Cinco de junho: a independência que precisou vir de fora
“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8:32)
No começo de maio, Lula desembarcou em Washington e foi recebido na Casa Branca. Voltou dizendo que o assunto sequer fora tratado. Três semanas depois, nos dias 26 e 27 de maio, foi a vez de Flávio Bolsonaro entrar no mesmo prédio, recebido por Donald Trump e, na sequência, por J.D. Vance e Marco Rubio. Os dois brasileiros pediram coisas opostas. Lula foi pedir que o Departamento de Estado não carimbasse o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras. Flávio foi pedir exatamente o contrário. Vinte e quatro horas depois da visita do senador, no dia 28, Rubio anunciou a designação, com vigência marcada para 5 de junho de 2026. Flávio escreveu duas palavras no X: “Grande dia“. O Itamaraty não disse nada.
Guarde a aritmética desse parágrafo, porque ela explica quase tudo. Um chefe de Estado de 200 milhões de habitantes foi a Washington defender, na prática, a impunidade financeira de duas facções que faturam dezenas de bilhões por ano. Um senador da oposição foi pedir que essas facções fossem tratadas como o que são. Washington respondeu ao segundo em um dia. A velocidade não é detalhe protocolar. É diagnóstico.
Este texto reconstrói o que está em jogo nesse carimbo, e faz isso recusando dois atalhos. O primeiro atalho é o da torcida, que comemora sem entender o mecanismo. O segundo é o do conspiracionismo, que vê uma “operação Soros” coordenando o narcotráfico latino-americano e, ao inventar um vilão judeu mestre de marionetes, entrega de bandeja aos petistas o argumento para desqualificar a crítica inteira. Os dois atalhos servem ao crime. O que segue é a estrada longa.
O que foi feito aos outros, com nomes e datas
A premissa intelectual aqui é simples e tem a virtude de ser verificável: o que os Estados Unidos fizeram a outras organizações designadas na América Latina, entre janeiro de 2025 e maio de 2026, revela o que tende a acontecer com PCC e CV. Não é profecia. É leitura de precedente.
A peça-mãe do aparato é a Ordem Executiva 14157, assinada no dia 20 de janeiro de 2025, primeiro dia do segundo mandato de Trump. Ela mandou o Secretário de Estado recomendar, em catorze dias, a designação de cartéis como Foreign Terrorist Organizations e Specially Designated Global Terrorists. Em 20 de fevereiro, oito organizações entraram de uma vez: Tren de Aragua, MS-13, Cartel de Sinaloa, CJNG, Cartel del Noreste, Cartel del Golfo, La Nueva Familia Michoacana e Cárteles Unidos.
A combinação das duas siglas, FTO mais SDGT, destrava um arsenal que vale a pena entender no detalhe, porque é esse arsenal que cai sobre o Brasil em 5 de junho. Primeiro, o crime de “material support”, previsto no 18 U.S.C. § 2339B, com pena de até vinte anos, prisão perpétua se houver morte, e jurisdição que alcança estrangeiros por condutas inteiramente fora dos Estados Unidos. Segundo, bloqueio automático de ativos. Terceiro, sanções secundárias contra bancos estrangeiros que processem “transação significativa” desses grupos, o que põe em risco o acesso ao sistema de correspondência bancária em dólar. Quarto, inadmissibilidade migratória ampla. O memorando da procuradora-geral Pam Bondi, de 5 de fevereiro de 2025, batizado “Total Elimination of Cartels and TCOs”, organizou tudo isso numa doutrina de Estado.
Depois veio a escalada que ninguém imaginava possível. Em 1º de outubro de 2025, Trump notificou o Congresso de que os Estados Unidos estavam em “conflito armado não internacional“ com os cartéis, e que seus membros seriam tratados como combatentes ilegais. Um parecer reservado do Office of Legal Counsel, vazado em parte por The Intercept e pelo Washington Post, sustentou a tese de que drogas são alvo militar legítimo porque financiam um inimigo em guerra. Traduzido: a cocaína virou objetivo de bombardeio.
E os corpos apareceram. Entre 22 e 24 de fevereiro de 2025, treze chefes da “Ranfla Nacional”, a cúpula da MS-13, foram indiciados na Justiça Federal de Nova York, e o México expulsou três deles direto para custódia em Houston. Não foi extradição, com ritual de defesa e cortes. Foi expulsão administrativa. Esse é o primeiro template que o Brasil precisa olhar de frente.
O Tren de Aragua acumulou mais de 260 indiciamentos federais em pouco mais de um ano. Seu líder máximo, Héctor Guerrero Flores, o “Niño Guerrero”, foi indiciado em dezembro de 2025 com recompensa de cinco milhões de dólares pela cabeça. Mas o caso mais didático é mexicano. Em 27 de fevereiro de 2025, o México entregou 29 narcotraficantes de uma só vez, por uma lei de segurança nacional, não por extradição formal. Entre eles, Rafael Caro Quintero, o homem que mandou matar o agente Kiki Camarena em 1985, e os irmãos Miguel e Omar Treviño Morales, o Z-40 e o Z-42 dos Zetas. A geração que parecia intocável foi posta num avião em poucas horas.
Os filhos de El Chapo fecham o quadro. Ovidio Guzmán se declarou culpado em Chicago em 11 de julho de 2025, com multa de oitenta milhões de dólares e cooperação total. Joaquín Guzmán López fez o mesmo em dezembro. E aqui o detalhe que vale ouro para entender o que vem pela frente: em maio de 2025, dezessete familiares de Ovidio cruzaram a fronteira sob escolta americana. O cartel virou informante. A família virou testemunha protegida.
A frente financeira foi tão letal quanto a judicial. Em 25 de junho de 2025, o Tesouro americano fulminou três instituições mexicanas: o CIBanco, vigésimo maior banco do país, o Intercam e a corretora Vector, controlada por Alfonso Romo, ex-chefe de gabinete de López Obrador. O FinCEN descreveu lavagem para o Cartel do Golfo e para o Sinaloa, inclusive pagamentos a fornecedores chineses de precursores químicos. Em 1º de julho, a Visa suspendeu todas as transações internacionais do CIBanco. A reguladora mexicana interveio nos três. CIBanco e Intercam foram absorvidos por concorrentes; a Vector vendeu sua divisão de análise e transferiu a clientela. Três instituições, uma das quais com sete bilhões de dólares em ativos, deixaram de existir como eram. Ninguém precisou disparar um tiro.
Esse é o ponto que o empresário brasileiro do setor de combustíveis ainda não processou. O de-risking não é hipótese. É procedimento ativo, testado, com resultado conhecido.
O Caribe, Maduro e os limites do mar
Entre 2 de setembro de 2025 e o fim de maio de 2026, a Operação Southern Spear acumulou cerca de 58 ataques a embarcações e perto de 197 mortos no Caribe e no Pacífico Leste. Nem todos eram traficantes. Alejandro Carranza Medina era um pescador colombiano de Santa Marta, morto em 15 de setembro; a família dele levou o caso à Comissão Interamericana. Um equatoriano capturado num submersível foi solto sem acusação, prova implícita de que não era quem se dizia. O Reino Unido chegou a suspender o compartilhamento de inteligência por dúvidas sobre a legalidade dos ataques. Não vou higienizar isto com eufemismo: parte das vítimas era gente pobre de comunidades caribenhas, e houve, segundo o Washington Post, ordem verbal do secretário de Defesa para não deixar sobreviventes. Quem comemora o método precisa ter estômago para olhar a fatura inteira, não só a parte que agrada.
A escalada terminou em Caracas. Na madrugada de 3 de janeiro de 2026, a Operação Absolute Resolve mobilizou mais de 150 aeronaves e o porta-aviões USS Gerald R. Ford e capturou Nicolás Maduro e Cilia Flores em Fort Tiuna. Maduro foi levado a um tribunal de Manhattan dois dias depois e se declarou “prisioneiro de guerra”. O comandante do Comando Sul havia renunciado em outubro, em desacordo com a legalidade dos ataques. O Senado só aprovou a contestação formal em 8 de janeiro, com a intervenção já consumada. Foi gesto tardio, do tipo que serve para a ata, não para o evento.
Aqui mora a primeira boa notícia para quem teme o pior no Brasil, e ela é técnica, não retórica. A área de responsabilidade do Comando Sul termina mais ou menos na linha do Equador. A rota crítica do PCC, que sai de Santos, Itajaí e Paranaguá rumo a Cabo Verde e à Guiné-Bissau, e de lá para Antuérpia e Roterdã, atravessa águas que são do AFRICOM e do EUCOM, onde não existe precedente de ataque letal. A interdição transatlântica é feita por navios europeus e pelo centro de Lisboa, o MAOC-N. O Brasil já é parceiro do JIATF-South desde 1999, mas com cooperação de informação, não de fogo. Quando Lula disse, em 14 de abril, que “essa guerra é nossa, não dos Estados Unidos“, ele verbalizou um limite real. Ataque a barco do PCC em jurisdição brasileira é, no horizonte próximo, improvável. O cenário factível é outro: pressão para que a Marinha e a Polícia Federal interceptem em águas internacionais, conforme o protocolo que o próprio México aceitou em novembro de 2025 para “evitar mais bombardeios”. A diferença entre cooperar e ser bombardeado é a margem em que Lula vai ter de operar.
O cerco de três governos e o que isso tem de globalismo
Sobreponha os instrumentos aplicados a Sheinbaum, Petro e Lula entre 2025 e 2026 e o desenho aparece sozinho. Tarifa pela IEEPA: 25% no México, 50% no Brasil pela EO 14323 de 30 de julho, justificada não por economia, já que os Estados Unidos têm superávit com o Brasil, mas pelo julgamento de Bolsonaro e pelas ordens de censura do Supremo. Decertificação antidrogas: a Colômbia foi decertificada em setembro de 2025, a primeira vez em 28 anos. Sanção OFAC a pessoas: Petro, a mulher, o filho e o ministro Benedetti em 24 de outubro, algo sem precedente contra o chefe de Estado eleito de um país aliado; no Brasil, a Magnitsky a Alexandre de Moraes em 30 de julho, depois estendida à mulher e ao Lex Instituto, a primeira vez que se aplicou tal sanção a um ministro de suprema corte de uma democracia consolidada.
Três governos de esquerda, o mesmo ferramental. É aqui que entra a palavra que envenena o debate: globalismo. E é aqui que separo, com bisturi, o que é argumento legítimo do que é delírio.
Existe uma frente real e declarada. Em 20 de agosto de 2025, no Rio de Janeiro, a Open Society Foundations anunciou uma estratégia de oito anos para a América Latina inspirada no “Buen Vivir”, com foco em três países: Brasil, Colômbia e México. Os mesmos três. A iniciativa é tocada por Alex Soros, pelo brasileiro Pedro Abramovay, que foi secretário de Justiça de Lula, e por Heloísa Griggs. Entre as bandeiras declaradas está “segurança pública centrada nas pessoas”, eufemismo polido para política menos punitiva, ao lado de pautas de descriminalização e de redução do encarceramento. A própria fundação admite ser, com mais de 300 milhões de dólares em três décadas, o maior financiador filantrópico privado da reforma de política de drogas no mundo. Isso não é boato. Está no site deles.
Daí decorre uma crítica de mérito, perfeitamente democrática e que eu subscrevo: a tese de que descriminalizar e desencarcerar enfraquece o crime é, na América Latina de hoje, um luxo de seminário. Onde o Estado recua, não entra a liberdade. Entra a facção. O território que a polícia abandona não vira praça arborizada de convivência; vira boca, vira tribunal do crime, vira toque de recolher decretado por um menino de dezessete anos com fuzil. Trump apostou no oposto: encarceramento, ataque militar, judicial e financeiro, dentro de casa e no quintal. São duas filosofias da ordem em choque aberto, e quem viu o que aconteceu no Complexo do Alemão sabe qual das duas tem endereço na realidade.
O que dá força a essa leitura não é nenhum plano oculto. É um anúncio feito em coletiva de imprensa. No exato período em que Washington se move para sufocar o caixa das facções e tratá-las como terroristas, a rede filantrópica mais influente da esquerda global declara que vai despejar recursos, nos mesmos Brasil, Colômbia e México, na direção oposta: menos gente atrás das grades, leis de droga empurradas para a descriminalização e, no horizonte, para a regulação legal do mercado, e uma “segurança centrada nas pessoas” que, traduzida do dialeto das ONGs, significa polícia mais tímida e cadeia mais vazia. Dois vetores sobre o mesmo território, puxando para lados contrários. Um quer apertar o nó financeiro do crime. O outro quer afrouxar a tranca da cadeia e abrir a porteira do mercado.
E aqui não há sutileza a desfazer. O desencarceramento e a legalização não são dano colateral da agenda; são a agenda, escrita com todas as letras no material da própria fundação. O problema é que, no Brasil de carne e osso, soltar o soldado do tráfico e caminhar para a venda regulada da droga não devolve liberdade ao cidadão comum. Devolve mão de obra às ruas para quem manda na boca, e entrega ao traficante a perspectiva de ver o seu produto a caminho da prateleira. Desencarcerar em massa num país onde o Estado já não entra na favela não é reforma da Justiça. É reposição do efetivo do inimigo. Pode-se discordar disso no plano da teoria; basta atravessar uma comunidade dominada para ver de que lado a teoria deságua.
O portal dos “aliens” e a coreografia de Washington
No mesmo compasso da fala de Rubio, a Casa Branca lançou um site, o aliens.gov, com tema espacial e ironia deliberada, que permite pesquisar prisões do ICE por cidade, por crime e por filiação a facção, com mapas de calor e até uma linha para denunciar “estrangeiros suspeitos”. A peça comunica uma única mensagem, sem subtexto: os criminosos têm nome, têm origem, têm rosto, e o governo americano vai listá-los um a um. O PCC e o CV passam a habitar esse mesmo universo de nomeação. A coreografia é proposital. Designação no Departamento de Estado, banco de dados na Casa Branca, recompensas no Departamento de Justiça, sanções no Tesouro. Quatro instrumentos, um movimento.
A declaração de Rubio, aliás, foi cirúrgica. Descreveu PCC e CV como “duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil“, cujas redes ilícitas se estendem para dentro do território americano, e prometeu cortar o fluxo de receita que financia os “narcoterroristas”. A AP registrou o óbvio que Brasília finge não ver: a maioria das conexões dessas facções está na Europa, não na América do Norte. Ou seja, a designação não nasce de uma ameaça direta de fentanil ou de cocaína despejada nos Estados Unidos, como no caso mexicano. Nasce de uma decisão política sobre o hemisfério. O que nos leva ao ponto que ninguém em Brasília quer dizer em voz alta.
O relógio de 5 de junho e o que vem depois
Faltam poucos dias. A partir de 5 de junho, o ferramental descrito lá em cima deixa de ser teoria comparada e vira direito aplicável ao Brasil. Com os precedentes na mão, organizo o que tende a acontecer, por probabilidade, sem fingir certeza onde só cabe hipótese.
A onda mais provável, e a mais imediata, é financeira. Replicando o modelo do Sinaloa, a OFAC tende a designar, em lotes, os operadores já nomeados nas investigações brasileiras: financistas como Mohamad Hussein Mourad, fintechs clandestinas, distribuidoras de combustível, fundos exclusivos da Faria Lima, carteiras de criptoativos. O impacto não cai só sobre quem for listado. Cai sobre todo banco médio brasileiro que mantenha relação com qualquer cliente listado, sob pena de perder o acesso ao dólar. Itaú, Bradesco e Santander têm exposição material pela prestação de serviço bancário a fintechs. A advocacia e a contabilidade que orbitam o setor de combustíveis entram numa zona cinzenta desconfortável. Repito o que disse antes: isso já tem resultado conhecido, e o resultado é o fim de instituições.
A segunda frente é o indiciamento por material support, com aquela jurisdição que alcança brasileiros que nunca pisaram nos Estados Unidos. A Constituição proíbe extraditar brasileiro nato, e isso não muda. Mas indiciar sem extraditar já é, por si, um instrumento de constrangimento: bloqueia viagens, congela contas no exterior, contamina sócios e familiares que circulam livremente. Pergunte ao advogado que despacha ordem de chefe preso, à luz da Operação Roque, que em novembro de 2025 mirou advogados do CV em Manaus, se ele dorme tranquilo com a hipótese de virar réu federal em Nova York.
A terceira frente, de probabilidade média, é a pressão direta sobre uma fintech brasileira pela via do FinCEN, no modelo CIBanco. O Banco Central e a CVM ficariam diante da escolha que a reguladora mexicana fez: intervir ou ver a casa quebrar. A vantagem brasileira é o sistema bancário concentrado e capitalizado, que absorveria um baque desses. A desvantagem é o sinal sistêmico para o setor de fintech, que perde de uma vez sua aura de porto seguro.
O ataque letal a embarcação no Atlântico Sul é o cenário de baixa probabilidade, e por bons motivos técnicos, não por boa vontade americana. Exigiria estender a doutrina jurídica para fora do Comando Sul e romper abertamente com Brasília. Só entraria na mesa num cenário de vitória bolsonarista em 2026 com pedido formal de cooperação de fogo, o que nos joga, de novo, na urna de outubro.
E há o cenário que já está em curso: a colisão entre o Supremo e a OFAC. O ministro Flávio Dino já limitou, por decisão, efeitos extraterritoriais de sanção estrangeira sobre o Judiciário. A retirada de Moraes da lista em dezembro de 2025 foi tática de Trump, não vitória institucional do Brasil, e há quem em Washington, como Darren Beattie, articule a reinclusão. O setor financeiro fica entre duas obrigações que se contradizem, a americana e a brasileira, e terá de escolher qual desobedecer.
Seu João, o comerciante e o tribunal do crime
Tudo isso parece distante de quem mora longe da Faria Lima. Não é. Em março de 2026, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Datafolha divulgaram a pesquisa “Medo do crime e eleições 2026“, e o número saltou aos olhos: 41% dos brasileiros de 16 anos ou mais, cerca de 68,7 milhões de pessoas, reconhecem a presença de facção, milícia ou tráfico no bairro onde moram. Nas capitais, 56%. Mais da metade do país, 57%, mudou a rotina por medo no último ano. 36,5% trocaram de caminho. 35,6% deixaram de sair à noite. E 61,4% dizem que o crime organizado influencia as regras de convivência do lugar onde vivem. A academia tem nome técnico para isso, “duopólio de violência”, o Estado e o crime governando o mesmo território. Eu prefiro o nome simples: ocupação.
Tire a estatística do gráfico e ponha cara nela. Seu João volta do trabalho às onze da noite porque pegou hora extra, e leva um tapa na esquina de um adolescente armado porque “passou da hora” decretada pela boca. A dona Maria, que vende salgado na laje, paga taxa de proteção que não protege coisa nenhuma, só compra o direito de não apanhar. O casal que brigou alto demais é “julgado” num tribunal do crime, sem advogado, sem recurso, com sentença executada na hora, às vezes no microondas, a pilha de pneus em que se queima gente viva. Esse cidadão não vive sob o Estado brasileiro. Vive sob um para-Estado que cobra imposto, aplica pena de morte e proíbe a entrada de quem não tem permissão. A pesquisa mediu o medo. O medo é a sombra de uma soberania perdida.
Para essas 68 milhões de pessoas, a designação americana não é abstração geopolítica. É a primeira vez em décadas que um poder com músculo trata o dono do território como inimigo a ser desmontado, e não como interlocutor a ser “compreendido em seu contexto social”. A pergunta que vale, e que dói, é por que essa providência teve de vir de fora.
A cultura do narco, a Faria Lima e os bilhões lavados
Porque o crime, no Brasil, não está nas bordas da sociedade. Está nos miolos dela. A infiltração econômica do PCC, exposta na Operação Carbono Oculto, é o ponto exato em que a sanção americana morde. Falamos de dezenas de bilhões em combustível adulterado, de mais de mil postos, de fundos exclusivos na Faria Lima, de fintechs que processaram fortunas em dinheiro vivo. O ministro Fernando Haddad falou em 52 bilhões de reais entre 2020 e 2024 só no combustível, e em “centenas de bilhões” no total. A operação seguinte, a Fluxo Oculto, deflagrada no mesmo 28 de maio, mapeou 365 milhões em criptoativos e desenhou um fluxo de 26 bilhões via fintechs em três anos. Não é mais o traficante de chinelo na laje. É o traficante com mesa de fundos, advogado de banca, contador de holding e endereço em torre envidraçada.
A cultura acompanha o dinheiro. O funk ostentação que canta nome de facção e fuzil como joia não é folclore inocente; é departamento de marketing. O advogado que vira pombo-correio de ordem de presídio não é peça do sistema de defesa; é parte da estrutura criminosa, e a Justiça já começou a tratá-lo assim. E há a política. Partidos que recebem voto de curral em território dominado, vereadores eleitos por boca, governos estaduais que negociam “paz” com quem deveriam combater. A facção não corrompe só o cofre. Corrompe o gosto, a linguagem, a aspiração. Ensina o menino de doze anos que a vida vitoriosa é a do patrão de ouro no pescoço, não a do pai que acorda às cinco para pegar dois ônibus. Isso é o que se chama, com a palavra exata, de corrupção de almas.
A sanção americana ataca a coluna vertebral disso, que é o dinheiro limpo. Sem lavar, o crime sufoca no próprio caixa. É por isso que o de-risking importa mais do que tiroteio: tira do narco a coisa de que ele mais precisa, que é parecer empresário.
Da Ilha Grande a Bogotá: a velha aliança
Há quem trate a relação entre certa esquerda e o crime como invenção de adversário. A história é menos generosa. O Comando Vermelho nasceu em 1979 no presídio Cândido Mendes, na Ilha Grande, onde a ditadura militar amontoou presos comuns junto a militantes da luta armada. Os comuns aprenderam com os políticos o que não tinham: disciplina de célula, hierarquia, cobrança de “contribuição”, a retórica da solidariedade entre os de dentro contra os de fora. A facção mais antiga do Rio é, na origem, filhote tardio de uma pedagogia revolucionária aplicada na cela errada. O PCC veio depois, em 1993, gestado na esteira do massacre do Carandiru, os 111 mortos de 2 de outubro de 1992, e cresceu vendendo a mesma narrativa: nós contra o sistema, o presídio como trincheira.
Na Colômbia, Pablo Escobar levou a lógica ao extremo. A tomada do Palácio da Justiça pelo M-19, guerrilha de esquerda, em novembro de 1985, terminou com magistrados mortos e arquivos de extradição convenientemente incinerados. A acusação de que o Cartel de Medellín financiou a ação para destruir esses processos é antiga e até hoje disputada; trato-a como suspeita robusta, não como fato julgado. Mas o padrão, esse, é fato: onde a ideologia precisa de fuzil e o crime precisa de causa, os dois se encontram. Narcoguerrilha não é xingamento. É descrição de um arranjo que a Colômbia conhece de cor.
E é por isso que o domingo, 31 de maio, em Bogotá, importa para nós. A eleição põe na frente das pesquisas Iván Cepeda, da coalizão de Petro, candidato da continuidade do governo que foi decertificado por drogas e que teve o presidente sancionado pela OFAC. A direita chega rachada entre Abelardo de la Espriella, advogado de estilo Bukele e Milei, e a centro-direita Paloma Valencia, herdeira política de Uribe. Cepeda lidera o primeiro turno; o segundo, em 21 de junho, é a incógnita. Uma campanha marcada por violência, com o assassinato do candidato Miguel Uribe Turbay ainda fresco na memória. Se a continuidade petrista vence ali, o continente ganha mais um governo na lista de atrito com Washington. Se a direita unifica e passa, muda o mapa hemisférico inteiro, porque Tren de Aragua, os cartéis bolivianos de Santa Cruz, os restos do regime venezuelano e as facções equatorianas dependem de corredores que cruzam a Colômbia. Designar PCC e CV é uma peça de um tabuleiro maior, e o tabuleiro vota domingo.
O andar de baixo do problema
Falta a camada que quase ninguém tem coragem de nomear num texto de análise política, e que este autor nomeia sem pedir licença: a camada espiritual.
Não falo de ritual de cinema. Falo de inversão. O mal, na tradição cristã, não cria nada; ele parasita o bem e o vira do avesso. Veja o que a facção faz. Pega a palavra “irmão”, que é fraternidade, e a transforma em juramento de sangue. Pega a palavra “tribunal”, que é justiça, e a transforma em câmara de execução. Pega a palavra “proteção”, que é cuidado, e a transforma em extorsão. Pega até a religião: há o fenômeno documentado dos “traficantes evangélicos“ que expulsam terreiros de Umbanda e Candomblé a coronhadas, em nome de um Jesus que jamais reconheceriam, enquanto traficam morte. É o sagrado sequestrado para legitimar o profano. Não é ateísmo. É idolatria, que é coisa pior.
E há a economia moral do horror, que é a mais reveladora. O patrão vive de ostentação, relógio, lancha, festa, mulher, o hedonismo cru de quem confunde luxo com sentido. Mas esse luxo é sustentado por um exército de pobres, meninos de quatorze anos que viram “soldado”, “fogueteiro”, “olheiro”, e que morrem antes dos vinte para que o chefe brilhe. É a estrutura mais antiga da iniquidade: o sacrifício dos pequenos no altar da vaidade dos grandes. O patrão é o sumo sacerdote de um culto cuja oferenda é a juventude da periferia. “Pelos seus frutos os conhecereis”, diz o Evangelho de Mateus. Os frutos estão nos cemitérios clandestinos que a pesquisa do Fórum também mediu.
Se você quer um nome teológico para o arranjo do “duopólio de violência”, em que o crime e o poder coexistem e até se nutrem, há um que serve como alegoria precisa: Abraxas, a figura gnóstica que funde o bem e o mal num mesmo deus, que santifica a contradição e faz da convivência com o mal uma virtude administrativa. O Brasil oficial vive sob essa teologia prática. Tolera o crime como dado de paisagem, negocia com ele, “compreende seu contexto”, e gasta sua energia perseguindo quem mancha estátua com batom ou quem ousa publicar uma opinião na internet. É a inversão completa: o bandido solto, o opinador preso. João 8:44 chama o pai dessa mentira pelo nome. Eu deixo o leitor completar a frase.
Cinco de junho, dia de independência
Termino onde comecei, no paradoxo dos dois pedidos. Um governo que vai a Washington defender, na prática, o sigilo financeiro das facções, e que reserva sua sanha repressiva para o crime de opinião, abdicou da tarefa de defender 68 milhões de cidadãos do poder que os ocupa. Quando o Estado se demite dessa função, a função não some. Ela é exercida por outro. Desta vez, por uma decisão tomada em outro país, em outra língua, por motivos que não são exatamente os nossos, e que mistura cálculo eleitoral americano, campanha de Flávio Bolsonaro e contraterrorismo financeiro genuíno, tudo na mesma página. Eu sei disso. Não finjo que o gesto é puro. Quase nada na política é.
Mas há datas que valem pelo que destravam, não pela pureza de quem as assinou. Cinco de junho pode ser, para a parcela do Brasil que vive sob o tapa do traficante e a taxa do miliciano, algo perto de uma independência. Não porque resolva. Não resolve. O dinheiro vai migrar, o advogado vai recorrer, o Supremo vai colidir com a OFAC, e o crime, que é resiliente como praga, vai tentar mil rotas novas. A jornada que começa não é curta, e quem prometer solução rápida está mentindo ou vendendo alguma coisa.
A independência aqui é de outra ordem. É a quebra de um pacto tácito de tolerância. É o primeiro dia em que o dono da boca descobre que existe um poder que não vai sentar com ele à mesa, que não vai “entender suas razões”, que vai tratá-lo como o que ele é. Para quem nunca teve o Estado do seu lado, ver o crime perder o conforto da impunidade financeira é uma forma modesta, imperfeita, importada, mas real, de libertação.
Chame de exorcismo, se quiser a palavra antiga. O exorcismo não é o fim da batalha; é o reconhecimento de que existe algo a expulsar. O Brasil passou tempo demais fingindo que o demônio que administra suas ruas era apenas “questão social”, problema de gestão, externalidade a mitigar com transferência de renda. Distribuir dinheiro para administrar a miséria sem combater o crime que a produz não é compaixão. É cumplicidade com bom marketing. A miséria mantida é a base de recrutamento do mal.
A verdade liberta, diz o versículo no topo desta página. Em 5 de junho, uma pequena verdade será dita em alto e bom som por quem não devia precisar dizê-la no nosso lugar: PCC e CV são terroristas. O resto do ritual, longo, contraditório, cheio de interesses cruzados, fica por nossa conta. Em outubro, no escurinho da urna, 68 milhões de pessoas terão a chance de decidir se querem continuar reféns de um Estado que prende o pensamento e solta o crime, ou se a independência que veio de fora vira, enfim, decisão de dentro.
Leonardo Dias é jornalista, fundador da Arvor, e apresentador do podcast Rádio Café.


