COMO FURAR BOLHAS EM ÉPOCA DE CENSURA ALGORÍTMICA NA RECOMENDAÇÃO DE POSTS: VERDADE QUE DEVE SER DITA
Bolo de fubá na página três significava que alguém tinha escrito a verdade naquela manhã
Entre 1972 e 1975, com os censores do Médici sentados dentro da redação para cortar matéria antes da rodagem, os Mesquita tomaram uma decisão que ficou. No lugar do texto vetado, o Estado de S. Paulo imprimia versos de Os Lusíadas. No Jornal da Tarde, da mesma casa, entravam receitas de bolo e notas de jardinagem. O leitor abria o jornal, via Camões onde devia estar o editorial, e entendia tudo sem que uma palavra precisasse ser dita. Nenhum censor jamais conseguiu proibir a farinha.
Mostrei no post anterior, linha por linha, o que o novo filtro eleitoral do X faz. Quem não leu, leia, está tudo aberto no GitHub e a discussão sobre o que a plataforma faz está encerrada. Aqui preciso de uma linha só daquele arquivo, porque é dela que sai tudo o que vem a seguir:
&& !followed_user_ids.contains(&user_id)
Quem você já segue continua aparecendo. O filtro só desliga o empurrão que você não pediu.
É essa negação, esse ! de dois pixels, a nossa receita de bolo. E ela é melhor que a de 1973 por um motivo humilhante para a censura contemporânea: o censor do Médici era um homem, e homens desconfiam, se irritam, ligam para o superior, aprendem Camões. O censor de agora é uma condicional. Ele conhece user_id e mais nada. Não lê ironia, não lê contexto, não lê você.
Segue a receita.
Primeiro: siga
Um clique. Não é adesão, não é militância, não é assinar manifesto de fim de semana. É a única operação manual que a norma deixou intacta, e foi deixada intacta pela própria regra que se pretende restritiva.
Siga os candidatos que você quer ler. Siga também os que você quer vigiar, porque acompanhar só o próprio lado não é convicção, é preguiça com uniforme. Cada “seguir” é um pedaço de feed devolvido à sua vontade e subtraído da vontade da máquina. Faça isso hoje, antes que a campanha esquente e você precise procurar candidato pelo nome no buscador como quem procura CEP.
Segundo: pare de repostar
Repost herda a contaminação. Quote herda a contaminação. Você aperta o botão achando que amplificou e acabou de assinar o atestado de óbito do próprio post, que sai da recomendação junto com o original. O gesto mais confortável da internet virou, da noite para o dia, o mais inútil.
Escreva o seu. Com as suas palavras, no seu teclado, com o seu erro de vírgula. Diga a mesma coisa, se é isso que você pensa, mas diga em prosa própria. O filtro persegue autoria e referência. Ideia não tem user_id. Argumento não consta de lista nenhuma do TSE.
E aqui está a ironia que a norma não previu. Ao desligar o empurrão institucional, ela transferiu a campanha inteira para a única coisa que regulador algum consegue indexar, que é a cabeça das pessoas. Legislou-se para conter político e acabou-se legislando para promover escritor.
Terceiro: seja bom
Não bonzinho. Bom.
O mesmo release que trouxe o filtro trouxe os pesos do ranqueamento, e eles estão publicados em números inteiros. Resposta vale entre 5 e 20 pontos. Curtida vale meio ponto. Denúncia tira 234. Conta pequena recebe empurrão de compensação, post repetido apanha. Leia de novo e entenda o que a plataforma acabou de confessar: a única moeda que sobrou é conteúdo que faça um sujeito parar de rolar a tela e responder.
Então faça o corte com a legenda legível e o trecho certo, não os quarenta minutos inteiros que ninguém assiste. Transcreva o discurso e destaque a frase que passou batida. Pegue a planilha, monte o gráfico, ponha a fonte e a data embaixo. Use inteligência artificial para o trabalho pesado, transcrever, cortar, diagramar, traduzir, achar o documento primário, e não para inventar o que não aconteceu. O TSE apertou também o cerco à propaganda sintética neste ciclo, com rotulagem obrigatória e vedações específicas perto da votação, mas o argumento decisivo nem é jurídico. Deepfake é burrice tática. Entrega ao adversário, de graça, a única acusação que ele sabe fazer.
A conta da amplificação automática acabou. Ficou a conta do talento. Para quem tem, é a melhor notícia do ano.
Quarto: sonhe
Porque manual sem finalidade é manual de eletrodoméstico, e ninguém escreve a três meses de uma eleição para ensinar botão.
Olhe o país com números, não com adjetivos. O Focus desta segunda-feira, 17 de agosto, projeta IPCA de 5,02% para 2026, acima do teto da meta, e PIB de 1,98%, crescimento que só serve para nota de rodapé. O desemprego do IBGE está em 6,1%, único dado que a defesa do governo levanta, sempre sem mencionar quanto se ganha nesses empregos. A Serasa contou, em junho, 83,7 milhões de brasileiros inadimplentes, cada um com cerca de quatro dívidas e R$ 6.920,63 pendurados no CPF. Do lado das empresas, 9,1 milhões de CNPJs negativados e R$ 232,9 bilhões em dívida, quase tudo micro e pequena. Juro alto, crédito caro, dívida bruta rondando 79% do PIB.
Não é crise de manchete. É um país trabalhando o ano inteiro para pagar juro e imposto, e chamando isso de resiliência.
Agora sonhe comigo, e digo com todas as letras que o que vem abaixo é sonho, não previsão, não pesquisa, não profecia. Sonhar é lícito. Vender sonho como fato é que não.
Imagine o Brasil em 1º de janeiro de 2027. Imagine um presidente Flávio assinando, na primeira semana, a extinção de ministérios que existem para empregar apadrinhado. Imagine estatal deficitária tratada como o que é, patrimônio do contribuinte, e não fazenda de partido. Imagine o Banco Central podendo baixar juro porque o gasto parou de correr na frente da inflação, e não porque alguém gritou com o presidente do BC na tribuna. Imagine ONG que recebe dinheiro estrangeiro para atrapalhar a produção nacional tendo de explicar, item por item, quem paga a conta. Imagine PCC e Comando Vermelho tratados como organizações terroristas transnacionais, com a cooperação internacional que isso destrava, e não como jovens em situação de vulnerabilidade. Imagine um sujeito de trinta e cinco anos, dois filhos e uma prestação, sobrando dinheiro no fim do mês pela primeira vez na vida adulta.
Nada disso vem de decreto. Vem de voto. E o voto, este ano, vem de conteúdo, porque a esteira que empurrava sozinha acabou de ser desligada.
Então crie para esse Brasil. Não faça post de ódio, faça post de projeto. O eleitor que você precisa alcançar não é o que já concorda, esse já segue, já está convertido, já está no grupo gritando às seis da manhã. É o sujeito cansado, desconfiado de todo mundo, que trabalha demais e só para na tela quando encontra alguma coisa bem-feita. Bem-feita no sentido em que um marceneiro usa a palavra.
O bolo serve nas outras cozinhas
Tudo o que está aqui saiu do código do X, porque só o X publicou o código. Mas a resolução do TSE não foi escrita para o X. Ela fala em provedores de aplicação que utilizem sistema de recomendação, e isso alcança Meta e TikTok na mesma medida.
A diferença entre eles não é que o X censura mais. É que o X mostra. Instagram, Facebook e TikTok cumprem obrigações equivalentes com o código fechado, e você jamais saberá em que linha, com que peso, sob que critério. Inferência minha, apoiada na semelhança das obrigações e na arquitetura padrão desses sistemas: siga por lá também, escreva original por lá também, pare de repostar por lá também. Se a Meta um dia abrir o dela, conversamos. Não prenda a respiração.
Uma observação sobre este texto
O leitor atento já reparou que não marquei ninguém. Nenhum arroba de candidato, nenhuma menção, nenhum quote de campanha. Não foi esquecimento e não foi covardia. Foi a receita aplicada a si mesma, porque texto que ensina a furar bolha e morre dentro da própria bolha é piada sem graça.
Você sabe de quem estou falando. O compilador não sabe.
Cinquenta e três anos separam o bolo de fubá do !. Nesse intervalo a censura ficou mais barata, mais rápida, mais educada e infinitamente mais burra. Ela lê identificador numérico.
Escreva.


