A república paralela: 42 milhões de reféns e a metástase de 33 anos
Quando o Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou, no domingo de Dia das Mães, os números do levantamento Datafolha intitulado “Os gatilhos da insegurança”, a tristeza não estava na pesquisa. Estava no fato de ela ainda surpreender alguém.
41% dos brasileiros acima de 16 anos, ou 68,7 milhões de criaturas, declararam ver, no quarteirão onde moram, a presença ostensiva ou silenciosa de grupos criminosos organizados. 42,2 milhões deles afirmam que essa presença regula sua vida cotidiana. 81% têm medo de ser apanhados no fogo cruzado. 75% evitam ruas, esquinas, horários. 64% não denunciam por temor de represália. 12,5% são obrigados a contratar serviços indicados pela facção, do gato de internet ao botijão de gás. 9% têm a marca de detergente escolhida pelo gerente armado do bairro.
A íntegra está aqui, na Folha, e quem leu já sabe que não há novidade em nada, exceto na cara de paisagem das autoridades.
A coincidência das datas é didática. Faz exatamente 11 anos que o país assistia, com o mesmo tipo de paralisia, à dissolução acelerada do Estado sob o segundo mandato de Dilma Rousseff. Em 2015, o Brasil entrava na pior recessão de sua história, a Operação Lava Jato escancarava o caixa-um-do-bem petista, e enquanto isso, no andar de baixo da Federação, o PCC e o Comando Vermelho aproveitavam o congestionamento institucional para fazer o que sempre fizeram quando o governo dorme. Avançar.
A diferença, em 2026, é apenas que o congestionamento virou colapso, o avanço virou ocupação, e o cidadão comum, antes coadjuvante distraído, foi promovido a refém numerado. 41%. 68,7 milhões. Mais do que toda a população da França.
Fala-se em “consolidação criminal”, como disse o presidente do Fórum, Renato Sérgio de Lima. É eufemismo polido para descrever a coisa em estado bruto. O que se consolidou no Brasil não é uma quadrilha grande. É um para-Estado. O PCC e o CV, juntos, têm presença nas 27 unidades da federação e exercem hegemonia em 13 delas, conforme mapeamento conjunto do Fórum e da Abin.
O paulista manda em São Paulo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Rondônia, Roraima e Piauí. O carioca governa o Acre, o Amazonas, o Mato Grosso, o Pará, o Tocantins e o próprio Rio, berço da casa. A divisão é tão geográfica e tão administrativa quanto a do mapa político do IBGE. A diferença é que, no mapa do IBGE, o chefe estadual é eleito. No outro, é cooptado.
I. O berço, o batismo e os primeiros padrinhos
Conta-se que o PCC nasceu, no dia 31 de agosto de 1993, no anexo da Casa de Custódia de Taubaté, conhecido pelos detentos como “Piranhão”, local que recebia os presos considerados de maior periculosidade no sistema paulista. Eram 8 presos, organizados, inicialmente, em torno de um time de futebol. José Márcio Felício, o Geleião, Cesinha, Misa, Isaías Esquisito, Paixão, Du Cara Gorda, Bicho Feio e Dafé. A facção surgiu, oficialmente, como reação ao Massacre do Carandiru, ocorrido 11 meses antes, no qual policiais militares paulistas mataram 111 detentos no Pavilhão 9. O dado curioso, e quase nunca mencionado, é o seguinte.
O diretor do Carandiru durante a chacina, José Ismael Pedrosa, foi transferido logo depois para o “Piranhão”. Lá assistiu, sem grandes providências, ao nascimento do grupo que viria a matar mais policiais do que qualquer outro inimigo da PM nos 40 anos seguintes. Pedrosa pagaria, no futuro, com a própria vida pela negligência. Foi assassinado por ordem do PCC em 2005.
Itamar Franco era presidente da República. Mário Covas governaria São Paulo a partir de 1995. Era a Nova República em seu primeiro grande teste de capilaridade criminal, e o teste foi reprovado quase imediatamente. Durante os 8 anos de Fernando Henrique Cardoso, o PCC encontrou no sistema penitenciário paulista o ambiente perfeito para se ramificar.
As políticas de “reabilitação social” da década de 1990, que essencialmente consistiam em fingir que a cadeia educava, deram à facção tempo, espaço e contatos. Em 1999, o grupo executou o maior assalto a banco da história de São Paulo, levando mais de 7 milhões de dólares. Em fevereiro de 2001, organizou a megarrebelião em 29 presídios, a primeira ação que mostrou ao Brasil que o PCC não era um problema de pavilhão. Era um problema de soberania.
Os primeiros 8 anos do petismo na Presidência da República transformaram aquele problema regional em pesadelo nacional. E é aqui que a tese de Renato Sérgio de Lima, sobre a “consolidação criminal”, precisa ser deslocada um pouco no tempo. A consolidação começou bem antes de hoje. Começou, com requintes de cinismo, em 2003.
II. Os crimes de Maio e o batismo de fogo de Lula I
Em maio de 2006, o país tomou conhecimento, à força, do que significava ter um Estado paralelo plenamente operacional dentro do território nacional. A Secretaria de Administração Penitenciária paulista decidiu transferir 765 presos para a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, entre eles um camarada chamado Marcos Willians Herbas Camacho, conhecido como Marcola, então tido como a cabeça pensante da facção.
A resposta veio na véspera do Dia das Mães. 74 penitenciárias se rebelaram simultaneamente. Pela primeira vez na história brasileira, ônibus foram queimados, delegacias atacadas, viaturas alvejadas, agentes públicos executados em pontos de ônibus e na porta de casa. Entre 12 e 21 de maio, o saldo oficial foi de 564 mortos, dos quais 59 agentes do Estado e 505 civis. Destes, 484 levaram tiros na cabeça, conforme apuração de promotores paulistas. Cerca de 122 desses casos têm indícios concretos de execução por policiais e grupos de extermínio em retaliação.
O número, é claro, virou disputa narrativa. A esquerda transformou o massacre nas periferias em pauta perpétua. O PCC, esse, transformou o episódio em ato fundador da própria mitologia.
A leitura honesta, porém, é uma só. Em maio de 2006, no terceiro ano do primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, o Estado brasileiro perdeu o monopólio da violência em São Paulo por nove dias consecutivos, e o que se viu depois foi uma negociação envergonhada entre o governo paulista, então sob Cláudio Lembo, e Marcola, intermediada por advogados, para que o caos cessasse. Marcio Thomaz Bastos, então ministro da Justiça, telefonou de Londres para Lembo oferecendo ajuda federal. A ajuda nunca veio. O sangue secou. A facção venceu.
O detalhe, para fechar o cenário, é o seguinte. O assalto ao Banco Central de Fortaleza, em agosto de 2005, no qual quase 165 milhões de reais foram roubados por uma quadrilha ligada ao PCC, capitalizou a facção em um valor que, à época, equivalia ao orçamento anual da Secretaria de Segurança Pública de mais de um Estado da Federação. Foi esse dinheiro, segundo a narrativa de promotores e investigadores, que financiou o salto qualitativo da organização. Os 8 anos do Lula petróleo-é-nosso terminaram com o PCC mais rico, mais armado e mais ramificado do que jamais fora.
III. Dilma, a metástase silenciosa e o rompimento de 2016
Dilma Rousseff, eleita para sentar-se na cadeira que o padrinho não conseguiu manter para a Marta Suplicy, herdou a economia mais despencante da história recente e um sistema de segurança pública em coma vigil. Foi durante o 1° mandato dela, e em particular durante o 1° semestre do 2°, que ocorreu o evento geológico que iria moldar o crime organizado brasileiro pela década seguinte.
O rompimento entre o PCC e o CV. Por décadas, paulistas e cariocas haviam mantido uma espécie de não-agressão tácita, fundada no respeito mútuo aos territórios de origem e na cooperação informal para a compra de drogas dos cartéis colombianos, peruanos e bolivianos. Em 2016, o pacto desabou.
A causa imediata foi o assassinato, em junho de 2016, de Jorge Rafaat Toumani, traficante libanês-paraguaio que controlava boa parte da Rota Caipira, o corredor de cocaína que vai da Bolívia e do Paraguai até o Porto de Santos. Rafaat foi morto, em Pedro Juan Caballero, por uma operação de execução do PCC, com uso de armamento pesado, conforme registrou a Gazeta do Povo. Com Rafaat morto, o PCC assumiu o controle direto da rota e cortou o intermediário do qual o CV dependia para abastecer o Rio.
O resultado, em 2017, foi a cadeia de massacres prisionais em Manaus, no Anísio Jobim, em Boa Vista, na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, e em Natal, no presídio de Alcaçuz. Centenas de presos foram esquartejados, queimados e decapitados em transmissões via aplicativo de mensagens. O Brasil viu, ao vivo, a abertura da guerra que ainda hoje se trava nos sertões do Pará, no interior paulista, no litoral norte, em Manaus e em Belém.
E o que fez o governo federal, naquele biênio em que o país assistia, perplexo, a esse banho de sangue intramuros? Pouca coisa. Dilma estava ocupada com a operação tampão para sobreviver ao impeachment. Quando saiu, Michel Temer, na metade do mandato presidencial fragmentada que herdou, tentou enfrentar o problema com a Operação Carbono 14 e a criação, em 2017, do Plano Nacional de Segurança Pública.
Foi tarde.
A rede já estava posta. O PCC havia se reconfigurado, abandonara o varejo de cocaína em vários estados, recolhera-se à logística, e começava a olhar, sem disfarce, para o mar.
IV. Bolsonaro, a única pausa real e o ponto de inflexão estatístico
Aqui chega-se ao trecho que a imprensa nacional, com aquele garbo da fingida imparcialidade, prefere não discutir abertamente. Os 4 anos do governo Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, foram o único intervalo em três décadas em que a curva de expansão do PCC e do CV efetivamente desacelerou. Não despencou. Não desapareceu. Desacelerou.
Os indicadores de homicídios dolosos no Brasil, segundo o próprio Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, atingiram em 2021 o menor patamar desde 2007. A apreensão de drogas em portos e fronteiras quebrou recordes anuais sucessivos em 2019, 2020 e 2021. A Polícia Federal, sob ministros sucessivos, manteve operações de internacionalização do combate em parceria com a DEA, a Europol e a Guarda di Finanza italiana.
A esquerda passou os 4 anos do governo Bolsonaro repetindo, com a coreografia previsível, que a “facilitação do acesso a armas” beneficiava o crime. Os fatos não confirmaram a narrativa. As facções continuaram, como sempre, comprando fuzis no mercado paraguaio e boliviano, e os números totais de homicídio caíram apesar do aumento dos CACs. Não há, em estatística honesta, registro de fuzil de caçador esportivo apreendido em barricada de favela em volume significativo.
Há, isso sim, registros aos borbotões de fuzis Kalashnikov vindos do Paraguai, fuzis americanos vindos da Bolívia e fuzis turcos vindos da Líbia via Suriname. O “armamentismo” foi, ao mesmo tempo, slogan de campanha e cortina de fumaça. O que aconteceu de fato é mais simples e mais embaraçoso para a oposição. Houve coordenação federal séria, financiamento de inteligência prisional, contínuo aperto sobre fronteiras e cooperação internacional em vez de pirotecnia. O resultado foi sentido. O PCC perdeu, naquele período, algumas das suas peças mais antigas em apreensões espetaculares, e o promotor Lincoln Gakiya, do Gaeco paulista, foi, na época, o homem mais ameaçado do Ministério Público brasileiro precisamente porque estava conseguindo desmontar a “sintonia final”.
A redução, ressalvo, foi marginal. O crescimento orgânico do PCC e do CV continuou inercial, porque a base prisional continuou inflando, porque a juventude periférica continuou capturada pela ausência do Estado, e porque, principalmente, a sangria diária de novas dependências químicas continuou enchendo os cofres do varejo. Mas a tendência estatística existiu. E é importante registrá-la, porque a partir de 2023, com o retorno do petismo ao Planalto, a curva se inverteu de novo. E desta vez, com agravantes.
V. A véspera de 2022, o grampo e o que se calou
Na véspera do primeiro turno das eleições de outubro de 2022, a campanha de Jair Bolsonaro veiculou o áudio de uma interceptação telefônica autêntica, oriunda da Operação Cravada, da Polícia Federal. No grampo, um líder do PCC dizia textualmente que “com o PT nóis tinha diálogo. O PT tinha com nóis diálogo cabuloso”.
O TSE, sob a relatoria da ministra Maria Claudia Bucchianeri, foi forçado a admitir que o áudio era verdadeiro, que não havia “edição maliciosa” e, portanto, que não cabia censura. Negou o pedido petista de remoção. O áudio continuou no ar. Bolsonaro perdeu por uma margem mínima, 50,9% a 49,1%, no segundo turno mais apertado da redemocratização.
Em paralelo, circulou intensamente a hipótese, jamais confirmada por documento, mas largamente debatida em redes sociais com base em vazamentos colhidos pelo blog O Antagonista, de que outra interceptação envolveria diretamente a esposa de Marcola, indicando que a facção “ganharia mais” com a vitória do PT.
Alexandre de Moraes, com a habitual prontidão para censurar o lado certo do tabuleiro, mandou tirar tudo do ar na noite de 1° de outubro. A versão remanescente, a oficial, ficou sendo o áudio da Cravada. Mais que suficiente para quem quisesse entender, mas, evidentemente, descartável para quem quisesse fingir que não viu.
A teia de evidências circunstanciais não parou aí. Lula, em outubro de 2022, em plena campanha do segundo turno, visitou o Complexo do Alemão, território histórico do Comando Vermelho, sem aparato policial visível, com aglomeração popular incomum e usando um boné com a inscrição “CPX”, abreviação universalmente reconhecida na grafia das pichações da facção carioca.
Como observaram especialistas em segurança pública ouvidos pela Gazeta do Povo posteriormente, “nenhuma autoridade do Brasil ou de qualquer lugar do mundo entraria ali sem a autorização das lideranças do narcotráfico, seja juiz, promotor, desembargador, ministro, presidente”. Lula entrou. Sorriu. Posou. Saiu.
Não é necessário, e nem prudente, afirmar mais do que os fatos sustentam. Não há prova judicial de pacto. Mas há um conjunto de coincidências, de gestos, de áudios e de visitas que, em qualquer país sério, motivaria investigação de Procuradoria-Geral. No Brasil, motivou pedido de censura. A diferença entre os dois desfechos é, em si, a história deste país.
VI. O Moinho, o Macêdo e a república da ONG
Em 26 de junho de 2025, o presidente Lula, acompanhado da primeira-dama, visitou a Favela do Moinho, no centro de São Paulo. O encontro fora articulado, conforme reportagem do Metrópoles assinada por Andreza Matais, pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Márcio Macêdo, com a Associação da Comunidade do Moinho. A entidade tem sede no número 20 da Rua Doutor Elias Chaves, endereço onde a Polícia Civil, em agosto de 2023, apreendeu cinco tijolos de cocaína, 608 porções de crack e três tijolos de maconha, na chamada Operação Salus et Dignitas. A presidente da associação, Alessandra Moja Cunha, é irmã de Leonardo Monteiro Moja, o “Léo do Moinho”, apontado pelo Ministério Público de São Paulo como o líder do tráfico do PCC na região central da capital.
Alessandra, condenada em 2015 por homicídio cometido em 2005, no qual matou a facadas uma mulher que dormia na casa do ex-namorado da irmã, foi presa novamente em setembro de 2025, na Operação Sharpe, sob acusação de extorsão dos moradores que tentavam aceitar o acordo habitacional do governo paulista, cobrando “multa” de até 100 mil reais para autorizar a saída da favela.
Foi com essa associação, presidida por essa pessoa, naquele endereço, que o ministro Márcio Macêdo se reuniu dois dias antes do desembarque do presidente da República. O deputado federal Otoni de Paula apresentou notícia-crime à PGR. A PGR, conforme tradição da casa, recebeu, arquivou, esqueceu. Lula divulgou foto na entidade, ao lado de Alessandra Moja, anunciou que iria realocar 900 famílias e transformar o terreno da União em parque. Faltou apenas dizer, na coletiva, em que velório iria condecorar a presidente da associação.
E não foi caso isolado. Em março de 2023, Flávio Dino, então ministro da Justiça e hoje ministro do STF nomeado pelo próprio Lula, entrou na favela Nova Holanda, no Complexo da Maré, território do Comando Vermelho, sem operação policial, sem aviso, sem sirene. Policiais militares e civis ouvidos à época por veículos cariocas afirmaram, em condição de anonimato, que tal entrada seria materialmente impossível sem aval da facção.
Em setembro de 2023, Luciane dos Santos Farias, esposa de Clemilson dos Santos Farias, o “Tio Patinhas”, n° 1 dos procurados do Amazonas até dezembro de 2022, foi recebida pelo Ministério dos Direitos Humanos para discutir, segundo seu próprio relato, “as mazelas vividas pela população carcerária do país”. O ministério custeou-lhe a viagem. Em fevereiro de 2024, ela foi presa por organização criminosa, lavagem de dinheiro e associação para o tráfico.
A acumulação destes episódios não tem mais como ser desfeita por nota oficial. É um padrão. Um padrão que se assemelha, traço por traço, ao “diálogo cabuloso” do qual falava o grampo de 2022.
VII. A operação Carbono Oculto e a fintech da Faria Lima
Em 28 de agosto de 2025, em uma única manhã, 1.400 agentes da Polícia Federal, da Receita Federal, das polícias civis e militares e do Ministério Público de São Paulo cumpriram 350 mandados de busca e apreensão em 10 estados, na chamada Operação Carbono Oculto. O alvo, paradoxalmente, não era um morro carioca, nem uma cracolândia paulistana. Eram 42 endereços na Avenida Brigadeiro Faria Lima, o coração financeiro do país. Fintechs, gestoras de fundos, corretoras.
R$ 52 bilhões movimentados em quatro anos. R$ 46 bilhões não rastreáveis em uma única instituição de pagamento, o BK Bank, no qual 80% das transações no período investigado tinham relação com o PCC. R$ 7,6 bilhões em tributos estaduais sonegados, R$ 1,4 bilhão em tributos federais. 40 fundos de investimento usados para blindar patrimônio. Cerca de 1.000 postos de combustíveis. 4 usinas de álcool. 1 terminal portuário. 1.600 caminhões. 100 imóveis. 6 fazendas avaliadas em 31 milhões.
A leitura, para quem não compreendeu o tamanho do tombo, é a seguinte. O PCC parou de ser, há tempos, o que a sociologia preguiçosa chamava de “facção criminosa”. Tornou-se, conforme análise do oficial da PF Roberto Uchôa publicada na Small Wars Journal da Arizona State University, um conglomerado empresarial criminoso, com integração vertical no setor de combustíveis, presença regulatória no sistema financeiro, fundos próprios na B3 e operações de lavagem em pelo menos 28 países. O modelo de negócios deixou de ser o do traficante de varejo. Migrou para o do empresário do andar de cima.
O que isto significa, em termos práticos, é que o PCC tem hoje, no Brasil, uma estrutura financeira mais sofisticada do que diversos bancos pequenos legalmente constituídos. A Reag, gestora alvo da operação, era cliente regular do mercado de fundos e movimentava recursos com aparência integral de legitimidade. João Carlos Mansur, fundador da Reag, foi citado pelo MPSP como responsável por “dinâmicas fraudulentas envolvendo fundos e a BK Instituição de Pagamento” e por gestor “diretamente implicado na ocultação de valores sem origem”. A Carbono Oculto não revelou uma novidade. Apenas tornou impossível, por algumas semanas, continuar fingindo que a coisa não era assim.
E o tamanho dela é o seguinte. Em uma única operação, descobriu-se mais dinheiro lavado pelo PCC do que todo o orçamento anual do Ministério da Saúde para a Atenção Primária. R$ 52 bilhões. É preciso parar nessa frase um instante. Esse não é o orçamento de uma quadrilha. É o orçamento de um pequeno país. E ainda assim, esse não é o tamanho total da facção. É apenas o tamanho de uma fatia mapeada num quadrimestre.
VIII. 50% da cocaína europeia e a aliança com a ‘Ndrangheta
Em delação prestada em 2025 à 16ª Vara Criminal Federal de João Pessoa, e detalhada pela Revista Oeste e pelo Portal Tela em maio de 2026, o mafioso italiano Vincenzo Pasquino, membro da ‘Ndrangheta calabresa e preso em João Pessoa em 2021 junto com Rocco Morabito, afirmou que o PCC financiava 50% da cocaína enviada à Itália. Pasquino, que ingressou oficialmente na ‘Ndrangheta em 2011 e foi enviado ao Brasil em 2017 para organizar uma rota marítima de drogas com veleiros saindo de Amsterdã, descreveu encontros em São Paulo nos quais o consórcio entre o PCC e a máfia italiana foi formalizado.
A cocaína, conforme o relato, era embarcada principalmente no Porto de Santos e em Itajaí, com destino ao porto de Gioia Tauro, na Calábria, terminal historicamente dominado pela ‘Ndrangheta. O PCC vendia o quilo na ponta brasileira por € 5.000 e a ‘Ndrangheta revendia na ponta italiana por € 23.000 a € 25.000. A juíza italiana Francesca Rosseti, ao analisar as declarações, atestou que “subsistem em seu relato a confiabilidade intrínseca e a credibilidade subjetiva do declarante”.
Pasquino ainda contou ter comprado criptofones para integrantes do PCC ao custo unitário de US$ 20.000, e revelou que a facção paulista exigia, como condição para os negócios, contraparte oficialmente vinculada à ‘Ndrangheta. Não negocia com freelancer. Mafioso credenciado, com registro de família e padrinho calabrês.
Some-se a isto o seguinte conjunto de dados. O Porto de Santos respondeu, em 2025, por 40% de toda a cocaína apreendida no Brasil, com 7 toneladas em uma única praça, 2 toneladas a mais do que em 2024. O Brasil tornou-se o 2° maior mercado consumidor de cocaína do mundo, e é, simultaneamente, o entreposto logístico do qual depende a metade ocidental do mercado europeu. As rotas conhecidas são três. A Rota Caipira, que vai de Mato Grosso a Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais e desce a Santos. A Rota do Alto Solimões, pela qual a cocaína colombiana e peruana entra pelo Amazonas e segue rio abaixo.
A Rota da Bolívia, com 21 municípios de fronteira em Mato Grosso servindo de portas-de-entrada. Sobre as três, dois apetites distintos brigam pelo controle. O PCC, que prefere exportar. O CV, que prefere distribuir internamente. A combinação dos dois domina, atualmente, 100% das três rotas brasileiras de cocaína. O PCC, sozinho, alcançou expansão para 28 países, com presença documentada em Portugal, Itália, Espanha, Albânia, Sérvia, Líbano, Filipinas, Japão, Nigéria, Guiné, Angola, Estados Unidos e México, conforme levantamento da Polícia Federal de 2025.
Trinta e dois anos. De 8 presos em Taubaté a 28 países. 4 governos FHC, Lula I, Lula II, Dilma I e meio Dilma II, meio Temer, Bolsonaro e Lula III. O único intervalo em que a curva desacelerou foi o do governo que a esquerda gasta para fazer chacota.
IX. A megaoperação do Alemão e o “narcoterror” que o Itamaraty repele
Em 28 de outubro de 2025, sob comando do governador Cláudio Castro, 2.500 agentes das polícias civil e militar do Rio de Janeiro entraram nos complexos do Alemão e da Penha em busca de Edgar Alves Andrade, o “Doca”, líder operacional do Comando Vermelho. A operação, chamada Contenção, foi planejada por aproximadamente um ano, com 100 mandados de prisão e 145 de busca e apreensão expedidos. Resultou em 122 mortos, sendo 117 alvos da polícia, 4 policiais mortos no dia 28 e 1 policial civil morto em 22 de novembro após quase um mês internado. Foram apreendidos 93 fuzis, com valor estimado em R$ 5 milhões. Doca fugiu, usando suspeitos armados como escudos humanos.
O DataFolha posterior revelou que 57% dos moradores do Rio concordaram, total ou parcialmente, com a afirmação de que a operação foi um sucesso. A aprovação de Cláudio Castro saltou de 31% para 40%. O comentário acima, na seção de comentários da própria Folha sobre o levantamento que abre este artigo, traz a frase de um leitor que diz: “71% dos moradores de comunidades apoiaram a operação no Alemão, enquanto Lula, políticos à esquerda, jornalistas e intelectuais classificaram aquelas baixas de guerra como chacina”. É a fotografia do país que existe hoje. Do lado de quem mora no andar de baixo, alívio. Do lado de quem assina editorial no andar de cima, indignação seletiva.
A reação federal foi singular. Em vez de comemorar a maior operação anti-CV da história do Rio, o governo Lula tratou de tentar convencer o secretário de Estado americano, Marcus Rubius, a não classificar PCC e CV como Organizações Terroristas Estrangeiras.
O chanceler Mauro Vieira ligou para Washington insistindo no argumento, que merece transcrição literal. O Itamaraty teme que a designação americana abra brechas para “intervenção externa” no Brasil, à semelhança do que ocorre, segundo eles, na Venezuela, onde o governo Trump, desde julho de 2025, bombardeia embarcações suspeitas no Caribe sob o pretexto do narcoterrorismo.
O temor pode até ser legítimo. O efeito político, porém, é assombroso. O governo brasileiro, na prática, tornou-se o último defensor internacional do PCC e do CV. Defensor da sigla, é claro. Não dos negócios. Mas a sigla é o que protege os negócios.
A Doutrina Donroe, na sua versão pós-Maduro, voltou a falar grosso na América do Sul. E o governo brasileiro, em vez de aproveitá-la como vento de cauda para o que deveria ser política interna óbvia, escolheu posicionar-se como anteparo retórico das facções. É preciso reler a frase. Não há, no jornalismo brasileiro do último ano, frase mais incômoda do que esta. Mas é a frase exata.
X. A Lei Antifacção: dura no papel, mole no veto
Em 24 de março de 2026, Lula sancionou, com vetos, a Lei 15.358/2026, batizada de Lei Raul Jungmann, o chamado Marco Legal do Combate ao Crime Organizado, popularmente conhecido como Lei Antifacção. O texto cria o tipo penal de “domínio social estruturado”, com pena de 20 a 40 anos para integrantes de facções, e de 12 a 20 anos para quem favorecer tais grupos.
Permite o bloqueio e perdimento de bens antes do trânsito em julgado, classifica os novos crimes como hediondos, restringe progressão de regime para até 85% da pena para reincidentes, cria o Banco Nacional de Dados de Organizações Criminosas e fortalece as Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado.
Tudo isto, à primeira vista, é bom. O detalhe está nos dois vetos. O 1° suprimiu o trecho que permitia enquadrar na lei pessoas que praticassem condutas típicas de facções sem integrar comprovadamente uma delas. O argumento foi inconstitucionalidade e risco de “sobreposição normativa”. A leitura cínica, e ela é a verdadeira, é outra. O dispositivo vetado mirava precisamente o aparato de ONGs, associações e “lideranças comunitárias” que, sem carteirinha de PCC ou CV, executa o trabalho diário da facção, da extorsão de moradores ao controle de eleições locais. O veto preserva, sob a roupagem técnica, o ecossistema parainstitucional do qual a Favela do Moinho é o emblema.
O 2° veto eliminou a destinação a fundos estaduais e distritais de parte dos valores e bens apreendidos, sob argumento orçamentário. Concentra na União. A leitura, novamente, é direta. Cláudio Castro, Tarcísio de Freitas, Romeu Zema, todos governadores adversários do PT, não receberão um centavo do que suas próprias polícias apreenderem. Esse dinheiro entra no Fundo Nacional de Segurança Pública, sob comando de Brasília. Federalização do bolso. Estadualização do esforço.
Houve, portanto, lei. Houve dureza penal no papel. Houve, simultaneamente, esvaziamento operacional nas margens. A Lei Antifacção é, em sua versão sancionada, um avanço normativo significativo e uma confissão política igualmente significativa. Avança porque finalmente tipifica o domínio territorial como crime autônomo. Confessa porque, ao vetar a punição dos “não filiados que praticam condutas típicas”, preserva a base civil das facções, e ao vetar a partilha federativa, preserva o monopólio federal do espólio.
XI. O balanço de 33 anos e o que ele revela
Faça-se a soma fria. 1993 a 1994, Itamar, fundação do PCC. 1995 a 2002, FHC, megarrebelião de 2001 e primeiros sinais de internacionalização. 2003 a 2010, Lula I e II, Crimes de Maio em 2006, assalto ao Banco Central em 2005, expansão estrutural sem precedentes, total de 8 anos. 2011 a maio de 2016, Dilma I e meio II, rompimento PCC-CV e início das chacinas prisionais sistemáticas em sequência. Maio de 2016 a 2018, meio Temer, primeiras respostas tímidas e Operação Carbono 14. 2019 a 2022, Bolsonaro, único intervalo de desaceleração mensurável da curva, queda dos homicídios dolosos ao patamar mais baixo desde 2007, apreensões recordes. 2023 até hoje, Lula III, retomada acelerada da expansão, Carbono Oculto revelando R$ 52 bilhões, megaoperação Contenção, Favela do Moinho, e o Itamaraty defendendo, em chamada com Washington, que a maior organização criminal da América Latina não seja classificada como terrorista.
A correlação é clara o suficiente para dispensar mais comentário. Em três décadas de governos democráticos pós-Constituição de 88, o PCC saiu de um time de futebol de 8 detentos em Taubaté para um conglomerado financeiro multinacional que controla a metade da cocaína europeia. Os anos petistas, somados, totalizam 12 dos 33. Os anos tucanos, 8. Os anos itamaristas e temeristas somam meio mandato. Os anos dilmistas, 5 e meio. Os anos bolsonaristas, 4. Em qual desses governos, em qualquer corte estatístico honesto, houve a única desaceleração mensurável da expansão? Em qual deles, simultaneamente, a esquerda dedicou energia política a censurar áudios verdadeiros, classificar megaoperações de “chacina” e proteger a sigla das facções de designações internacionais?
A resposta está ao alcance de quem souber ler número sem ideologia. A resposta, infelizmente, também está vedada à grande imprensa, que prefere usar a expressão “consolidação criminal” e suspender a frase no ar, como se ela tivesse caído do céu.
XII. A volta ao 41% e o espelho do bairro
Volta-se, agora, à pesquisa que abriu este texto. 41% dos brasileiros veem o crime organizado no próprio bairro. Nas capitais, esse índice salta para 56%. Nas regiões metropolitanas, 46%. Mesmo no interior, antes refúgio relativo, 34% da população já reconhece a presença das facções. Conforme observou a diretora-executiva do Fórum, Samira Bueno, “estamos falando que um terço da população do interior está reconhecendo a presença desses grupos”. Há, neste único dado, a fotografia da capilarização.
A facção não é mais um problema da Cracolândia, do Alemão, da Penha, do Heliópolis. É um problema do município de 30 mil habitantes no Vale do Rio Doce. É um problema do bairro residencial classe média de Caçapava, de Bauru, de Anápolis, de Ji-Paraná.
Os números do impacto são igualmente eloquentes. Dentre os que reconhecem a presença, 35% afirmam que ela influencia muito as decisões e regras do bairro. 26,5% dizem que o impacto é moderado. Eis aí, em soma, os 42,2 milhões de brasileiros que vivem, conforme palavras do próprio Fórum, “em contextos nos quais o crime organizado é percebido como força que regula a vida local”. 42,2 milhões. Mais do que a soma das populações de Argentina, Uruguai e Paraguai. Mais do que a Colômbia. Quase a Espanha inteira. Esse é o tamanho da clientela cativa da república paralela.
O Ministério Público de Piracicaba, no início deste ano,
reconheceu em representação oficial
que “o conflito entre as organizações escalou significativamente após o CV tentar ocupar pontos de venda de entorpecentes anteriormente dominados pelo PCC, instaurando um estado de guerra urbana na região”. Estado de guerra urbana. Em Piracicaba. Não em Mogadíscio. Não em San Pedro Sula. Em Piracicaba, terra do engenho, do milho, da Festa do Peão, do interior paulista que durante 100 anos foi sinônimo de Brasil profundo bem comportado. Em 2026, Piracicaba é nome de zona de combate aberto entre PCC e CV.
XIII. A liturgia paralela: tribunais, batismos e o deus invertido
Há um ponto, neste relato, em que o argumento meramente sociológico e econômico se mostra insuficiente para explicar o que aconteceu ao tecido brasileiro.
Quando 42,2 milhões de pessoas vivem sob regulação de uma autoridade não eleita, e quando essa autoridade não se contenta em apenas cobrar pedágio sobre o consumo de drogas, mas avança sobre os tribunais, os ritos de iniciação, a moralidade conjugal, a música funcional e a economia simbólica do bairro, não se está mais diante de um problema policial. Está-se diante de uma substituição religiosa.
O PCC, e em medida correspondente o Comando Vermelho, não apenas tomaram o lugar do Estado em ruas onde o Estado nunca chegou. Tomaram, mais sutilmente, o lugar da igreja, da família, do conselho de bairro, da escola e, no fundo do poço dessa equação, do próprio templo. O que se assiste, em 2026, é uma teologia paralela em funcionamento.
Comece-se pelos tribunais. O chamado “tribunal do crime” foi instituído por Marcola, no início dos anos 2000, ao criar o setor das “disciplinas” dentro da facção.
O nome é técnico e funcional. Cada comunidade dominada pelo PCC tem um disciplina, ou seja, um funcionário responsável por receber queixas dos moradores, ouvir testemunhas, coletar provas e marcar a data do julgamento. Conforme revelaram investigações do Gaeco-MPSP detalhadas pelo Metrópoles
, os réus são intimados verbalmente ou por mensagem de celular, com hora e dia marcados. Apresentam defesa. Podem levar testemunhas. Há tortura registrada para que se assumam crimes mesmo quando há testemunho de inocência. A sentença é, na maioria das vezes, a morte. Em abril de 2021, na favela do Montanhão, em São Bernardo, a sintonia disciplinar final do ABC, comandada por um criminoso conhecido como Rabicó, julgou e executou vítimas que foram obrigadas a cavar suas próprias covas antes de receberem o tiro final. Após a morte de Rabicó, a posição foi assumida por um faccionado conhecido apenas como Puma, preso em 2023, que admitiu participação na condenação à morte de pelo menos 40 pessoas.
E o que se decide nesses tribunais não são apenas dívidas de droga ou traições de partilha. Decidem-se questões de fidelidade conjugal, conflitos de vizinhança, disputa de aluguel, suspeitas de delação, comportamentos religiosos considerados “fora do compasso” da facção e até decisões sobre filhos.
Em Jundiaí, conforme apuração do Jornal Opção em 2024, quatro membros do PCC foram mortos após tribunal do crime, sendo três deles enterrados vivos.
Em Marília, em São Vicente, em Bauru, no ABC, no Vale do Paraíba, em Cariacica e em Belford Roxo, a coreografia é a mesma. Não há advogado de defesa. Não há jurado civil. Não há ata pública. Há, isto sim, “disciplinas” que funcionam, simultaneamente, como juiz, promotor e ministro de uma teologia pretoriana.
O delegado Cristiano Luiz Sacrini Ferreira, do Setor de Homicídios de São Bernardo, observou, com a precisão que só o trabalho de campo permite, “uma similaridade simbólica entre a justiça paralela criada pela facção e os julgamentos legítimos feitos pelo Poder Judiciário brasileiro”. O nome técnico, em ciência política, para essa similaridade simbólica é mimetismo institucional. O nome teológico é idolatria.
Há, depois, o batismo. A entrada no PCC não é assinatura de filiação trabalhista. É rito de passagem religioso.
Em áudio interceptado pela
Operação Flashback II, da Polícia Federal de Mato Grosso do Sul, em 2020, captou-se o “batismo” de um candidato cujo apelido era Samurai. A liturgia abre com a fórmula. “É isso mesmo, Samurai, que você quer para sua vida, irmão, fazer parte do Primeiro Comando da Capital?”
Em seguida, o iniciante responde a um questionário minucioso, com perguntas sobre uso de drogas, ética do crime e homossexualidade.
As conferências de batismo, segundo a investigação, duram 4 a 5 horas. Existem 35.000 “irmãos” batizados, segundo o Gaeco, e cerca de 100.000 contratados, em ramificações que vão de São Paulo ao Líbano.
O batismo, note-se, é a palavra usada pela própria facção. Não é metáfora jornalística. É vocabulário interno. O rito tem nome, padrinho, padrinhada, contrabatismo em caso de desvio e excomunhão por traição. Aqui, infelizmente, a palavra do evangelho foi capturada e invertida.
Há, ainda, o sangue. Em 1° de janeiro de 2017, no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em Manaus, durante 17 horas,
56 presos foram assassinados em uma orgia ritualística que mesclava ajuste de contas faccional e ritual coletivo. Alguns foram decapitados. Outros tiveram o coração arrancado. Alguns foram queimados vivos.
As imagens, divulgadas em redes sociais pelos próprios executores, mostram troféus erguidos diante das câmeras dos celulares. A escolha do órgão removido não é casual.
O coração é, simbolicamente, a sede da vida em quase todas as tradições religiosas da humanidade, das culturas mesoamericanas pré-colombianas aos sacrifícios bíblicos a Baal e Moloch, denunciados, em palavra dura, em Levítico 18:21 e Jeremias 19:5. Quem arranca coração não está apenas matando. Está oferecendo. E há, na história do crime brasileiro, evidência documentada de para quem se oferece.
Antes do PCC se consolidar como hegemônico, existia, dentro dos presídios paulistas, uma facção que se autodenominava Seita Satânica. Conforme reportagem detalhada da
The Intercept Brasil de 2018, reconstruída a partir do depoimento do agente penitenciário Diorgeres de Assis Victorio, com 20 anos de trabalho dentro das cadeias paulistas, a Seita Satânica se organizou na década de 1990 em torno de Idelfonso José de Souza, conhecido como “O Pai” ou “Pai Fundador”, reverenciado como Satã pelos próprios seguidores.
As celas do grupo, no quarto andar do Pavilhão 9 do Carandiru, eram pintadas de preto, com 666, pentagramas, cruzes invertidas, tridentes e imagens de Baphomet. Os rituais relatados incluíam queimar as próprias mãos como oferenda, sob a fórmula litúrgica de que “o cheiro da carne no fogo é o elixir de Lúcifer”. Garrafas PET furadas com sangue humano, animal ou misturado serviam de chuveiro ritual, conforme descrito pelo agente Mazotto.
O coração das vítimas era removido e, segundo relatos, comido em ritual.
A Seita Satânica foi parcialmente desmantelada pelo PCC durante as rebeliões de 2006. Mas, conforme observou Victorio, ela “ainda existe em presídios do interior de São Paulo, com membros dedicados à sua religião”.
E há, no relato, um detalhe operacional decisivo. A Seita Satânica não foi extinta. Foi cooptada. Os inquéritos identificaram ligações operacionais com a cúpula do PCC, com menção ao próprio Marcola. Em troca de submissão e absorção dos rituais, a Seita continuou existindo, sob roupagem nova, dentro da estrutura maior.
O resultado prático é que muitos dos rituais sangrentos hoje atribuídos genericamente ao PCC são, em rigor, herança absorvida, e dois dos principais lideres de tribunal do crime em São Paulo carregam, sintomaticamente, nomes como Alexsandro Cardoso Mota, conhecido pelo apelido “Satanás”.
Soma-se a isto a liturgia musical. O funk “proibidão” tornou-se, nas duas últimas décadas, o equivalente paralelo da catequese cantada. Não é o funk popular, do baile, do paredão. É o subgênero específico que glorifica facções, exalta líderes, ameaça policiais nominalmente, anuncia execuções pendentes e converte assassinos em mártires.
MC Poze do Rodo, preso pela PF em outubro de 2025 em operação que investigava lavagem de R$ 1,6 bilhão em criptoativos, é apenas o exemplo recente. Em 2024, ele havia sido detido por apologia ao crime e admitiu ligações com o Comando Vermelho. As investigações apontaram “ligação sólida” com a alta liderança da facção.
O proibidão funciona, na economia simbólica do bairro, como o salmo da fé invertida. É cantado no transporte público, no carro da esquina, no fone do adolescente, na caixa de som do baile semanal. Forma, em ritmo de 130 BPM, a tradução popular daquilo que, nos tribunais, é decidido em voz baixa por homens com colete e fuzil.
E, por fim, o aborto e o estupro. O PCC, em seu estatuto interno, proíbe o estupro entre faccionados sob pena de morte, e por isso ganhou, durante anos, a aura de “facção mais ética” das prisões.
A verdade, conforme documentado pelas investigações do Ministério Público de São Paulo e por reportagens do G1 e do Correio Braziliense ao longo de 2022 a 2025, é mais sórdida.
O estupro não desapareceu. Foi normalizado em outras camadas. Mulheres de moradores devedores são, na prática, mercadoria de quitação, da mesma forma que eram nas cadeias antes de 1993, quando, conforme relato do ex-detento Sidney Salles à Ponte Jornalismo, “cada prisão tinha um manda-chuva que permitia que violassem a mulher de um prisioneiro devedor”.
O PCC apenas mudou a aparência, não a substância. E o aborto, em territórios dominados, é praticado em larga escala, de forma clandestina, sem registro e sem assistência médica, frequentemente sob coerção, em adolescentes seduzidas ou abusadas por “funcionários” do tráfico. A “ética do crime” pretende ser código moral. É, na realidade, código de submissão hierarquizada, com o homem no topo, a mulher no meio e a vida do filho na base do altar.
A pergunta que se impõe, depois de tudo isto, é deontológica. Que tipo de religião se substituiu na periferia brasileira? A resposta é dura. Substituiu-se a igreja pelo templo da disciplina. Substituiu-se o batismo cristão pelo batismo do PCC. Substituiu-se a confissão pelo julgamento do tribunal do crime. Substituiu-se o hino pelo proibidão. Substituiu-se a comunhão pelo banho de cocaína. Substituiu-se o sacrifício de Cristo, oferecido uma vez por todas, conforme Hebreus 9:26, pelos sacrifícios humanos repetidos, exigidos a cada nova decisão da sintonia. Substituiu-se, em suma, o Deus encarnado pelo deus invertido. E o nome bíblico deste deus invertido é Baal, ou Moloch, ou Belzebu, dependendo da preferência da literatura.
O nome operacional, no Brasil de 2026, é simplesmente PCC.
Note-se, e esta é a observação que separa o jornalismo honesto da militância oportunista, que a Igreja Católica e, sobretudo, a igreja evangélica de pequeno porte, têm sido, nas periferias dominadas por facções, a única instituição civil que se atreve a confrontar diretamente o tribunal do crime.
Pastores evangélicos pentecostais e neopentecostais, em particular, conforme registros recorrentes de homicídios em Recife, Belém, Manaus e na zona leste de São Paulo, são vítimas frequentes de execução por se recusarem a permitir que adolescentes da igreja sejam recrutados pela facção, ou por darem abrigo a ex-faccionados que se converteram.
Não é coincidência. É frontalidade espiritual. O proibidão e o tribunal do crime sabem, em algum nível operativo, que o evangelho é o único concorrente real do batismo invertido. Tudo o mais o crime cooptou, comprou ou substituiu. A cruz não foi cooptada. Por isso é alvejada.
A literatura comparada do crime organizado mostra padrões repetitivos em outros continentes. A ‘Ndrangheta calabresa, parceira comercial do PCC, tem rituais de iniciação herdados de seitas do século XVIII envolvendo sangue, imagem de São Miguel virada de cabeça para baixo e juramentos sob pena de morte.
Os Maras centro-americanos, MS-13 e Barrio 18, têm tatuagens devocionais à Santa Muerte, sincretismo asteca-católico invertido cujo culto se espalhou do México à Colômbia.
No norte da África e no Sahel, redes de tráfico ligadas a milícias jihadistas combinam saqueio com práticas de devoção pervertida que oscilam entre sincretismo e satanismo declarado.
O canibalismo e o vampirismo, em sentido literal nos rituais e em sentido espiritual nas economias inteiras alimentadas por sangue humano sacrificado, são manifestações universais do mesmo arquétipo.
O Brasil, longe de ser exceção, é, neste momento, um dos centros mundiais desse arquétipo em ação. E o seu Estado, no plano federal, ocupa-se em pedir a Washington que não classifique os agentes desse arquétipo como terroristas.
Há, portanto, uma camada que nem a Lei Antifacção nem a Carbono Oculto, nem todas as ADPFs do Supremo, podem atingir. É a camada do imaginário. É a camada na qual o jovem do bairro, criado sem pai presente, sem catequese, sem escola que funcione, sem médico no posto, sem sirene de viatura, vê no faccionado do beco a única figura paterna em funcionamento.
É a camada onde o estuprador de menina vira “padrinho” do bairro. É a camada onde a sintonia decide o casamento do filho. É a camada onde o coração arrancado em ritual é, para o iniciado, uma promoção. Onde o Estado e a igreja não chegam, chega um deus. Sempre chega. E o que tem chegado, em 33 anos, à periferia brasileira, não é o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. É outro.
Aqui a discussão se desloca do empírico para o teleológico. Não basta combater a facção com decreto, com operação policial, com lei hedionda, com bloqueio de fintech. Tudo isto é necessário e nada disto é suficiente. A batalha de fundo é espiritual, e quem se recusar a nomear a guerra está condenado a perdê-la, porque a outra parte já a nomeou.
Os “disciplinas” do PCC sabem em nome de quem operam. Os pastores assassinados em Belford Roxo sabem contra quem morrem. O agente penitenciário Diorgeres Victorio, com 20 anos de cadeia atrás dos olhos, sabe o que viu na cela 29 do Raio II. Os únicos que insistem em fingir que a guerra é meramente “socioeconômica” são os intelectuais de classe média, com mestrado em ciência social e assinatura de TED, que vivem em prédios com guarita, leem a Folha pelo aplicativo e jamais entraram, sozinhos, em qualquer comunidade citada por nome neste artigo. Para eles, a palavra “espiritual” é embaraço. Para a mãe que enterrou o filho assassinado por tribunal do crime em Cariacica, a palavra é diagnóstico.
A Nação brasileira, herdeira simultânea da catequese jesuítica, da reforma protestante tardia e da tradição libertária da Constituição de 1988, não pode permitir-se nem o erro de cima, nem o erro de baixo.
O erro de cima é substituir Jesus por um deus-Estado, totalitário, paternalista, que tudo decide e tudo distribui, e que, ao tomar para si o lugar de Deus, abre o flanco para que o deus-mafioso ocupe o vácuo periférico, como ocupou.
O erro de baixo é deixar que o deus-Baal mafioso assuma a estrutura simbólica que a igreja, a família e a escola deveriam ocupar, e que a deserção institucional desocupou.
As duas idolatrias se completam. Uma é o avesso da outra. Quem combate a primeira, na linguagem da liberdade política, e não combate a segunda, na linguagem da batalha espiritual, está fazendo metade do trabalho. Quem combate a segunda, na linguagem da fé, e não combate a primeira, na linguagem cívica, está fazendo a outra metade.
Brasil precisa, em 2026, das duas metades. Caso contrário, ficará com 41% da população reconhecendo o crime como autoridade do bairro, e os outros 59% fingindo, sob a frase de plantão, que o problema é “socioeconômico”.
E é com essa fotografia espiritual posta sobre a fotografia política que se chega, agora, à última e mais decisiva pergunta deste artigo.
XIV. O que se vê adiante
O 2026 que se avizinha eleitoralmente, com Flávio Bolsonaro, Tarcísio, Ratinho Júnior, Zema, Cláudio Castro e Caiado disputando o palco da direita, e Lula tentando a saída do PT à presidência por terceira vez consecutiva mediante candidatura interna, será marcado, queira-se ou não, por este pano de fundo. 68,7 milhões de brasileiros vivendo o cotidiano sob regulação parcial ou total de facções, 122 mortos no Complexo da Penha, R$ 52 bilhões lavados em fintechs da Faria Lima, e um governo federal que, simultaneamente, edita Lei Antifacção dura em alguns artigos e veta nos pontos críticos, defende as facções da designação internacional como terroristas, e tem fotografias em ONGs presididas por irmãs de chefes do PCC.
A maturidade política do Brasil será medida, neste pleito que vem, pela capacidade da população de cruzar fontes, ler estatística e perguntar a si mesma, no momento em que estiver diante da urna, quem, nestes 33 anos, encurralou e quem chancelou. A resposta não é simples. A resposta é, isto sim, evidente. E o eleitor que ignorar a evidência o fará por preferência, não por desinformação. Esta diferença é importante porque desloca a responsabilidade do redator do telejornal para o ombro de cada um.
Quando o evangelho de João, no capítulo 8, versículo 32, registra a frase de Cristo segundo a qual “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, oferece-se, ali, um princípio que vai muito além da religião. É um princípio cívico. Sem verdade não há liberdade política possível. E o que se descortina hoje, em maio de 2026, na pesquisa Datafolha, no relato de Pasquino, nos dados da Carbono Oculto e na lista de visitas do presidente, é a contraprova exata. Onde houve mentira sustentada, houve facção avançando. Onde houve “diálogo cabuloso”, houve consolidação. Onde houve censura de áudio na véspera da eleição, houve permissão tácita para que o pacto continuasse de pé.
A mesma escritura, em Mateus 7, versículo 16, ensina que “pelos seus frutos os conhecereis”. O fruto do petismo na presidência, nestes 12 anos de mandato somados, é o de uma facção paulista que saiu da megarrebelião de 2001 para a megafortuna de 2025. O fruto do bolsonarismo, nos 4 anos do intervalo, é o de uma curva de homicídios dolosos que despencou ao menor patamar em 14 anos. Não é necessário concordar com cada ato de governo de cada um deles para aceitar este balanço. Basta saber ler número.
E em João 1, versículo 1, está o lembrete fundador. “No princípio era o Verbo”. Toda construção, política, criminal, social ou espiritual, começa pela palavra. O PCC começou pela palavra, pela palavra de 8 detentos jurando, num estatuto, fundar um partido do crime. O Brasil oficial, em 33 anos, deveria ter respondido com palavra mais forte. Em alguns governos, respondeu com gravata e abraço. Em outros, com confronto. Está nos números acima qual deles teve efeito.
Sessenta e oito milhões, setecentos mil reféns assistem, agora, ao pronto-socorro tardio chegar. A Lei Antifacção, com seus vetos. A megaoperação do Alemão, com seu custo. A Carbono Oculto, com seus 350 mandados. É pouco. Para 32 anos de omissão alternada com cumplicidade, é pouco. Mas é alguma coisa. E é, talvez, o início do reconhecimento institucional de que o Brasil não tem um problema de segurança pública. Tem um problema de soberania. Os 41% deste domingo de Dia das Mães não dizem que o brasileiro tem medo do crime. Dizem que o brasileiro reconhece a presença de uma segunda autoridade no seu quarteirão. E onde há segunda autoridade reconhecida, há, por definição, Estado paralelo instalado.
Esta é a verdadeira manchete da pesquisa que a Folha publicou no domingo. Esta é a manchete que a Folha, evidentemente, não publicará jamais. Que cada leitor, com a leitura honesta dos números, faça a sua própria.
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Fontes :
Folha de S.Paulo: 41% dos brasileiros dizem ver atuação do crime organizado no bairro onde vivem
Diário do Rio de Janeiro: Comando Vermelho amplia domínio e disputa território com PCC em 13 estados
Ponte: Crimes de Maio de 2006, o massacre que o Brasil ignora
Folha da Política: TSE nega pedido de Lula para tirar do ar postagens que ligam PT à facção PCC
Gazeta do Povo: Governo Lula coleciona suspeitas de articulação com facções
Metrópoles: Visita de Lula à Favela do Moinho foi articulada com ONG ligada ao PCC
Metrópoles: Líder comunitária que preparou visita de Lula extorquia moradores
Revista Oeste: Mafioso revela que PCC financiava 50% do envio de cocaína para a Europa
Small Wars Journal (ASU): From Drug Trafficking to Faria Lima, the PCC’s Metamorphosis
Exame: Porto de Santos tem 40% da cocaína apreendida no Brasil
Gazeta do Povo: PCC e CV, do tráfico nas ruas à máfia global
Metrópoles: Por que o governo Lula é contra EUA classificar PCC e CV como terroristas
Ministério da Justiça: Presidente Lula sanciona Lei Antifacção
Brasil Paralelo: PCC, como 8 presos fundaram a maior facção do país
Gazeta do Povo: Quem são as facções internacionais aliadas do PCC e CV
Metrópoles: No tabuleiro do PCC, como funciona o “tribunal do crime”
Metrópoles: Justiça paralela, entenda como funciona o “tabuleiro do PCC”
Jornal Opção: PCC impõe tribunais do crime e silencia moradores em periferias paulistas
Correio do Estado: “Tribunal do crime”, conheça o rito de um julgamento do PCC
Campo Grande News: No “batismo” do PCC, iniciante responde sobre drogas, ética e homossexualidade
The Intercept Brasil: O agente penitenciário e a Seita Satânica que enfrentou o PCC
Brasil Paralelo: Seita Satânica, conheça a história brutal da facção satanista
Gazeta do Povo: Quem é Poze do Rodo, funkeiro que exibe ostentação e ligação com o crime
SINDPPESP: Justiça paralela, entenda como funciona o “tabuleiro do PCC”






