figura em 3.599 documentos como operador do Deutsche Bank vinculado às contas de Epstein. Hoje trabalha no UBS. Está vivo.
Jean-Luc Brunel, o célebre agente de modelos francês com profundas conexões no mercado brasileiro de moda, aparece em 616 documentos como recrutador e um dos dez co-conspiradores listados pelo FBI. Morreu em fevereiro de 2022 numa prisão francesa, em circunstâncias oficialmente classificadas como suicídio.
Ramsey Elkholy consta em 1.250 documentos como intermediário e caçador de agências de modelos, operando como elo entre o mercado de beleza e a rede de Epstein. Está vivo.
Ian Osborne aparece em 1.983 documentos como intermediário com acesso à elite brasileira, funcionando como ponte entre Epstein e figuras de poder no país. Está vivo.
Elen Capri de Souza Ferreira, DJ e modelo brasileira, é mencionada em 218 documentos que indicam relação direta com Epstein. Está viva.
Naomi Campbell aparece em 189 documentos, incluindo registros como passageira de voo com destino ao Brasil. Está viva.
Julia Santos figura em 122 documentos como recrutadora operacional da rede. Está viva.
Arthur Casas, arquiteto brasileiro de renome internacional, aparece em 122 documentos como responsável por projetos na ilha de Epstein. Está vivo.
Eike Batista, o empresário carioca, é mencionado em 105 documentos como alvo de negócios e investimentos. Está vivo.
Reinaldo Ávila da Silva aparece em 79 documentos como parceiro do ex-embaixador britânico Peter Mandelson. Está vivo.
Matthieu de Boisseson, identificado em 65 documentos como nexo entre as redes francesa e brasileira de Epstein, foi suspenso de suas funções em 2026.
Jean-Marc Etlin, CEO do Itaú BBA, aparece em 30 documentos como contato de Ghislaine Maxwell. Está vivo.
Jorge Paulo Lemann, o maior empresário brasileiro, consta em 10 documentos, incluindo registro de reunião com o sérvio Tomislav Nikolić. Está vivo.
Bernardo Parnes, CEO para América Latina do Deutsche Bank, aparece em 10 documentos. Está vivo.
Marcelo de Andrade é citado em 5 documentos como intermediário social no Rio de Janeiro. Seu paradeiro atual é desconhecido.
Marina Lacerda, identificada nos arquivos como “Minor Victim 1”, tem seus documentos sob sigilo. Está viva e atua como ativista.
Mário Garnero Jr., ligado ao conglomerado Brasilinvest, aparece em 3 documentos e no chamado “Black Book” de Epstein. Está vivo.
Cecília Szajman, ligada à FecomércioSP, e Pedro Diniz, ex-piloto de Fórmula 1, aparecem apenas no “Black Book”, sem documentos adicionais nos arquivos. Ambos estão vivos.
Por fim, três figuras permanecem não identificadas: “Marcela”, intermediária de pagamentos recorrentes via Banco do Brasil; “Cache (Brazil)”, massoterapeuta registrada na residência de Palm Beach; e uma “mother agent” descrita como fornecedora de meninas para Jean-Luc Brunel. O anonimato dessas três mulheres constitui, por si só, uma das lacunas mais inquietantes dos arquivos.
Fontes
Jornalismo brasileiro
Jornalismo internacional
Bases documentais
Índice de documentos citados
Emails e comunicações
EFTA00578656, EFTA00578663, EFTA00578765, EFTA00579700, EFTA00579968, EFTA02334662, EFTA00578798, EFTA00638201, EFTA00921556, EFTA00882829, EFTA00765821, EFTA00145606, EFTA02258599, EFTA00390073, EFTA00850774, EFTA02609786, EFTA02442944, EFTA02415937, EFTA00181297, EFTA01248647, EFTA02450934, EFTA01786159, EFTA02449800, EFTA02391888, EFTA02366031, EFTA00091003, EFTA00929717, EFTA00929266, EFTA00933687, EFTA00941614, EFTA00947615, EFTA00939325, EFTA00973385, EFTA00973929, EFTA00955922, EFTA00672100, EFTA00627471, EFTA02551045, EFTA02380854, EFTA02405056, EFTA02381758, EFTA01818446, EFTA02419968, EFTA02407976, EFTA00969922, EFTA02411851, EFTA02413047, EFTA02343664, EFTA00332148, EFTA01784995, EFTA02551040, EFTA00964428, EFTA02344845, EFTA02398135
Conversas Epstein-Bannon
EFTA01615311, EFTA01615358, EFTA01615400, EFTA01615404, EFTA01615409, EFTA01615587, EFTA01615614, EFTA01615655, EFTA02295628
Documentos financeiros
EFTA01459819, EFTA01477485, EFTA01482376, EFTA01590282, EFTA01410985, EFTA01407915, EFTA01407810, EFTA00284678, EFTA01482482, EFTA01482620, EFTA01014073, EFTA01385511, EFTA01362029, EFTA01461083
Propriedades e logística
EFTA00299901, EFTA00300480, EFTA00020470, EFTA00311004, EFTA01326828, EFTA01697637, EFTA01317758, EFTA00298018
HOUSE_OVERSIGHT
HOUSE_OVERSIGHT_017060, HOUSE_OVERSIGHT_027406, HOUSE_OVERSIGHT_025408, HOUSE_OVERSIGHT_011908
Nota sobre metodologia
Esta investigação combinou três camadas de análise: (1) busca forense em aproximadamente 580 mil documentos do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, indexados no Elasticsearch via Datashare/ICIJ, com mais de 200 queries utilizando match_phrase para termos compostos e bool.must para cruzamentos; (2) análise de grafo em base Neo4j com mais de 60 queries Cypher de co-ocorrência e análise de clusters; (3) pesquisa em mais de 30 veículos jornalísticos brasileiros e internacionais.
A classificação de evidência adota cinco níveis: CONFIRMADO (presente nos documentos e corroborado por fonte externa), DISPUTADO (presente nos documentos com versões conflitantes), ALEGADO (reportado por fontes externas confiáveis sem correspondência nos documentos), DESMENTIDO (investigado e refutado) e FALSO (sem base documental).
Toda informação neste artigo é rastreável a um número de documento EFTA ou HOUSE_OVERSIGHT, verificável nos arquivos liberados pelo DOJ. A presença de nomes nos documentos não equivale a culpa, participação ou conhecimento de crimes. A investigação jornalística mapeia conexões documentadas. A investigação criminal, com seu poder de intimação e produção de provas, é prerrogativa das autoridades competentes.
Investigação de Leonardo Dias, assistida por análise de IA da Arvor (https://arvor.co). Fevereiro de 2026.

























