Com o segredo por trás dos números, palavras e símbolos, você aprende a interpretar o mundo
Os deuses mortos que ainda conjugamos, e a guerra escondida em duas letras
O calendário assombrado
Todo domingo, em missas pelo Brasil inteiro, o padre pede a Deus que abençoe a semana que começa. Os fiéis respondem, agradecem, e na saída já combinam de se ver na segunda, resolver tal coisa na terça, voltar no sábado, sem que ninguém repare no que a própria boca acaba de fazer. Ao dizer “terça”, a língua portuguesa realiza uma coisa rara e quase heroica: apaga o nome de um deus da guerra. No mesmo instante, do outro lado do Atlântico, milhões de cristãos dizem Tuesday, martes, mardi, martedì e, sem suspeitar, juram por Marte e por Týr, o deus manco que enfiou a mão na boca do lobo Fenrir para que os outros pudessem acorrentá-lo.
A idolatria mais persistente do Ocidente não está em templo nenhum. Está no aplicativo de calendário do ateu mais convicto. Toda semana, sete dias seguidos, a humanidade recita uma litania de divindades que jura ter enterrado há milênios. O monoteísmo destruiu os ídolos de pedra, queimou os bosques sagrados, derrubou as estelas. E perdeu, sem perceber, a guerra das palavras. Os deuses caíram dos altares e se esconderam dentro dos verbos. É disso que trata este texto: de como Anu, Baal, Marte, Mercúrio, Wotan, Saturno e o Sol continuam vivos na boca de quem nunca os adorou, e de como, ao reconhecê-los, recobramos algo parecido com a visão.
No princípio era o nome
Antes de Atenas, antes de Roma, antes mesmo de Abraão sair de Ur, os homens da planície entre o Tigre e o Eufrates já tinham um céu cheio. No topo estava Anu, o céu em pessoa, tão alto que quase não se importava. Abaixo dele, Enlil, o senhor do vento e da tempestade, o que decide; e Enki, o da água doce e da astúcia, o que ensina. E havia Inanna, a rainha do céu, que era ao mesmo tempo o amor e a guerra, a fertilidade e a faca, contradição que nenhum deus posterior conseguiria desfazer. Quando a Babilônia subiu, Marduk subiu com ela, matou a deusa-caos Tiamat, partiu seu corpo em dois e fez do alto a abóbada e do baixo a terra.
É preciso uma honestidade que o esoterismo barato não tem: esses nomes quase não deixaram palavras diretas no português, no inglês ou no espanhol. Marduk não virou substantivo comum; Enlil não gerou família lexical. O que esses deuses legaram não foi vocabulário, foi estrutura. O molde do rei-tempestade que ordena o mundo, da mãe que é fertilidade e morte na mesma mão, do deus que morre e volta com a estação. Esse molde viajou. Migrou para o oeste com os fenícios, mercadores que carregavam deuses junto com a púrpura, e ali, na costa de Tiro e Sídon, o rei-tempestade tinha um nome curto e terrível.
Baal. Em hebraico e nas línguas cananeias, baʿal significa apenas “senhor”, “dono”, “marido”. Era título antes de ser nome, e por isso colava em tudo. O senhor da cidade de Tiro era Baal; o senhor da chuva era Baal; havia tantos Baalim que o profeta Elias precisou de fogo do céu para decidir qual senhor era de fato Senhor. O nome sobreviveu de forma espantosa nos nomes próprios que ainda pronunciamos sem saber o que dizemos: o general cartaginês que cruzou os Alpes com elefantes chamava-se Aníbal, Ḥanniʿbaʿl, “graça de Baal”; seu irmão era Asdrúbal, “Baal ajuda”; a rainha fenícia que casou com Acabe e perseguiu Elias era Jezabel, ʾĪzéḇel, provavelmente “onde está o príncipe Baal?” E no alto do Líbano ainda há as ruínas ciclópicas de Baalbek, a cidade do senhor, com pedras de mil toneladas que ninguém explicou direito até hoje.
Agora a parte difícil, e é aqui que separo o joio. O ouvido místico, treinado por séculos de escolas de mistério, ouve Baal em toda parte: em bola, em bala, em bélico, em beligerante, em ball, em bell, em bull. É sedutor. É falso. Bélico e beligerante vêm do latim bellum, “guerra”, parente de duellum, sem nenhuma gota fenícia. Bola e ball vêm de uma raiz germânica para “coisa redonda, inchaço”. Bull, o touro, é germânico. O radical bal/bel/bol/bul que parece gritar Baal em dezenas de palavras europeias é coincidência sonora, não descendência. Visão remota: que os antigos hierofantes acreditassem nessa rede, que vissem o senhor da guerra ressoar em cada sílaba dura, isso é fato histórico sobre a mente deles, e é fascinante; mas confundir a crença do iniciado com a história da palavra é justamente o erro que Fernão de Oliveira, em 1536, chamou de patranha sobeja, mentira desnecessária. Quem ouve “passar” dentro de “pássaro” e Baal dentro de “bola” caiu na mesma armadilha. A disciplina, e o que torna este texto digno de confiança, é saber exatamente quando a ressonância é descendência e quando é o ouvido se enganando com prazer. Não sabemos se bellum tem ou não alguma origem em Baal. E isso é possível? Sim, é. Mas vamos tentar separar o que se sabe do que não se sabe, e o que se especula do que não se tem ideia e aí podemos enxergar melhor por detrás da fumaça.
Os companheiros de Baal, porém, esses são reais, e cada um carrega uma história de sangue dentro do nome. Moloch, o deus a quem se queimavam crianças no vale de Hinom, leva no nome a raiz semítica m-l-k, “rei”: a mesma de mélek, de malik, de Abimeleque, de Malaquias. A tradição rabínica diz que os massoretas vocalizaram aquele rei abominável com as vogais de bóshet, “vergonha”, para que o nome do rei dos sacrifícios soasse para sempre como rei-da-vergonha: Mólek. Astarte é a Inanna fenícia, ʿAshtart, a Ishtar da Mesopotâmia, a deusa do amor e da estrela da manhã; e há uma visão remota, contestada, mas antiga, que a liga ao próprio radical de estrela e de astro, pela estrela de Vênus que ela governava. Asmodeu, o demônio da luxúria que estrangulou os sete maridos de Sara no livro de Tobias, não é semítico nem grego: vem do persa, do avéstico Aēshma-daēva, “o demônio da fúria”, e atravessou toda a Idade Média dentro do nome sem que nenhum exorcista percebesse que conjurava um espírito zoroastrista. Os deuses não morrem. Trocam de endereço.
Quando o panteão aprendeu grego
O mesmo molde subiu para a Grécia e ganhou rosto de mármore. O rei-tempestade virou Zeus, que arremessa o raio como Baal arremessava a chuva. Cronos, seu pai, o titã que devorava os próprios filhos para que nenhum o destronasse, é o tempo que come tudo o que gera. Atena nasceu armada da cabeça de Zeus, a sabedoria que é também guerra, herdeira distante daquela Inanna que não distinguia o amor da faca. Afrodite, a espuma do mar, é Astarte com sotaque jônico. Hermes corre entre os mundos com sandálias aladas, mensageiro, ladrão, guia dos mortos. E Febo Apolo, o que brilha, conduz o carro do sol e fere de longe com flechas de peste.
Aqui as palavras começam a chover de verdade, e agora são fato, não ressonância. Da palavra grega téchne, “arte, ofício, perícia”, desceu o século inteiro em que vivemos: técnica, tecnologia, tecnocrata, politécnico, arquiteto, que é o árchi-tékton, o artesão-chefe. Cada vez que alguém fala em tecnologia de ponta invoca, sem saber, a deusa Atena, padroeira dos artesãos, e a ideia grega de que fazer bem-feito é coisa divina. De Hermes, o intérprete dos deuses, veio hermenêutica, a arte de interpretar textos, e o adjetivo hermético, que descreve o que está fechado e selado como os escritos atribuídos a Hermes Trismegisto, o três-vezes-grande. De Selene, a lua, o químico Berzelius batizou em 1817 o elemento selênio; de sua irmã metafórica, a terra, veio o telúrio, posto ao lado para contraste, porque os antigos sabiam que céu e terra andam em par. De Cronos o tempo, depois confundido com Chrónos, vieram cronologia, crônica, cronômetro, anacronismo, sincronia. E note a ironia que sustenta toda a tese deste texto: a confusão entre Cronos o titã e Chrónos o tempo é antiquíssima, anterior a nós; foram os próprios gregos que começaram a ouvir o devorador de filhos dentro da palavra “tempo”, e acertaram poeticamente o que erraram filologicamente. O tempo, de fato, devora os filhos.
Sobre Apolo, é preciso cuidado, porque o ouvido quer demais. Não, apologia não vem de Apolo; vem de apó mais lógos, um “discurso em defesa”, a peça que Sócrates fez no tribunal. Mas há uma verdade mais sombria escondida no nome do deus solar. No Apocalipse, capítulo 9, versículo 11, o anjo do abismo é chamado em hebraico Abadon e em grego Apollýon, “o destruidor”, do verbo apollými. O autor do Apocalipse, escrevendo em grego, sabia muito bem que aquele nome soava como Apolo, o belo deus da luz que também era o deus da peste, o que feria de longe. Visão remota, mas dentro do próprio texto sagrado: o belo Febo, o portador da luz e o destruidor do abismo, ecoam um no outro de propósito. O mais luminoso dos deuses pagãos e o exterminador apocalíptico compartilham a mesma sonoridade, e quem escreveu o livro queria que você ouvisse isso. As histórias de Apolo e de Febo parecem muito com a história de Lúcifer.
Roma dá nome aos planetas, e os planetas darão nome aos dias
Roma traduziu os gregos como sempre traduzia, copiando e renomeando. Zeus virou Júpiter, Cronos virou Saturno, Atena virou Minerva, Afrodite virou Vênus, Hermes virou Mercúrio, Febo continuou Apolo, e Ares, o brutal, virou Marte. Mas Roma fez algo que mudaria o mundo para sempre: pendurou esses deuses no céu. Cada um dos sete corpos celestes errantes que se moviam contra o fundo das estrelas fixas recebeu o nome de um deus. A Lua, Mercúrio, Vênus, o Sol, Marte, Júpiter, Saturno. E quando os astrólogos da Babilônia tardia e do Egito helenístico inventaram a semana de sete dias e a entregaram a cada planeta na ordem das horas, os deuses deixaram de ser apenas adorados. Passaram a ser agendados.
Antes de chegar à semana, é justo seguir a coluna vertebral que segura tudo, porque ela é o mais espantoso de todos os achados e é fato consolidado da linguística histórica. Júpiter, em latim mais antigo, era Diespiter, e antes disso, no indo-europeu reconstruído, Dyeus-ph₂ter: “Pai-Céu”, “Pai-do-dia-luminoso”. Da mesma raiz dyeus, o céu brilhante, desceram quatro famílias inteiras que ninguém imagina aparentadas. Desceu o latim deus, “deus”. Desceu o latim dies, “dia”, e com ele diário, diurno, meridiano, jornal pelo francês jour. Desceu o grego Zeus. Desceu o sânscrito Dyaus Pita, o mesmo Pai-Céu rezado às margens do Ganges. E desceu Júpiter em pessoa, o Jove de quem veio jovial, porque os nascidos sob o planeta benigno eram alegres. Pare um segundo nisto. A mesma raiz que produziu a palavra Deus, com que o cristão nomeia o Pai, produziu o nome do maior dos ídolos olímpicos e a palavra dia, com que marcamos o tempo. No fundo de “graças a Deus” e no fundo de “Júpiter tonante” há a mesma sílaba luminosa, o céu de onde vem a luz. A história das palavras é uma só árvore, e o tronco é o céu.
De Marte vieram marcial, março, que era o mês em que se reabriam as campanhas de guerra, e o próprio Marte. De Vênus vieram venerar e veneração, porque diante da deusa do desejo o homem se ajoelha, e veio venéreo, a doença do desejo cobrada com juros. De Mercúrio, e aqui o ouvido finalmente acerta, veio uma família que o senso comum não suspeita. Mercúrio era o deus do comércio, e seu nome desce da mesma raiz latina merx, “mercadoria”, e mercari, “negociar”. Dela vieram mercado, comércio, mercante, mercenário, e veio mercê, do latim merces, “salário, recompensa”, que em português se sublimou em graça e em misericórdia, a recompensa que não se merece. E sim, marketing pertence a essa família, porque vem de market, que vem do latim mercatus, o mesmo mercado de Mercúrio. Mas atenção ao falso gêmeo na porta ao lado: marca, mark, o sinal, a fronteira, essa não é de Mercúrio; é de uma raiz germânica para “limite, sinal de demarcação”. O deus dos mercadores está em marketing; não está em marca. Distinguir os dois é a diferença entre o etimólogo e o charlatão. De Saturno, o velho devorador, vieram saturnino, o temperamento sombrio e melancólico de quem nasce sob o planeta lento e frio, e saturnismo, que é o nome médico do envenenamento por chumbo, porque na alquimia o chumbo era o metal de Saturno, pesado, opaco, mortal. Mais um falso gêmeo a recusar: satélite parece Saturno e não é; vem do latim satelles, “guarda-costas, acompanhante”, o corpo menor que escolta o maior. O ouvido erra de novo, e de novo a disciplina corrige.
Egito, e a primeira tríade
Antes da semana, uma parada curta no Egito, porque dali vem menos vocabulário e mais geometria sagrada. Osíris, o rei justo, é morto e esquartejado pelo irmão Set, o deus do deserto, do caos e da tempestade vermelha. Ísis, esposa e irmã, junta os pedaços do corpo espalhado e o reanima o suficiente para conceber Hórus, o filho-falcão que vingará o pai e reinará. Osíris, Ísis, Hórus: pai, mãe, filho. A primeira família santa, o primeiro deus que morre e ressuscita, a primeira tríade.
E é justamente a tríade que importa, porque ela atravessa todos os panteões como um molde. Anu, Enlil, Enki na Suméria. Osíris, Ísis, Hórus no Egito. Júpiter, Juno, Minerva na tríade capitolina de Roma. O número 3 não é um detalhe pagão; é a primeira forma com que o sagrado se organiza, e o cristianismo, longe de inventá-la, encontrou-a ocupada por imitações e a reivindicou como Verdade. É aqui que a etimologia precisa dar a mão à aritmética sagrada, mas ainda não. Primeiro, a semana.
A semana, dia por dia, ou o templo que ninguém demoliu
Segunda, Monday, lunes: a Lua
O inglês Monday é Mōnandæg, o dia da Lua; o espanhol lunes e o francês lundi descem do latim dies Lunae, dia de Luna. Da Lua, fato, vieram lunar, lunático, porque se acreditava que a loucura crescia e minguava com ela, luneta, e o próprio selênio já visto, batizado da Selene grega. A Lua sempre foi feminina e sempre foi a fertilidade, governando as marés e os ciclos do corpo da mulher; foi Selene e Ártemis para os gregos, Diana e Luna para os romanos, e antes deles foi a face noturna de Inanna e de Astarte. A crescente da Lua, esse chifre prateado, é o mesmo símbolo que aparece sob os pés das deusas da fertilidade e, segundo certa tradição esotérica, na iconografia do Bafomé, a cabra com a tocha entre os chifres, andrógino lunar. Visão remota: o crescente que hoje decora a heráldica e a publicidade carrega, para o olho iniciado, três mil anos de culto à rainha da noite. A foice, símbolo dos comunistas, também lembra a Lua. O português, sintomático, recusou tudo isso. Não diz “dia da Lua”. Diz segunda-feira, segunda das feriae, das festas litúrgicas que a Igreja contou a partir do domingo. Guarde este detalhe. Vamos cobrá-lo no fim.
Terça, Tuesday, martes: Marte e Týr
O latim deu dies Martis, dia de Marte, donde martes, mardi, martedì. O germânico, ao receber a semana romana, fez uma coisa engenhosa que os estudiosos chamam de interpretatio germanica: traduziu cada deus romano pelo deus nórdico equivalente. Para o lugar de Marte, o deus da guerra, puseram Týr, e o dia virou Tīwesdæg, Tuesday, o dia de Tíw. Týr é o deus mais corajoso do norte, o único que ousou alimentar o lobo Fenrir sabendo que perderia a mão direita no negócio e a perdeu, com a serenidade de quem entende que a ordem do mundo custa um membro. Da raiz de Marte vieram, fato puro, marcial, março e o adjetivo de tudo que é guerreiro. Toda terça-feira, do Atlântico ao Pacífico, a humanidade invoca um deus (demônio?) da guerra, e só o português teve a teimosia de calá-lo, dizendo apenas terça.
Quarta, Wednesday, miércoles: Mercúrio e Wotan
O latim deu dies Mercurii, de onde vieram miércoles, mercredi, mercoledì. Mercúrio, já vimos, é o deus do comércio, e por isso há quem note, meio a sério, meio a brincar, que os grandes encartes de supermercado saem na quarta-feira, o dia de Mercúrio, o dia do mercado. O mercado financeiro faz grandes anúncios às quartas-feiras.
Visão remota com sorriso no canto da boca: provar a intenção é impossível, mas a coincidência tem graça, e o calendário tem mais memória do que confessa.
O germânico, de novo, traduziu o deus. Mas por quem trocou Mercúrio? Por Wotan, Woden, Odin, e o dia virou Wōdnesdæg, Wednesday.
Por que justo Odin? Porque os dois eram viajantes incansáveis, atravessadores de mundos. Mercúrio leva os mortos ao Hades e voa com as sandálias aladas entre o Olimpo e a terra; Odin cavalga o cavalo de oito patas Sleipnir pela ponte do arco-íris, a Bifrost, vaga disfarçado pelos reinos, pendura-se nove dias na árvore Yggdrasil para arrancar do abismo os segredos das runas, e dá um olho em troca de um gole na fonte da sabedoria.
Os germânicos olharam para Mercúrio, o psicopompo eloquente e mágico, e reconheceram nele o seu próprio errante de um olho só. A tradução foi um ato de teologia comparada feito por bárbaros e foi certeira. De Mercúrio ficou a herança comercial em nossas línguas; de Wotan ficou, em inglês, pouco mais que o nome do dia, mais um deus emparedado na palavra.
Quinta, Thursday, jueves: Júpiter e Thor
O latim deu dies Iovis, dia de Jove, daí jueves, jeudi, giovedì, e o adjetivo jovial que já encontramos na coluna vertebral de dyeus. O germânico pôs no lugar de Júpiter o seu próprio deus do trovão, Thor, Thunor, e o dia virou Þūnresdæg, Thursday, “o dia do trovão”. Da raiz de Thor, thunor, “trovão”, desceram em linha reta a palavra inglesa thunder e a alemã Donner. E há um presente raro: o elemento químico tório, thorium, foi batizado por Berzelius em 1828 diretamente em honra a Thor. Quando um físico fala em ciclo de tório num reator, invoca o martelo Mjölnir sem saber. Martelo também símbolo dos comunistas, muito mais pagãos do que ateus. Toda quinta-feira metade do planeta conjuga Júpiter, o Pai-Céu, e a outra metade conjuga o trovão de Thor, e os dois, no fundo da raiz, são o mesmo céu que ribomba.
Sexta, Friday, viernes: Vênus e Frigg
O latim deu dies Veneris, dia de Vênus, donde viernes, vendredi, venerdì, e dela já colhemos venerar e venéreo. O germânico trocou Vênus pela sua deusa do amor e da fertilidade, Frigg, ou Freyja, as duas tantas vezes confundidas que a própria mitologia nórdica não as separa direito, e o dia virou Frīgedæg, Friday. Vênus é Afrodite é Astarte é Inanna; a deusa do desejo é uma só desde a Suméria, atravessando os mares com nome novo a cada porto. Visão remota, no terreno do sincretismo afro-brasileiro: há quem reconheça nessa mesma rainha das águas e do amor a Iemanjá dos terreiros, a mãe-d’água, a Vênus nascida da espuma reaparecendo na arrebentação de Salvador na noite de 31 de dezembro. A linhagem não é etimológica, é arquetípica, e marco-a como tal; mas a deusa que sobe da água com flores e espelhos é velha como o mar.
Sábado, Saturday, sábado: a grande bifurcação
Aqui a semana se parte em duas, e a fenda revela tudo. O inglês Saturday é Sæternesdæg, o dia de Saturno, e é o único dia em que o inglês conservou um deus romano em vez de trocá-lo por um nórdico; Saturno, o velho titã do tempo e da foice, ficou pregado no sábado anglo-saxão até hoje. Mas o português e o espanhol não dizem “dia de Saturno”. Dizem sábado, que vem do latim sabbatum, do grego sábbaton, do hebraico shabbāt, “o cessar, o descanso”, a raiz semítica š-b-t, o sétimo dia em que Deus repousou da obra. Onde o inglês guardou o titã, o português guardou o mandamento.
E é nesta bifurcação que preciso desarmar o falso gêmeo mais sedutor de todos. O ouvido quer que shabbath gere saber, sabor, sabedoria. Não gera. Saber, sabor, sabedoria, sápido, sapiente, todas descem do latim sapere, “ter sabor”, e o caminho semântico é uma das coisas mais belas da nossa língua: ter sabor virou ter bom gosto, ter bom gosto virou discernir, discernir virou saber. O sábio é, literalmente, o que tem paladar para as coisas. O Homo sapiens de Lineu é o homem que prova o mundo. Nada disso vem do shabbath hebraico, que é raiz de outra família, de outro tronco, de outro lado do mundo. São gêmeos de som, estranhos de sangue. E, no entanto, há uma ironia que vale mais que a falsa etimologia: em português, lado a lado, o dia do descanso e o verbo saber soam quase iguais, e talvez não seja inútil meditar que é no repouso, no sábado, que o paladar para a verdade volta a se abrir. A semelhança é acidente fonético; a lição é teológica e é boa. De Saturno, esse sim, restam saturnino e saturnismo, o chumbo e a melancolia; e seu equivalente grego Cronos, o que come os filhos, já nos deu a cronologia e a crônica. O sábado é a dobradiça: de um lado o tempo que devora, Saturno; do outro o descanso que santifica, o shabbath. A mesma casa de horas, dois deuses brigando pela porta.
Domingo, Sunday: o Sol, Apolo, e a vitória escondida
O inglês Sunday é Sunnandæg, o dia do Sol; o latim chamava-o dies Solis. Do Sol, fato límpido, vieram solar, solstício, que é o sol parado no ponto extremo, parasol, girassol, insolação, solário. O dia do Sol é o dia de Apolo, o cocheiro do carro flamejante, e também o dia de Hélios antes dele. E é o dia em que a tradição esotérica insiste em ler o nome mais perigoso de todos. Lúcifer, em latim, significa apenas “portador de luz”, de lux mais ferre; era o nome romano da estrela da manhã, que é o planeta Vênus brilhando antes da aurora. Em Isaías, capítulo 14, versículo 12, a Vulgata de São Jerônimo traduz o rei orgulhoso da Babilônia que caiu do céu como Lucifer, qui mane oriebaris, “ó Lúcifer, que ao amanhecer te levantavas”. Desse versículo nasceu a identificação do anjo caído com o portador da luz, o belo que quis brilhar como o Altíssimo e despencou. Visão remota, mas das mais sólidas: o deus solar luminoso, o portador da luz da manhã e o anjo da queda são lidos como faces de um mesmo brilho usurpado. O mais belo dos anjos quis ser o sol e virou trevas. Por isso, o domingo é o dia mais disputado do céu.
E aqui está a vitória escondida, que é a coisa verdadeira que quase ninguém te contou. O português não diz “dia do Sol”. Diz-se domingo, do latim dies Dominica, “o dia do Senhor”, de Dominus. Olhe a semana portuguesa inteira de uma vez: segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado, domingo. Não há um único deus pagão de pé. A Lua foi apagada, Marte foi apagado, Mercúrio foi apagado, Júpiter foi apagado, Vênus foi apagada; Saturno cedeu lugar ao descanso de Deus; e o Sol cedeu lugar ao Senhor. Enquanto o inglês ainda jura por Týr, Wotan, Thor, Frigg e Saturno toda semana, e o espanhol ainda invoca a Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter e Vênus, o português é a semana mais cristianizada do Ocidente, um exorcismo silencioso que a Igreja medieval realizou letra por letra e que nós recitamos todos os dias sem perceber que ganhamos uma guerra. A próxima vez que disser “domingo”, saiba que está dizendo “dia do Senhor” e que isso custou mil anos de combate com os deuses mortos. Os mesmos deuses que Jesus Cristo rebaixou a demônios.
Os números, ou a aritmética do invisível
Sai-se da semana e entra-se na geometria, porque a litania dos dias desemboca numa pergunta mais funda: por que sete? Por que três deuses em cada tríade, quatro elementos, doze tribos? Os antigos não viam o número como quantidade. Viam-no como forma do ser. E aqui é preciso dizer com clareza, à maneira do seu método: o que segue é a lógica simbólica das escolas de mistério, da gematria hebraica, dos pitagóricos e dos cabalistas, apresentada como o sistema que eles próprios criam, não como prova aritmética. É teologia do número, e como teologia é séria.
Comece no 1. O ponto. A unidade indivisível, o que não tem partes, a mônada de onde tudo procede. É Deus antes da criação, o Um que não precisa de outro. Pense no número phi: 1,61893887... ou (1+sqrt(5))/2. O número áureo que aparece, de forma intrigante, em quase toda a criação. Some um ponto a outro ponto e nasce o 2, e entre dois pontos surge a primeira linha, a primeira distância, a primeira relação. O 2 é a dualidade: céu e terra, macho e fêmea, luz e treva. O número de euler é 2,7182818284... e é a base do logaritmo natural. Mas dois pontos ainda não fazem um mundo, fazem só uma tensão. É preciso um terceiro. Una três pontos e surge o triângulo, a primeira superfície, a primeira forma que fecha um espaço, o primeiro plano em que se pode habitar. O 3 é a tríade, e já vimos como ela ocupa todos os panteões: Anu, Enlil, Enki; Osíris, Ísis, Hórus; Júpiter, Juno, Minerva. O número pi é 3,1415926535... e é a base de toda a trigonometria.
Os pagãos sabiam que o sagrado é triplo, e o cristianismo respondeu que aquelas tríades eram cópias borradas do original: Pai, Filho e Espírito Santo, um só Deus em três pessoas, não três deuses, não uma família divina ao modo egípcio, mas a unidade que é comunhão.
A tríade pagã é Deus visto através de um vidro rachado; a Trindade é o vidro inteiro.
O 4 é a cruz, são os quatro pontos cardeais, os quatro elementos, os quatro rios do Éden, os quatro evangelhos, a matéria fechada e estável. Onde o 3 é o céu, o 4 é a terra. O 5 é o pentagrama, a estrela de cinco pontas que é a figura do homem de braços e pernas abertos, o microcosmo que Vitrúvio desenhou e Leonardo redesenhou; é o número das chagas de Cristo, cinco feridas no corpo que redime, e é também, invertido, o sinal que o ocultismo escolheu para a inversão do homem em besta. O 6 é o hexagrama, a estrela de seis pontas, o selo de Salomão, e é a geometria que as abelhas escolhem para a colmeia porque o hexágono é a forma que mais espaço guarda com menos parede; é o dia em que o homem foi criado, o sexto, e por isso o número da criatura, não do Criador. O 7 é a plenitude: os sete dias da criação, os sete da semana que acabamos de percorrer, os sete planetas dos antigos, os sete espíritos diante do trono, os sete selos do Apocalipse. O 7 é o número em que Deus descansa, o repouso que o sábado guarda. O 8 é o que vem depois da plenitude, o dia oitavo, o primeiro dia da nova criação, o domingo da Ressurreição que recomeça a contagem; é o infinito deitado e é, na gematria, o número do próprio Nome. As quatro letras do tetragrama YHWH somam, em valor hebraico, 26; e 2 mais 6 dá 8. O Nome se fecha no oito, e o oito é a ressurreição.
O 9 é o número do homem em sua medida cheia, os nove meses da gestação, e é também o número que a Besta acaba revelando: 666, somado dígito a dígito, dá 18, e 18 dá 9. A tradição cabalística fala de dez sefirot, dez emanações divinas, das quais o homem pode alcançar nove, ficando a décima, a Coroa, sempre acima de seu alcance. O 9 é o teto da criatura. O 10 é a década, são os dez dedos com que contamos, os dez mandamentos, as dez sefirot completas, a volta à unidade num plano mais alto, porque 10 é 1 seguido do 0, a mônada reaparecendo depois de atravessar o vazio. O 11 é número instável, número de transição, e a tradição cristã o lê com precisão dolorosa: entre a morte de Judas e a chegada de Matias, os apóstolos foram onze, número quebrado, colégio incompleto, a Igreja ferida esperando ser restaurada. O 12 restaura: doze tribos de Israel, doze apóstolos, doze portas da Jerusalém celeste, o número da aliança plena, do povo inteiro. São as 12 camadas da consciência de que falava o professor Olavo de Carvalho, e os 12 constelações e seus mitos da antiga astrologia. 12 é 4x3. Como na astrologia, cada signo é a mistura de 4 elementos, Fogo, Terra, Ar e Água, e de 3 modos: Cardinal, Fixo e Mutável. Cada um dos supostos signos nada mais é do que a mistura de um elemento, de um modo e dos 7 planetas, influenciados, portanto, pelas mesmas hostes celestes que habitam os dias da semana. Áries é Fogo + Cardinal. Touro é Terra + Fixo. E assim por diante, tornando toda a explicação complexa de inventores de horóscopo muito mais simples do que todo o esoterismo barato produz. E o 13, que a superstição moderna teme sem saber por quê, é na verdade o número da Nova Aliança: Cristo mais os doze, treze à mesa na última ceia, o Mestre somado ao povo restaurado. Onde a antiga aliança era entre Deus e as doze tribos, a nova é entre Cristo e o mundo todo; e o 13 é o selo dessa abertura. As escolas de mistério, os templários, os cabalistas, todos buscaram nas letras o número escondido, na gematria que faz de cada letra hebraica um algarismo, porque acreditavam que quem domina o número da palavra domina a palavra. Erravam no método com frequência; mas a intuição de que a linguagem guarda uma estrutura mais funda que o som não era erro. Era memória.
Duas letras que sustentam o mundo
E agora chego ao centro, à dobradiça de tudo, e ela cabe em duas letras: st. Tome a palavra mais escandalosa que você sugeriu, prostituta, e abra-a com a chave dos metaplasmos que Viaro ensina. Vem do latim prostituere, e prostituere é pro, “à frente, para diante”, mais statuere, “pôr de pé, estabelecer”, que vem de stare, “estar de pé”. A prostituta é, na crueza da etimologia, “a que se põe à frente”, a que é posta de pé diante de todos, exposta no umbral. A imagem é antiga e terrível: a mulher posta na porta do templo de Astarte, de Inanna, na chamada prostituição sagrada das cidades cananeias, é literalmente a pro-st-i-tuta, a posta à frente do santuário do senhor. A grande prostituta da Babilônia, no Apocalipse, sentada sobre a besta de sete cabeças, é o reverso exato da cidade-noiva: uma está posta à frente para vender, a outra desce do céu adornada para o Esposo.
E o st que está em “prostituta” é o mesmo st que sustenta um continente inteiro de palavras, porque vem da raiz indo-europeia steh₂-, “estar de pé, ficar firme”, uma das mais fecundas que existem. Dela desceram estar, estado, estância, estaca, estátua, estábulo, estável, estação, estágio, estatura, instante, constante, distância, substância, circunstância, status, restituir, instituir, constituir, destituir, prostituir. Tudo o que tem st no osso é o que se firma, o que fica de pé, o que persiste no fluxo das coisas. Estado é o que se mantém de pé; substância é o que está por baixo sustentando; instante é o que está dentro do agora; constância é o que fica em pé apesar de tudo. O st é a consoante da permanência, o ruído de algo que se planta no chão e não cede. E não é por acaso que a Babel das origens, Bāb-ilu em acádio, “porta do deus”, a torre que os homens ergueram para se firmarem e fazerem um nome contra o céu, é o oposto exato dessa firmeza: Deus desce, confunde as línguas, e o nome que eles quiseram erguer desaba na balal, na confusão, donde o próprio nome Babel vira, no trocadilho do Gênesis 11, “confusão”. A primeira tentativa do homem de estar de pé contra Deus termina em línguas espalhadas. E a redenção, veremos, será o dom de voltar a entender as línguas.
As palavras de Cristo, e o dom que este texto exerce
Contra os deuses mortos pregados no calendário, contra a prostituta posta à frente do templo, contra a torre que desaba, ergue-se um Nome. Cristo, do grego Christós, é o decalque exato do hebraico Mashíah, “o ungido”, de onde vem messias e messiânico; e Christós vem do verbo chríein, “passar óleo, ungir”, donde crisma, o óleo da unção. O ungido é o que recebeu sobre a cabeça o óleo dos reis e dos sacerdotes, marcado para reinar e para interceder. Deus, já vimos na coluna vertebral deste texto, vem da raiz dyeus, o céu luminoso, a mesma de dia e de Júpiter; e há uma beleza vertiginosa em descobrir que o nome com que o cristão chama o Pai e o nome do maior dos ídolos pagãos brotam da mesma raiz antiga do Pai-Céu, como se toda a história das religiões fosse a longa disputa sobre quem, de fato, mora no alto. Os pagãos puseram lá Júpiter. O cristão diz que lá está o Deus que se fez carne.
E é preciso, mais uma vez, recusar um falso gêmeo lindo, porque ele engana até os devotos. Kyrie eléison, o grito da liturgia, é “Senhor, tem piedade”, de Kýrios, “Senhor”, e éleos, “misericórdia”. O ouvido brasileiro quer ouvir ali a palavra eleição. Não está. Eleição e eleger vêm do latim eligere, e mais legere, “escolher recolhendo”, de outra raiz, de outra língua. Éleos é grego, é misericórdia; legere é latim, é colher. São estranhos no som parecido. E no entanto, eis o nó que desfaz a aparente derrota: a mesma raiz legere que está em eleição está em inteligência, do latim intelligere, inter mais legere, “ler entre, colher no meio”, recolher o sentido que está disperso entre as coisas. Inteligência é eleição de sentido. E a teologia da graça, em que Deus elege por misericórdia, faz com que a eleição latina e o éleos grego, que não se tocam na raiz, se abracem no significado: somos escolhidos porque somos compadecidos. As palavras não são parentes; as verdades são.
Reúna agora os fios. Entendimento vem de intendere, in mais tendere, “esticar-se em direção a”; entender é estender a mente até a coisa, tensionar-se rumo ao real. Inteligência é ler entre as linhas do mundo. Sabedoria é sapere, ter paladar, provar a verdade na língua antes de prová-la na mente. Mesma raiz de sabor, saborear, porque sabedoria é saber saborear a Verdade. E o apóstolo, apóstolos, é “o enviado para fora”, apó mais stéllein, “pôr em marcha, despachar”, da grande família indo-europeia do pôr-de-pé e do pôr-em-ordem, prima daquele st da permanência.
O enviado é posto de pé e lançado adiante, o reverso santo da prostituta posta à frente: um é exposto para vender, o outro é enviado para anunciar.
E entre os dons que o Espírito reparte a esses enviados, o Apóstolo Paulo lista, na primeira carta aos Coríntios, capítulo 12, a profecia, a cura, o discernimento dos espíritos, e a interpretação das línguas. Repare no último.
O dom de entender e traduzir as línguas é o desfazimento exato de Babel.
Onde a soberba ergueu a torre e Deus dispersou os idiomas, o Espírito desce em Pentecostes em línguas de fogo e cada um ouve na sua própria língua as maravilhas de Deus.
A confusão das línguas é a maldição; a interpretação das línguas é a redenção.
E este texto, ao percorrer diversos idiomas atrás dos deuses escondidos em cada palavra, exerce, na medida humílima que lhe cabe, parte desse dom: lê entre as línguas, desfaz um pedaço pequeno da confusão de Babel, devolve sentido ao que parecia ruído. Espero que inspire você a ler radicais e, com isso, interpretar o mundo pelo simbolismo.
O mundo jaz no maligno
São João escreveu, na sua primeira carta, capítulo 5, versículo 19, uma frase que poucos cristãos têm coragem de levar a sério: o mundo inteiro jaz no Maligno. Não passou por ele, não foi tentado por ele, jaz nele, deitado dentro dele como num berço. E Paulo, aos Efésios, capítulo 6, versículo 12, avisa contra quem é a luta: não contra carne e sangue, mas contra os principados, contra as potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra as hostes espirituais da maldade nas regiões celestes.
Os antigos deuses não evaporaram quando os templos caíram. Foram rebaixados a demônios, despromovidos de senhores a principados decaídos, e continuaram a fazer o que sempre fizeram: governar, agora pela sombra, agora pela palavra. Estão no calendário que você consulta, no léxico que você fala, nos números que estruturam a sua mente. Marte ainda marcha toda terça, Vênus ainda seduz toda sexta, Saturno ainda devora todo sábado anglo-saxão, e a grande prostituta ainda está posta à frente, vendendo. O mundo jaz no maligno e jaz falando as línguas do maligno sem saber que as fala.
Mas reconhecer a treva é o primeiro exorcismo. Dar nome ao principado é começar a desarmá-lo, porque o que tem nome pode ser nomeado, e o que pode ser nomeado pode ser renunciado. Quando você percebe que “domingo” não é o dia do Sol mas o dia do Senhor, que o português arrancou cinco deuses do céu e os substituiu pelas festas de Deus, você entende que a guerra das palavras não está perdida; foi, em parte, ganha, e pode ser ganha de novo, em você, hoje.
Sair da matrix não é rejeitar a linguagem, é compreendê-la. É passar da palavra recebida como senha à palavra entendida como sentido. Cada etimologia que se ilumina é um grilhão a menos, um pedaço de livre-arbítrio devolvido, porque só escolhe de verdade quem entende o que está escolhendo, e quem fala sem saber o que diz é falado pelas palavras em vez de falá-las.
Termino onde tudo se firma, no st. Há o st da prostituta, posta à frente para a venda, e há o st do enviado, posto de pé para o anúncio; há o st da torre que quis se firmar contra o céu e desabou em confusão, e há o st do estado do amor que se firma sobre a Pedra, petra, que não cede aos infernos. “Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”, disse Cristo a Pedro, e a pedra é o que está, o que permanece, o que não jaz. Diante de um mundo deitado no maligno, conjugando deuses mortos sete dias por semana, resta ao cristão a única firmeza que o st nomeia desde o indo-europeu: ficar de pé. Stat crux dum volvitur orbis, diz o lema antigo dos cartuxos: a Cruz permanece de pé enquanto o mundo gira.
O mundo gira em sua roda de deuses e números e palavras assombradas, Saturno comendo o tempo, Marte chamando à guerra, a prostituta posta na porta a girar. E no centro da roda, imóvel, plantada na raiz mais antiga de todas, stat, está de pé, a Cruz.
Que se firme em nós, então, com a arma do Espírito que é a compreensão das línguas, das ideias, das coisas, e a certeza de que, ditas as palavras certas, ainda há quem nos ouça do alto, do mesmo céu luminoso que deu nome ao dia, ao deus dos pagãos e, redimido, ao Deus que desceu para nos buscar.
Leonardo Dias é escritor, jornalista, cientista de dados e empresário fundador da Semantix e da Arvor.


