Jeffrey Epstein e a Ciência Proibida: Bebês Projetados, Clonagem, Controle Neural e a Busca pela Imortalidade
Uma investigação sobre como o maior predador sexual do século financiou a reengenharia da espécie humana, com a cumplicidade de Harvard, do MIT, de pelo menos vinte cientistas e de um bilionário
Prólogo: A chamada das 14h
No dia 2 de agosto de 2018, Lesley Groff, assistente executiva de Jeffrey Epstein, enviou dois lembretes urgentes ao patrão. A chamada estava marcada numa sala virtual chamada appear.in/taxmastergenetics. O nome não era casual: “tax master genetics” combinava evasão fiscal com engenharia genética, numa síntese involuntariamente perfeita do que se discutiria naquela tarde. A resposta de Epstein foi lacônica: “im late in landing” (EFTA00478987).
Do outro lado da linha esperava Bryan Bishop, programador do Bitcoin Core, biohacker de Austin, Texas, e ex-diretor assistente de pesquisa da Humanity+, a organização mundial transhumanista. O assunto? Uma planilha de custos para a criação dos primeiros bebês humanos geneticamente projetados da história. E, possivelmente, do primeiro clone.
Epstein estava atrasado porque seu jato particular ainda não pousara. A humanidade, pode-se dizer, estava atrasada por um motivo diferente: ninguém a informara de que o seu futuro genético estava sendo negociado entre um pedófilo condenado e um biohacker, por videoconferência, numa sala cujo nome parecia piada de mau gosto.
Este artigo reconstitui a rede científica mais perturbadora já documentada: vinte cientistas de ponta, três prêmios Nobel, centenas de milhões de dólares, um rancho no Novo México, trinta kits de DNA sob nome falso, uma proposta de clonagem humana, um estudo sobre vírus que aumentam o desejo sexual, um relatório sobre neurotecnologia como arma e a pergunta que nenhuma autoridade quis responder. Cada citação entre aspas provém de documentos primários identificados pelo código EFTA, disponíveis no acervo de 384.890 arquivos liberados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos.
1. O biohacker e o pedófilo
A apresentação entre Bishop e Epstein foi obra de Austin Hill, veterano canadense da criptografia, cofundador da Zero-Knowledge Systems e primeiro presidente executivo da Blockstream. Hill visitara Epstein na ilha particular de Little St. James em abril de 2014 e investira o capital do pedófilo na rodada inicial da Blockstream. Quando Hill conectou Bishop a Epstein em julho de 2018, ofereceu algo que só um cypherpunk de carreira poderia prometer: “Snowden’s escape to Russia level countersurveillance” (EFTA02600038). Contravigilância de nível estatal para proteger um projeto de nível civilizacional. [CONFIRMADO]
A primeira chamada ocorreu em 20 de julho, na sala appear.in/internetmagicalmoney. No dia seguinte, Bishop enviou sua proposta formal. O trecho central merece reprodução integral:
> “The other deliverable is similar and shares so many of the same procedures and lab requirements. This might offer a sufficient level of deniability.” (EFTA01004795)
O “outro entregável” jamais foi nomeado nos documentos. A hipótese mais consistente, dados os “procedimentos e requisitos de laboratório” compartilhados com a fertilização in vitro, é a clonagem humana. Epstein respondeu com a frase que define toda a negociação: “I have no issue with investing the problem is only if i am seen to lead” (”Não tenho problema em investir, o problema é só se me virem no comando”). [CONFIRMADO]
No dia 22 de julho, Bishop abordou o dilema do anonimato para as crianças que seriam criadas: “Absolute anonymity... for these kinds of products... it would brand the child as a freak for life” (”Anonimato absoluto... para esses tipos de produtos... marcaria a criança como aberração para o resto da vida”, EFTA01004839). A palavra “produtos” é dele, não nossa. Epstein, imperturbável, respondeu com um sorriso digital: “i cant program but iam not bad at structuring :)” [CONFIRMADO]
O ápice veio em 5 de agosto de 2018. Bishop escreveu:
> “The ‘use of funds’ spreadsheet for the designer baby and human cloning company... first live birth of a human designer baby, and possibly a human clone, within 5 years... ~$9.5m to fund 5 years, $6m for 3 years... the world will never be the same again, much less the future of the human species.” (EFTA01003966)
A resposta de Epstein, duas palavras: “No rush.” Sem pressa. Como quem encomenda um sofá sob medida e espera a entrega quando a loja puder. Só que o produto era um ser humano. [CONFIRMADO]
Quando Epstein expressou preocupação com a jurisdição americana, “cant do anything where US rules apply” (EFTA01019549), Bishop ofereceu a solução: “We can do R&D in the US... self-experimentation is not explicitly banned... sell the additive DNA to those overseas clinics. Many ways to structure.” (EFTA01019439). Pesquisa nos Estados Unidos, aplicação fora dos Estados Unidos, produto vendido como “aditivo genético”. A mesma arquitetura que laboratórios de doping utilizam para driblar o controle antidoping, agora aplicada à espécie humana. [CONFIRMADO]
Em novembro de 2018, Bishop revelou que já havia um laboratório no exterior produzindo resultados: “our overseas lab has reported some mouse testis transfection results... 5% transfection efficiency” (EFTA01015526). Não era mais apresentação em PowerPoint. Camundongos estavam sendo modificados geneticamente em algum lugar do mundo, sob a direção de um homem que propunha fazer o mesmo com seres humanos, financiado por um pedófilo condenado. [CONFIRMADO]
A técnica escolhida era a complementação tetraplóide: “tetraploid complementation... This is a method we are interested in using” (EFTA00804855). Em camundongos, funciona. Em humanos, nunca foi tentada publicamente. A equipe de Bishop pretendia ser a primeira.
Bishop declarou publicamente que nunca recebeu financiamento de Epstein. A afirmação pode ser tecnicamente verdadeira. Mas a distância entre “negociamos por meses a criação de clones humanos com um pedófilo condenado, porém não assinamos o cheque” e “nunca tivemos relação com Epstein” é a distância entre a boa-fé e o cinismo.
Mais revelador ainda: o projeto não morreu com Epstein. O wiki pessoal de Bishop, diyhpl.us, hospeda até hoje um FAQ completo sobre designer babies (arquivo permanente), que declara ter sido “originally made for the Heritage Molecular website” — Heritage Molecular era o nome da empresa de bebês projetados que Bishop planejava fundar. No FAQ, Bishop batiza seu método de “VelociHomo”, derivado da técnica Velocimouse usada em camundongos, e responde à pergunta “Isn’t this eugenics?” com um sonoro “No”, redefinindo eugenia como “restrição governamental da liberdade reprodutiva” — invertendo o significado histórico do termo com a destreza retórica de quem sabe exatamente o que está fazendo. O mesmo site abriga o maior catálogo de modificações genéticas humanas da internet: 6.863 linhas de edições propostas, organizadas por categoria — resistência a radiação, proteção contra Alzheimer, eliminação de odor corporal, resistência a vírus, aprimoramento cognitivo, extensão de longevidade (arquivo permanente). E abriga também uma plataforma tecnológica completa (https://diyhpl.us/wiki/germline-genetic-engineering-technology/) que descreve, passo a passo, como editar centenas de genes num embrião humano usando a técnica de complementação tetraplóide. Bishop não propunha teoria. Propunha engenharia. E a engenharia continua online, aberta, esperando financiamento. Em 2025, Bishop apresentou uma conferência com vídeo e transcrição sobre os projetos de engenharia de embriões humanos, disponível no mesmo wiki. O projeto de Epstein não morreu. Apenas mudou de endereço. [CONFIRMADO]
O ecossistema que unia Bishop a Epstein não era acidental. Era o cruzamento entre dois mundos que compartilhavam uma premissa fundamental: sistemas centralizados de poder, sejam governos, sejam reguladores, sejam comitês de ética, são obstáculos a serem contornados, não limites a serem respeitados. Os cypherpunks criaram dinheiro que nenhum governo controla. Os biohackers queriam criar genes que nenhum governo regula. Epstein era o financiador que garantia que ambos os projetos avançassem em paralelo. A sala appear.in/internetmagicalmoney sintetiza essa convergência com uma precisão que nenhum sociólogo inventaria: dinheiro mágico da internet para financiar a reengenharia da espécie.
Hoje, Bishop é diretor de tecnologia de um banco.
2. A rede dos vinte cientistas
Se Bishop era o engenheiro do projeto mais radical, a rede que o sustentava era muito maior e muito mais antiga. Epstein não começou financiando clonagem humana. Começou financiando pesquisa convencional em universidades convencionais, construindo credibilidade e vínculos ao longo de mais de uma década, até que a rede estivesse madura o suficiente para abrigar propostas que, em qualquer outro contexto, seriam rejeitadas como loucura. A análise do grafo de relações entre os documentos de Epstein, cruzando 1,3 milhão de nós e 5,5 milhões de conexões, revelou algo estatisticamente improvável: os dez principais cientistas financiados por Epstein formam um grafo totalmente conectado. Cada par de cientistas compartilha ao menos um documento. São 38 pares documentados. Não há nós isolados. Não há ilhas acadêmicas desconectadas. Todos estão ligados a todos.
Essa topologia não é acidental. Para que dez pessoas formem um grafo completo, é necessário que cada uma tenha interagido, direta ou indiretamente, com todas as outras nove. Em redes sociais aleatórias, a probabilidade de que dez pessoas escolhidas ao acaso formem um grafo completo é negligível. Em redes organizadas em torno de um patrono central, é o resultado esperado: Epstein funcionava como o ponto de convergência que garantia que cada peça do quebra-cabeça conhecesse as demais. Era o anfitrião, o financiador, o apresentador, o corretor de informação. A topologia do grafo não mente: revela um sistema deliberadamente construído para que nenhum cientista operasse isolado dos demais, e para que todos dependessem do mesmo centro gravitacional.
Mas o núcleo de dez era apenas a ponta. Uma lista preservada no corpus (EFTA00732645) identifica mais de vinte cientistas diretamente financiados ou conectados a Epstein. Os nomes, organizados por eixo institucional, compõem um mapa do poder científico americano:
Eixo Harvard — Boris Nikolic, imunologista e chefe do BGC3 de Gates (1.334 docs); George Church, geneticista e pioneiro do CRISPR (453 docs); Martin Nowak, matemático da dinâmica evolucionária (~400 docs); Lisa Randall, física teórica de partículas (642 docs).
Eixo MIT — Ed Boyden, criador da optogenética (586 docs); Seth Lloyd, computação quântica (~300 docs); Marvin Minsky, pai da inteligência artificial (~250 docs); Kevin Esvelt, inventor do gene drive (múltiplos docs).
Eixo Columbia/Caltech/Rutgers — Richard Axel, Nobel de Medicina 2004 por receptores olfativos (522 docs); Frances Arnold, Nobel de Química 2018 por evolução dirigida (múltiplos docs); Robert Trivers, biólogo evolucionário e teórico do autoengano (múltiplos docs).
Eixo independente — Lawrence Krauss, físico teórico da ASU (3.095 docs); Craig Venter, sequenciador do genoma humano (125 docs); Nathan Wolfe, virologista e fundador da Metabiota (69 docs); Danny Hillis, computação paralela aplicada à biologia (~200 docs); Joscha Bach, inteligência artificial e filosofia da mente (2.544 docs); Eric Lander, Broad Institute e Projeto Genoma Humano (229 docs); Gerald Edelman, neurociência na Scripps (múltiplos docs).
Três prêmios Nobel na rede — Murray Gell-Mann, física, 1969, descobridor dos quarks (85 docs); Richard Axel, medicina, 2004; Frances Arnold, química, 2018. Roger Penrose, Nobel de Física 2020, participou de conferências sobre consciência na residência de Epstein.
O eixo Harvard, Nowak e Church, concentrava o grosso do financiamento: 6,5 milhões de dólares para o Programa de Dinâmica Evolucionária de Nowak (2003), aproximadamente 2 milhões para Church (2005 a 2015) e doações adicionais canalizadas por Leon Black, que sozinho destinou 5 milhões ao programa de Nowak (EFTA00587177) e outros 2 milhões ao “Genomics and Synthetic Biology Research Fund” sob Church (EFTA00583251). Black pagou mais de 170 milhões de dólares a Epstein ao longo dos anos. Dinheiro que saía de um fundo de investimento e entrava num fundo de genômica passando pelas mãos de um criminoso sexual registrado. [CONFIRMADO]
O eixo MIT, Boyden, Lloyd e Minsky, operava por intermédio de Joi Ito, diretor do Media Lab, que disfarçava as doações de Epstein como “anônimas” nos registros internos. Seth Lloyd recebeu 225 mil dólares diretamente de Epstein e visitou-o na prisão durante a primeira condenação. Mas o caso Lloyd tem uma dimensão adicional: um artigo publicado na Scientific American que levava o nome de Lloyd como coautor foi, segundo investigações posteriores, parcialmente redigido por um redator fantasma ligado à equipe de relações públicas de Epstein. A ciência como ferramenta de lavagem reputacional. [CONFIRMADO/PARCIAL]
Marvin Minsky, um dos pais da inteligência artificial, foi acusado sob juramento por Virginia Giuffre de ter sido “directed to have sexual relations” com ela na ilha particular de Epstein. A acusação é de uma vítima de tráfico sexual sob juramento num tribunal federal. Minsky morreu em 2016 sem ser processado. Richard Stallman, fundador da Free Software Foundation e lenda da programação, perdeu o cargo no MIT por ter questionado publicamente se a relação de Minsky com a menor fora realmente “coagida”. A rede de consequências do caso Epstein é tão vasta que captura até aqueles que, tentando relativizar, acabam consumidos pelo escândalo. [ALEGADO]
E no centro de tudo, Boris Nikolic. Croata de nascimento, imunologista de formação, chefe do laboratório de ideias privado de Bill Gates (BGC3), Nikolic aparece 1.884 vezes em documentos compartilhados com Epstein no grafo, oito vezes mais do que George Church, o segundo colocado. Conecta-se a todos os nove outros cientistas da matriz. Intermediava reuniões entre Gates e Epstein. Após a morte de Epstein, revelou-se que fora nomeado executor testamentário do seu espólio, dois dias antes do óbito. Declarou-se “surpreso”. A surpresa é difícil de conciliar com 1.884 documentos compartilhados. [CONFIRMADO]
O custo total documentado da rede? Pelo menos onze milhões de dólares em financiamento direto a cientistas, sem contar os 170 milhões de Leon Black a Epstein. Para um homem cuja fortuna era estimada entre 500 milhões e 1 bilhão, menos de 2% do patrimônio. O retorno? Acesso, influência, legitimidade e, no limite, a possibilidade de reescrever o código genético da espécie sob proteção de anonimato.
Epstein tinha plena consciência da amplitude do seu portfólio. Num email preservado como EFTA02437581, descreveu seus campos de interesse em linguagem que mesclava física de ponta com misticismo oriental: “quantum computing, string theory, loop quantum gravity, chinese chi, complexity, neuroscience, bio physics, evolutionary dynamics, cosmology, cognitive neuro, foundations of morals.” Da computação quântica ao chi chinês, das supercordas à neurociência cognitiva, dos fundamentos da moral à cosmologia. O cardápio de um homem que queria entender tudo para controlar tudo. O item final da lista, “foundations of morals”, é involuntariamente cômico: um traficante sexual interessado nos fundamentos da moral. Mas talvez a ironia seja nossa, não dele. Talvez Epstein estudasse os fundamentos da moral pelo mesmo motivo pelo qual um ladrão estuda fechaduras: não para respeitá-las, mas para arrombá-las com mais eficiência. [CONFIRMADO]
3. O salão dos físicos
Há uma tradição intelectual segundo a qual os físicos teóricos são os filósofos do nosso tempo: as pessoas que pensam os pensamentos mais abstratos e, por extensão, mais puros. Einstein sobre a bicicleta, Feynman tocando bongô, Hawking desafiando a cadeira de rodas com o sorriso mais corajoso da história da ciência. O mito do físico como ser etéreo, desligado das misérias do mundo, acima das tentações da carne e do dinheiro, é uma das narrativas mais duradouras da cultura moderna.
Epstein explorou essa narrativa com maestria. O seu salão de Manhattan na 9 East 71st Street funcionava como ponto de convergência para algumas das mentes mais brilhantes da física contemporânea, que lá se reuniam para discutir buracos negros, consciência e as origens do universo, enquanto, nos andares de cima, câmeras escondidas registravam atividades de natureza bem menos abstrata. O salão era, simultaneamente, academia platônica e bordel vigiado. A combinação não é nova na história: príncipes renascentistas faziam o mesmo. A diferença é que os príncipes renascentistas ao menos financiavam a arte com dinheiro próprio.
Lawrence Krauss, físico teórico da Arizona State University e autor de best-sellers sobre cosmologia, aparece em 3.095 documentos no corpus. Krauss organizou em 2006 um simpósio em St. Thomas que incluiu Stephen Hawking. A conferência realizou-se na ilha particular de Epstein. Mas a relação ia além do acadêmico. Segundo documentos judiciais, Krauss ajudou Epstein a gerenciar denúncias de assédio sexual, chegando a redigir comunicados de imprensa destinados a minimizar as acusações contra o pedófilo. A vítima que mantinha diário (EFTA02731373-95) reservou-lhe um apelido que dispensa tradução: “Mr. Sauerkraut Krauss”, algo como “o Nojento Krauss”. Eventualmente, ele próprio caiu: foi demitido da ASU em 2019 após múltiplas acusações de assédio sexual por colegas e estudantes. [CONFIRMADO]
Lisa Randall, física teórica de Harvard e uma das cientistas mais citadas do mundo em física de partículas, com 642 documentos no corpus, visitou a ilha de Epstein de helicóptero e discutiu equações de Kerr, a solução exata das equações de Einstein para buracos negros em rotação, com o pedófilo. Não há evidência de que Randall soubesse da extensão criminosa da operação, mas a imagem é indelével: uma das maiores mentes da física contemporânea discutindo as propriedades de singularidades cósmicas com um homem que transformava adolescentes em singularidades humanas, invisíveis ao universo da justiça. [PARCIAL]
Richard Axel, prêmio Nobel de Medicina de 2004 pela descoberta dos receptores olfativos, com 522 documentos no corpus, jantou na residência de Epstein ao lado de Woody Allen. Dois prêmios Nobel não bastavam: era preciso adicionar um cineasta acusado de abuso sexual à composição do jantar, como quem tempera um prato com a pitada de transgressão que torna a soirée inesquecível. [CONFIRMADO]
Frances Arnold, Nobel de Química de 2018 pela evolução dirigida de enzimas, participou de uma conferência organizada por Epstein na companhia de Murray Gell-Mann, Nobel de Física de 1969 pela teoria dos quarks. Gell-Mann, com 85 documentos no corpus, era presença recorrente no circuito intelectual de Epstein. Quando alguém consultou Epstein em agosto de 2010 sobre a admissão de Gell-Mann a uma espécie de sociedade secreta com ex-presidentes do Federal Reserve entre seus membros, Epstein não respondeu “não sei do que você fala”. Respondeu com familiaridade que só o conhecimento pessoal explica. [CONFIRMADO/PARCIAL]
Roger Penrose, o matemático e físico cuja obra sobre a consciência e a estrutura do espaço-tempo lhe rendeu o Nobel de Física de 2020, participou de conferências sobre consciência na residência de Epstein. Joscha Bach, pesquisador de inteligência artificial com 2.544 documentos no corpus, conduzia discussões filosóficas profundas com Epstein sobre a natureza da mente. Danny Hillis, com 1.067 documentos, aplicava computação paralela à biologia. A convergência era sempre a mesma: mentes excepcionais, financiadas ou cortejadas por um homem cuja genialidade não residia no intelecto, mas na capacidade de cooptar o intelecto alheio. [CONFIRMADO/PARCIAL]
A bióloga evolucionária Corina Tarnita, de Princeton, ofereceu um testemunho revelador: ao comparecer a um evento científico na residência de Epstein, identificou a presença de “meninas romenas” entre os convidados. Tarnita, ela própria romena, notou o que outros, convenientemente, não notaram. A ciência era o cenário. A predação era o enredo. [ALEGADO]
O padrão é recorrente e devastador. Epstein oferecia ambiente luxuoso, acesso a mentes brilhantes e, frequentemente, mulheres jovens. Em troca, obtinha legitimidade social e, conforme os documentos sugerem, influência sobre a direção da pesquisa. Cada físico que discutia buracos negros na sala de estar de Epstein emprestava, involuntariamente ou não, sua reputação à normalização de um predador.
Há uma ironia cósmica nesse arranjo. Os mesmos homens que dedicaram a vida a compreender as forças fundamentais do universo não souberam, ou não quiseram, reconhecer a força mais elementar da política humana: quem paga, manda. Epstein não entendia equações de campo. Entendia equações de poder. E a equação era simples: dinheiro mais prestígio igual a impunidade. Os físicos resolviam integrais. Epstein resolvia pessoas.
4. O rancho dos bebês
O Zorro Ranch, propriedade de 3.066 metros quadrados em Stanley, Novo México, população aproximada de 95 habitantes, era o epicentro físico do programa. Segundo reportagem do New York Times preservada no documento EFTA00069900, Epstein planejava inseminar até 20 mulheres simultaneamente com seu próprio esperma, inspirado no Repository for Germinal Choice, banco de esperma criado nos anos 1980 para armazenar material genético de ganhadores do Nobel.
As peças encaixam-se com precisão industrial. E são muitas.
A propriedade ficava a 65 quilômetros ao sul de Santa Fé, cercada por montanhas e acessível apenas por estrada de terra. A população de Stanley, segundo o censo, cabe num ônibus escolar. O isolamento era proposital: um rancho de 3 mil metros quadrados num vilarejo de 95 almas é o tipo de lugar onde se pode conduzir operações de qualquer natureza sem que ninguém pergunte, note ou reporte. O FBI recebeu denúncias sobre o que acontecia naquele rancho. E nunca foi até lá.
O contrato com a California Cryobank, assinado em maio de 2014 por “Jeffrey C. Epstein”, incluía cláusulas post-mortem para o destino dos espécimes (EFTA00313936). Trinta kits de DNA da 23andMe foram encomendados por 6.084,95 dólares, todos registrados sob o nome falso “Sultan Binsulayem”, referência a Sultan Ahmed bin Sulayem, presidente da DP World (EFTA00454054). Apenas um kit teve destinatário identificado: Karyna Shuliak, última namorada de Epstein. Os outros 29 permanecem sem destino conhecido. [CONFIRMADO]
Mark Tramo, neurocientista da UCLA com 451 documentos no corpus, escreveu a Epstein sobre “premies we are breeding” (”prematuros que estamos criando”), numa correspondência em que também propunha o Virtual Womb, útero artificial para neonatos. Tramo copiava Epstein em toda a sua correspondência profissional, e Epstein exercia controle granular sobre o instituto de Tramo: verificava o status fiscal, vetava estagiários e definia prioridades de pesquisa (EFTA00679322, EFTA02443029). [CONFIRMADO]
As próprias células de Epstein foram convertidas em células-tronco pluripotentes induzidas (iPS) no laboratório de George Church em Harvard, num processo de seis meses e custo aproximado de 30 mil dólares: “Jeffrey already has fibroblast cell lines from the skin biopsy done for the PGP” (Projeto Genoma Pessoal). Células iPS podem, em teoria, ser diferenciadas em qualquer tecido humano, inclusive gametas. O testamento de Epstein, em 24 documentos do corpus, incluía filhos nascidos “by surrogacy” (por gestação substitutiva) entre os beneficiários. A infraestrutura era redundante: esperma criopreservado para inseminação convencional, células iPS para gametas artificiais, trust com provisões testamentárias para filhos vindouros. Um plano de contingência genética com três níveis de redundância. [CONFIRMADO]
Uma vítima que compreendeu com clareza o que acontecia registrou em diário:
> “Superior Gene Pool ?!?”
> “Create perfect offspring”
> “That feels very Nazi like”
> “I am not your personal incubator!” (EFTA02731373-95)
[CONFIRMADO]
O orçamento dedicado a esse programa era colossal. Documentos financeiros indicam que Epstein gastava 2 milhões de dólares por ano em fertilização in vitro e criopreservação (EFTA01127977). Para um único homem, isso equivale a entre 80 e 130 ciclos anuais de fertilização assistida. Não se trata de tentativas de paternidade. Trata-se de produção em escala industrial.
O FBI nunca obteve mandado de busca para o Zorro Ranch. Havia denúncias de um bebê enterrado no terreno de uma igreja adjacente, de corpos de meninas estrangeiras e de 5 DVDs com material de abuso sexual reportados ao Distrito Sul de Nova York (EFTA00074130). Passaram-se quase sete anos. O rancho nunca foi revistado. A pergunta que não quer calar: por quê? Que força é capaz de impedir o FBI de investigar um rancho onde denúncias incluem bebês enterrados e corpos de meninas? A resposta está, provavelmente, na mesma rede de proteção que permitiu a Epstein receber uma pena de treze meses, com regime de trabalho externo, por crimes sexuais contra menores em 2008. [CONFIRMADO]
5. O vírus que excita
De todas as linhas de pesquisa do universo Epstein, a mais bizarra pertence a Nathan Wolfe. Para compreendê-la, é preciso apresentar o personagem: Wolfe é virologista, fundador da Global Viral Forecasting Initiative (rebatizada Metabiota), empresa de previsão e detecção de pandemias financiada, entre outros, por Bill Gates e pela agência de inteligência In-Q-Tel (braço de venture capital da CIA). Wolfe foi membro do conselho da EcoHealth Alliance, a organização que canalizou financiamento do NIH para pesquisa de coronavírus no Instituto de Virologia de Wuhan. Aparece em 69 documentos do corpus e participava de conferências sobre “dinâmica viral evolucionária” organizadas por Epstein ao lado de George Church, Eric Lander (presidente do Projeto Genoma Humano, depois conselheiro científico de Biden) e Martin Nowak.
A convergência é notável: o homem que previa pandemias era financiado pelo mesmo ecossistema que financiava a pesquisa genética de Epstein. E esse homem se correspondia com o pedófilo sobre assuntos que ultrapassavam, em muito, a virologia convencional.
O documento EFTA02378487 preserva uma comunicação de Wolfe a Epstein que merece atenção meticulosa. Wolfe enviou ao pedófilo referências acadêmicas sobre questionários de comportamento sexual e rastreamento de doenças sexualmente transmissíveis, propondo um “estudo de coorte”:
> “Below are some references that show how sexual behavior questionnaires have been validated. I believe these issues have been well addressed and am not concerned that we can get good data on changes in sexual behavior within individuals over time in relation to variables like the incidence of new STIs.”
Um especialista em pandemias fornecia a um traficante sexual condenado ferramentas científicas para monitorar mudanças no comportamento sexual ao longo do tempo. As perguntas que os documentos levantam, mas não respondem, são três: quem seria a coorte desse estudo? As mulheres transportadas por Epstein? As vítimas adolescentes? E mais: por que um virologista de ponta dedicaria tempo a estudar se microrganismos podem alterar o comportamento sexual dos seus hospedeiros? A hipótese, aventada no próprio corpus, de que certos vírus poderiam aumentar a atividade sexual das pessoas infectadas, tornando-as, em termos evolutivos, vetores mais eficientes, é cientificamente plausível. Mas quando o interlocutor é Jeffrey Epstein, a curiosidade acadêmica dissolve-se e o que sobra é uma pergunta muito mais sinistra: para que uso prático, exatamente, essa informação seria empregada?
Epstein oferecia a Wolfe apartamento e carro na Flórida (EFTA02433195), a mesma logística de hospitalidade que oferecia às mulheres transportadas para sua rede. No caso de Wolfe, o contexto aparente é profissional. Mas o padrão de acolhimento é idêntico. Os documentos emudeceram onde as respostas mais importam. [CONFIRMADO]
Wolfe era, num certo sentido, o cientista perfeito para Epstein: alguém que estudava como organismos microscópicos manipulam o comportamento dos seus hospedeiros para se reproduzir com mais eficiência. A analogia com o modus operandi de Epstein, que manipulava o comportamento de vítimas e cúmplices para expandir sua rede com mais eficiência, é estrutural, não metafórica.
Paralelamente, Epstein recebia de Wolfe e de sua rede informações sobre vírus e pandemias com um nível de detalhe que ultrapassava a curiosidade de diletante. O BGC3 de Boris Nikolic produziu, em maio de 2017, uma lista de “entregáveis” para Gates que incluía “strain pandemic simulation” (simulação de pandemia por cepa viral) e “neurotechnologies as weapons in national intelligence and defense” (neurotecnologias como armas de inteligência e defesa nacional) (EFTA02381427). Esse documento foi encaminhado ao endereço pessoal de Epstein. Gates, por sua vez, enviou a Epstein artigos sobre Ebola (EFTA02389903), num email trilateral que incluía Nikolic e mencionava “pandemic” como área-chave de um fundo de investimento. [CONFIRMADO]
O fundo em questão era o Donor Advised Fund (fundo filantrópico com direcionamento do doador), veículo de 100 bilhões de dólares vinculado a Gates, cuja implementação era discutida com Epstein como interlocutor privilegiado. Repita-se o número: cem bilhões de dólares. O PIB de vários países africanos inteiros. Um pedófilo condenado participava das discussões sobre a alocação desse montante. Cem bilhões. Com “pandemia” como área estratégica. Em 2017. Dois anos antes da pandemia que mudaria o mundo. Não se afirma aqui causalidade. Afirma-se que o homem que financiava estudos de comportamento sexual com um pedófilo também discutia, com o mesmo pedófilo, a alocação de um fundo de cem bilhões de dólares destinado, entre outras coisas, a pandemias. A coincidência é robusta o bastante para merecer um nome menos gentil. [CONFIRMADO/PARCIAL]
Eric Lander, um dos arquitetos do Projeto Genoma Humano, com 229 documentos no corpus, ligou para Epstein quando este estava na ilha e participou de conferências científicas organizadas pelo pedófilo. Nikolic intermediava reuniões entre Lander e Epstein. Em 2021, Lander foi nomeado diretor do Escritório de Política Científica e Tecnológica da Casa Branca por Joe Biden, o cargo científico mais importante do governo americano. Renunciou meses depois, por acusações de assédio no ambiente de trabalho. O padrão repete-se com uma regularidade que desafia o acaso: cientistas do circuito Epstein caindo, um a um, pelas mesmas razões pelas quais Epstein caiu. [CONFIRMADO/PARCIAL]
Kevin Esvelt, professor do MIT e criador do conceito de gene drive, merece um parágrafo à parte pela radicalidade da tecnologia que representa. Gene drive é a capacidade de propagar uma modificação genética por uma população selvagem inteira em poucas gerações. Em termos práticos: insira um gene modificado num mosquito, e em poucos ciclos reprodutivos, todos os mosquitos daquela espécie carregarão a modificação. A tecnologia pode erradicar a malária. Também pode erradicar qualquer espécie que alguém decida eliminar. Esvelt reuniu-se com Epstein no contexto do projeto “One Science” (EFTA00467462). O gene drive é, em termos simples, a tecnologia mais poderosa já concebida para alterar irreversivelmente uma espécie. A DARPA (agência de projetos avançados de defesa dos Estados Unidos) investiu 100 milhões de dólares em pesquisa sobre o tema entre 2017 e 2019. A preocupação central não era usar gene drive como arma, mas defender-se contra adversários que o fizessem. Esvelt era financiado por Gates. Esvelt reunia-se com Epstein. Epstein recebia relatórios sobre neurotecnologia como arma. A vizinhança entre ciência de fronteira e interesse militar era, no mínimo, desconfortavelmente estreita. [CONFIRMADO]
Larry Summers, ex-secretário do Tesouro americano e ex-presidente de Harvard, jantou com Epstein ao lado de Gates e Jes Staley, então executivo-chefe do JPMorgan. Esse jantar não era colóquio acadêmico. Era convergência de poder financeiro, político e científico numa mesma mesa, sob a presidência de um criminoso sexual. Summers, depois, intermediou o acordo de não persecução criminal negociado por Alexander Acosta, o procurador que garantiu a Epstein uma pena risível em 2008. Acosta descreveu Epstein como “a reasonable guy” num contexto em que a razoabilidade consistia em abusar de menores e escapar da cadeia. Summers aparece com 61 documentos compartilhados com Church no grafo. A vítima do diário descreveu-o como “fucking disgusting” (EFTA02731425). A distância entre a avaliação de Acosta e a avaliação da vítima é a distância entre o poder e a verdade. [CONFIRMADO]
6. Optogenética sem comitê de ética
Antes de prosseguir, é necessário explicar ao leitor o que é optogenética, porque poucos conceitos científicos são tão revolucionários e tão perturbadores ao mesmo tempo.
Ed Boyden, professor do MIT com 586 documentos no corpus, é um dos maiores neurocientistas vivos. Sua especialidade é a optogenética: a capacidade de controlar neurônios individuais com pulsos de luz. Em termos leigos, trata-se de introduzir, numa célula nervosa específica, uma proteína sensível à luz (derivada de algas ou bactérias) e depois usar um fio de fibra óptica, fino como um fio de cabelo, para ativar ou desativar aquela célula com um flash de laser. É, literalmente, ligar e desligar células cerebrais específicas com a precisão de um interruptor. As aplicações terapêuticas são imensas: tratamento de Parkinson, epilepsia, cegueira, depressão. As implicações para controle comportamental são igualmente imensas, e é aí que a história escurece.
Em camundongos, a optogenética já demonstrou a capacidade de induzir medo, prazer, agressividade, fome, sede e comportamento sexual, tudo com a precisão de quem liga uma lâmpada. A pergunta que os comitês de ética se fazem, e que aparentemente ninguém no círculo de Epstein se fazia, é: o que acontece quando essa tecnologia amadurece o suficiente para ser aplicada em humanos?
O relatório do BGC3 de Nikolic mencionava “neurotechnologies as weapons in national intelligence and defense” (EFTA02381427). A optogenética é a neurotecnologia mais precisa que existe. Nikolic era a ponte entre o relatório sobre neurotecnologia como arma e o laboratório de Boyden, o único laboratório do mundo onde essa arma estava sendo construída, ainda que sob o invólucro respeitável da pesquisa acadêmica. [CONFIRMADO]
Em fevereiro de 2018, o calendário de Epstein registra a reunião do projeto “One Science”: “Meeting, Jeffrey, Hugh, Ed, Kevin & Joi re: One Science” (EFTA00467462). Os participantes eram Ed Boyden (optogenética), Hugh Herr (próteses biônicas), Kevin Esvelt (gene drive), Joi Ito (diretor do Media Lab) e o próprio Epstein. Quatro dos maiores cientistas do MIT reunidos sob a coordenação de um pedófilo condenado, discutindo um projeto cujo conteúdo permanece opaco: os documentos mencionam o nome, mas não detalham os objetivos. O que sabemos é o que cada participante trazia à mesa: Boyden, a capacidade de controlar neurônios com luz. Herr, a capacidade de criar membros artificiais superiores aos biológicos. Esvelt, a capacidade de alterar irreversivelmente espécies inteiras em poucas gerações. Ito, a capacidade de captar dinheiro e camuflar sua origem. E Epstein, o dinheiro e a ambição sem limites. A combinação é tão poderosa quanto perturbadora. [CONFIRMADO]
Hugh Herr, também do MIT, desenvolvia próteses biônicas que restauram a mobilidade de amputados com uma fidelidade que a natureza não previu. Herr perdeu ambas as pernas aos 17 anos numa escalada e dedicou a vida a criar membros artificiais melhores do que os originais. A sua participação no projeto “One Science” é, em si, legítima. O problema não é Herr. O problema é a companhia. E a origem do financiamento.
A proposição de que Boyden conduzia experimentos “that don’t require IRB approval” (que não exigem aprovação de comitê de ética) completa o quadro. Controlar neurônios individuais com luz, sem supervisão ética, financiado por dinheiro cuja origem passava por um traficante sexual. Se Donald Ewen Cameron, o psiquiatra do MK Ultra, pudesse ler esses documentos do além-túmulo, reconheceria a estrutura: controle total sobre o sistema nervoso de outro ser humano, com financiamento de origem turva e sem prestação de contas a ninguém. A diferença é que Cameron usava eletrochoques na McGill University nos anos 1950. Boyden usa lasers no MIT nos anos 2010. A sofisticação tecnológica é incomparavelmente maior. A ausência de escrúpulo institucional é a mesma. [PARCIAL]
7. Sangue jovem e imortalidade
Se a obsessão reprodutiva de Epstein mirava o futuro, sua obsessão com a longevidade mirava o presente. As duas convergiam numa única meta: controle total sobre a biologia humana, da concepção à morte. O programa reprodutivo garantiria que a informação genética de Epstein sobrevivesse. O programa de longevidade garantiria que o próprio Epstein sobrevivesse. A combinação revela uma personalidade para a qual a mortalidade não era limite existencial, mas problema de engenharia. E problemas de engenharia, como qualquer engenheiro sabe, resolvem-se com dinheiro suficiente e tolerância zero a restrições éticas.
Peter Thiel, cofundador do PayPal e da Palantir, manteve com Epstein mais de 2.000 mensagens trocadas e investiu 40 milhões de dólares em dois fundos da Valar Ventures ligados ao pedófilo (EFTA02457661). Ehud Barak, ex-primeiro-ministro de Israel, descreveu um dos fundos como “owned by Peter Thiel and JE”. Thiel investiu 7 milhões de dólares na Methuselah Foundation, dedicada à extensão radical da vida, e financiou a Ambrosia, clínica que oferecia transfusões de plasma de jovens entre 16 e 25 anos por 8.000 dólares a dose, até a FDA alertar sobre os riscos em 2019. [PARCIAL]
George Church, por sua vez, investigava rejuvenescimento genético por meio dos fatores de Yamanaka, os mesmos usados para criar células iPS. Um PDF intitulado “Rejuvenate” foi enviado a Epstein no corpus documental (EFTA00353065). A empresa conjunta de ambos, a Georgarage, investia em startups de biotecnologia, incluindo a eGenesis, que desenvolveu o primeiro transplante de coração de porco geneticamente editado para humano (2022). [PARCIAL/CONFIRMADO]
O orçamento de Epstein com fertilização in vitro e criopreservação alcançava 2 milhões de dólares por ano (EFTA01127977). Para contextualizar: um ciclo de fertilização in vitro nos Estados Unidos custa, em média, entre 15 e 25 mil dólares. Dois milhões anuais representam entre 80 e 130 ciclos. Não se trata de um homem tentando ter filhos. Trata-se de uma operação industrial de reprodução assistida. [CONFIRMADO]
Steven Victor, dermatologista e fundador da ReGen BioSciences, aparece em 197 documentos no corpus e mantinha comunicação frequente com Epstein sobre células-tronco adiposas e procedimentos regenerativos. Victor operava na zona cinzenta entre a medicina estética e a medicina experimental, oferecendo tratamentos com células-tronco numa época em que a FDA ainda não regulamentava o setor com rigor. A proximidade geográfica entre os consultórios de Victor e a residência de Epstein em Manhattan, somada à sobreposição de 80 documentos com registros do UBS, sugere uma relação comercial contínua. Victor fazia marketing direto a Epstein, oferecendo procedimentos de ponta que oscilavam entre o revolucionário e o regulatoriamente duvidoso. [CONFIRMADO]
A obsessão de Epstein com a longevidade não se limitava a terapias disponíveis. Os documentos preservam discussões sobre extensão de telômeros, as pontas protetoras dos cromossomos cujo encurtamento progressivo está associado ao envelhecimento, e sobre criônica, a filosofia de congelamento do corpo após a morte na esperança de reanimação futura. Quando o NYT reportou que Epstein queria congelar a cabeça e o pênis, a notícia pareceu excêntrica. À luz dos documentos sobre criopreservação de esperma, células iPS e cláusulas testamentárias para filhos por gestação substitutiva, revela-se como peça coerente de um plano: preservar a informação genética por todos os meios disponíveis, em todas as formas possíveis, para que o legado biológico sobrevivesse ao corpo que o carregava. [PARCIAL]
O caso mais sombrio pertence a Peter Nygard, magnata finlandês-canadense da moda, condenado em 2024 a 11 anos de prisão por tráfico sexual. Nygard, nomeado nos documentos do DOJ sobre Epstein em dezembro de 2025, proclamava-se “o homem que mais recebeu tratamento com células-tronco no planeta”. Segundo depoimento de vítimas, Nygard engravidava mulheres jovens deliberadamente e forçava-as a abortar para colher células embrionárias: “If you got pregnant and had an abortion, we could use those embryonic cells and have a life’s supply for all of us.” O Diretor Médico de St. Kitts interrompeu pessoalmente uma operação ilegal de células-tronco feita em nome de Nygard em junho de 2016, o mesmo mês em que Tramo escreveu a Epstein sobre os “prematuros que estamos criando”. [PARCIAL/ALEGADO]
O caso Nygard é especialmente relevante porque demonstra que Epstein não era anomalia. Era padrão. Dois magnatas, em dois países, operando redes de tráfico sexual simultâneas, ambos obcecados com longevidade, ambos usando mulheres como matéria-prima biológica, ambos protegidos por décadas pela combinação de riqueza extrema e complacência institucional. O DOJ nomeou Nygard nos documentos Epstein em dezembro de 2025. A intersecção entre os dois universos, se existir nos detalhes que os documentos ainda não revelaram, será a prova definitiva de que o programa não era individual. Era sistêmico.
Em fevereiro de 2019, meses antes da prisão de Epstein, um artigo sobre “clínica de sangue jovem” foi encaminhado a ele, completando o circuito: transfusão de plasma jovem (Thiel/Ambrosia), rejuvenescimento genético (Church), células-tronco embrionárias de abortos forçados (Nygard), células iPS do próprio corpo (Epstein), criopreservação massiva (2 milhões por ano), células-tronco adiposas (Victor). Cinco homens, cinco abordagens para o mesmo problema: vencer a mortalidade. O NYT reportou que Epstein pedira para ter cabeça e pênis congelados após a morte (EFTA00069900). Talvez fosse excentricidade. Talvez fosse o último nível de redundância no plano de contingência genética mais elaborado já documentado. [PARCIAL]
8. A droga do diabo
Se as seções anteriores tratam do futuro (edição genética, clonagem, longevidade), esta trata do presente mais brutal da operação Epstein. Porque, paralelamente ao programa científico de longo prazo, existia uma operação de curto prazo cujo objetivo era mais imediato e mais sinistro: o controle total sobre as vítimas aqui e agora.
De todas as descobertas neste caso, poucas são tão perturbadoras quanto o documento EFTA00865569.
Antoine Verglas, fotógrafo de moda francês com 317 documentos no corpus e acesso regular à residência de Epstein, encaminhou ao pedófilo um artigo do Daily Mail sobre escopolamina, a substância conhecida na Colômbia como “burundanga”. O artigo descrevia: “[Scopolamine] eliminates free will... Within minutes, that person is under the drug’s effect... It’s like they’re a child” (”Elimina o livre-arbítrio... Em minutos, a pessoa está sob efeito da droga... É como se fosse uma criança”). [CONFIRMADO]
A escolha de palavras, “é como se fosse uma criança”, adquire conotação especialmente sinistra quando o destinatário é um homem cujas vítimas documentadas tinham entre 14 e 17 anos.
Separadamente, o documento EFTA00163098 preserva depoimento de vítima: “I gave him a LOT of that Scopolamine” (”Dei-lhe MUITA escopolamina”). Não é especulação. É testemunho judicial. [CONFIRMADO]
A escopolamina é um alcaloide que bloqueia receptores de acetilcolina no cérebro. Em doses controladas, trata enjoo. Em doses criminosas, produz sugestionabilidade extrema, obediência a comandos e amnésia total. A Colômbia registra aproximadamente 50 mil incidentes anuais. A CIA testou-a como “soro da verdade” nos experimentos do Projeto MK Ultra nos anos 1950.
Detalhe botânico: a planta Brugmansia, fonte natural de escopolamina, prospera nas zonas climáticas 11 e 12. As Ilhas Virgens Americanas, onde Epstein possuía Little St. James, estão exatamente nessas zonas. A planta poderia crescer no jardim do pedófilo. [PARCIAL]
A pesquisadora de Harvard Deirdre Barrett, cujos artigos sobre hipnose foram entregues ao email de Epstein (EFTA00673252), identificou que sobreviventes de abuso na infância são significativamente mais suscetíveis ao controle hipnótico, o perfil exato recrutado pela rede de Epstein. Uma vítima escreveu: “My memories... are hazy like I was drugged or under hypnosis... All of the memories I have feel like a dream” (EFTA00154698). [CONFIRMADO]
Não se afirma aqui que Epstein administrava escopolamina sistematicamente. Afirma-se o seguinte: um fotógrafo do seu círculo encaminhou-lhe artigo sobre uma substância que aniquila o livre-arbítrio. Uma vítima relatou seu uso em contexto de abuso. A planta de origem cresce no clima caribenho. As técnicas documentadas no caso, isolamento geográfico, dependência financeira, ameaças jurídicas, câmeras ocultas em banheiros (documentadas em 241 documentos do corpus), são estruturalmente análogas às do MK Ultra. E o BGC3 de Nikolic produzia relatórios sobre neurotecnologia como arma.
A arqueologia do controle mental no Ocidente segue uma linha que começa nos laboratórios da CIA em Montreal e Fort Detrick, passa pelas experiências com LSD em sujeitos involuntários nos anos 1950, cruza os programas de interrogatório aprimorado do pós-11 de Setembro e desemboca, com assombrosa continuidade, no salão de Manhattan de um criminoso sexual que financiava pesquisa em optogenética e recebia artigos sobre escopolamina. A diferença entre Cameron e Epstein não é de natureza. É de sofisticação. Cameron, em Montreal, usava eletrochoque. Boyden, no MIT, usava lasers. Verglas, em Manhattan, encaminhava artigos sobre escopolamina. A essência é a mesma: anular a vontade alheia. O invólucro é que ficou mais elegante.
9. O paralelo chinês
Há, na história da tecnologia, um padrão que se repete com a regularidade de um metrônomo: quando uma capacidade técnica é viável, alguém a utiliza. A bomba atômica foi construída porque era possível construí-la. A clonagem de Dolly aconteceu porque era possível clonar. O sequenciamento do genoma humano foi completado porque a tecnologia amadureceu. A questão nunca é “se”, mas “quem” e “onde”. No caso da edição genética de embriões humanos, a resposta veio da China.
Em novembro de 2018, He Jiankui, biofísico da Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul, em Shenzhen, anunciou ao mundo que criara os primeiros bebês humanos geneticamente editados com CRISPR: Lulu e Nana. A comunidade científica declarou-se “chocada”. A reação de Bryan Bishop, ao contrário, foi instantânea e reveladora. No mesmo dia, escreveu a Epstein:
> “My team has been working on a new technique... embryo editing technique more similar to cloning... our overseas lab has reported some mouse testis transfection results... 5% transfection efficiency” (EFTA01015526)
Bishop não reagiu com surpresa. Reagiu com competitividade. Sua equipe já trabalhava numa técnica semelhante. O chinês era, para ele, menos um escândalo e mais um concorrente que saíra na frente. Dois dias depois, Bishop transcreveu ao vivo a apresentação de He Jiankui na Cúpula Internacional de Hong Kong e enviou a transcrição, em tempo real, ao email de Epstein (EFTA01015238). [CONFIRMADO]
George Church, que recebia 2 milhões de Epstein e mantinha suas células em Harvard, estava no “circle of trust” de He Jiankui, o grupo restrito de cientistas informados antes do anúncio. Inicialmente, Church defendeu o experimento como “justifiable”. [CONFIRMADO]
A sobreposição é difícil de ignorar: Church conhecia He Jiankui e fora informado previamente. Church recebia dinheiro de Epstein. Bishop trabalhava para Epstein e propunha edição genômica de embriões. Bishop transcrevia a apresentação de He para Epstein em tempo real. Os três homens, Church, Bishop e He, trabalhavam na mesma tecnologia, na mesma janela temporal, com objetivos sobrepostos. E dois deles tinham o mesmo financiador.
A pergunta que os documentos levantam, mas não respondem: havia coordenação entre Bishop e He por intermédio de Church, ou apenas coincidência de calendário? Os documentos não oferecem resposta definitiva. Mas convém notar que, na história da ciência, coincidências de calendário entre pesquisadores que trabalham na mesma tecnologia, frequentam os mesmos círculos e são financiados pelas mesmas fontes têm um nome técnico: colaboração. [ALEGADO]
Epstein encaminhou as notícias sobre os bebês CRISPR a Steve Bannon, ex-estrategista-chefe da Casa Branca, confirmando que via a si próprio como distribuidor de informação estratégica para uma rede de poder muito além da ciência. Não era cientista, não era político, não era espião. Era todas essas coisas simultaneamente, operando na interseção onde ciência, política e inteligência convergem: o ponto cego que nenhuma instituição vigia, porque cada uma presume que a vigilância é responsabilidade da outra. [CONFIRMADO]
He Jiankui foi condenado a três anos de prisão na China. Saiu em abril de 2022 e abriu novo laboratório em Pequim. Lulu e Nana estão vivas, carregando em cada célula a marca de uma edição cujos efeitos de longo prazo ninguém conhece. São, involuntariamente, sujeitos de um experimento que durará toda a vida.
A lição geopolítica é inequívoca. Enquanto o Ocidente debatia limites éticos em painéis acadêmicos, a China produzia os resultados. Enquanto Bishop propunha clones a Epstein por videoconferência, He Jiankui já editava embriões em Shenzhen. A diferença não era de intenção. Era de velocidade. Bishop queria fazer em cinco anos o que He fez em dois. Church estava no “círculo de confiança” de ambos. E Epstein distribuía a informação como quem negocia armas: para quem pagar mais, ou para quem oferecer mais proteção.
A condenação de He Jiankui a três anos de prisão na China é, simultaneamente, punição e precedente. A China demonstrou que é possível editar embriões humanos e que a pena por fazê-lo é menor do que a pena por roubar um carro em muitos estados americanos. Para quem estiver disposto a pagar o custo, político e penal, a mensagem é clara: pode ser feito, já foi feito e a consequência é administrável. Lulu e Nana existem. São a prova viva de que a barreira foi rompida. E, como toda barreira rompida, não pode ser reconstruída.
10. O dinheiro sujo da eugenia
Há quem trate a obsessão de Epstein pela genética como excentricidade de bilionário. Uma forma sofisticada de filantropia excêntrica, como o colecionador de arte que patrocina artistas obscuros, ou o magnata da tecnologia que financia a busca por vida extraterrestre. Segundo essa leitura confortável, Epstein era um diletante com mais dinheiro do que juízo, fascinado por ciência como outros são fascinados por cavalos de corrida.
Essa leitura desafia a lógica de pelo menos quatro maneiras.
Primeiro: o artigo “Are We Ready for Eugenics?” (”Estamos Prontos para a Eugenia?”) foi enviado a Epstein acompanhado do comentário: “I think you’ll like it” (EFTA00666830). Quem envia material sobre eugenia a alguém dizendo “acho que você vai gostar” sabe que o destinatário tem interesse favorável e ativo. [CONFIRMADO]
Segundo: Epstein transferiu 20 mil dólares por via bancária à World Transhumanist Association em setembro de 2010 (EFTA01583862) e outros 100 mil para o salário de Ben Goertzel, vice-presidente da Humanity+, um dos maiores pesquisadores de inteligência artificial geral do mundo. Na mesma época, Bryan Bishop era diretor assistente de pesquisa da Humanity+. Oito anos depois, Bishop proporia a Epstein a criação de clones humanos. A conexão institucional antecedia em quase uma década as propostas mais radicais. O transhumanismo não era passatempo intelectual. Era investimento de longo prazo. Epstein não investia em ciência como quem compra arte: para apreciar. Investia como quem compra terra: para construir. [CONFIRMADO]
Terceiro: o dinheiro. E aqui a escala muda de dimensão. Leon Black, cofundador da Apollo Global Management e um dos homens mais ricos de Wall Street, pagou a Epstein mais de 170 milhões de dólares ao longo dos anos. Ninguém jamais explicou satisfatoriamente por que um gestor de fundos de investimento pagaria essa quantia a um pedófilo condenado. O eufemismo oficial é “consultoria fiscal e financeira”. Cento e setenta milhões de dólares em consultoria. É o tipo de explicação que só convence quem tem interesse em ser convencido.
Parte desse dinheiro ramificou-se em múltiplas direções científicas: 5 milhões para o Programa de Dinâmica Evolucionária de Nowak em Harvard (EFTA00587177), 2 milhões para o “Genomics and Synthetic Biology Research Fund” sob Church (EFTA00583251) e valores não declarados para outras linhas de pesquisa. O ciclo é claro: o tráfico sexual gerava receita. A receita financiava a ciência. A ciência conferia legitimidade. A legitimidade facilitava o acesso a mais vítimas e mais financiadores. Não é possível separar os dois mundos. O dinheiro que pagava Church tinha a mesma origem que pagava 200 dólares a meninas de 14 anos por “massagens”. A vítima do diário descreveu Leon Black mordendo-a até sangrar (EFTA02731427-28). O mesmo Leon Black que financiava pesquisa genômica em Harvard. [CONFIRMADO]
Quarto: a ciência era ferramenta de lavagem reputacional em sentido literal. Seth Lloyd coassinou artigo na Scientific American cujo redator fantasma pertencia à equipe de relações públicas de Epstein. Lloyd recebeu 225 mil dólares do pedófilo e visitou-o na prisão. A publicação científica funcionava como credencial de respeitabilidade: se a Scientific American publica, é ciência legítima. Se é ciência legítima, o financiador não pode ser tão mau assim. O raciocínio é circular, mas eficaz. [CONFIRMADO/PARCIAL]
A vítima do diário (EFTA02731373-95) captou isso com lucidez que nenhum comitê de bioética conseguiu articular: “That feels very Nazi like.” A eugenia americana não nasceu com Epstein. Nasceu no Eugenics Record Office de Cold Spring Harbor, financiado pela Carnegie e pelos Harriman. Indiana aprovou a primeira lei de esterilização compulsória do mundo em 1907. Até 1963, mais de 64 mil americanos foram esterilizados à força. A Alemanha nazista citou explicitamente a legislação americana como modelo para suas leis raciais. O Repository for Germinal Choice (1980), banco de esperma de ganhadores do Nobel, foi o precedente direto do plano de Epstein no Zorro Ranch, conforme o NYT.
A linha é contínua. Da esterilização compulsória de Indiana ao “designer baby” de Bishop, a lógica é a mesma: alguns humanos arrogam-se o direito de decidir quais outros humanos merecem existir. O que mudou foi a tecnologia (do bisturi ao CRISPR), o vocabulário (de “higiene racial” a “melhoramento genômico”) e o financiador (de fundações do início do século a bilionários do início do milênio). O impulso é idêntico.
A diferença crucial é que a eugenia do século XX foi desacreditada pelo Holocausto. A eugenia do século XXI renasce sob o manto da “saúde personalizada”, da “medicina de precisão” e do “melhoramento genômico”. Os termos são mais suaves. As intenções são as mesmas. E desta vez, não há governo centralizando o programa. Há bilionários descentralizados, operando em jurisdições permissivas, financiando laboratórios em países sem regulação, trocando emails com biohackers por videoconferência, dizendo “no rush” enquanto camundongos são modificados em algum laboratório cuja localização ninguém conhece.
A história da eugenia ensina uma lição que os progressistas tecnológicos preferem ignorar: toda vez que um grupo de pessoas poderosas decide que sabe o que é melhor para a espécie, o resultado é catástrofe. O Eugenics Record Office foi financiado pelas mesmas fundações que hoje financiam pesquisa genômica. A esterilização de 64 mil americanos foi aprovada por legisladores democraticamente eleitos. O programa nazista foi modelado na legislação americana. E o plano de Epstein no Zorro Ranch era, em termos estruturais, o herdeiro direto dessa tradição: um homem rico decidindo quem merece reproduzir-se, com a tecnologia mais avançada disponível e sem nenhum contrapeso institucional.
11. O artigo sobre eugenia que Epstein “ia gostar”
A coleção pessoal de Epstein continha material suficiente para compor o programa de um curso de pós-graduação em eugenia aplicada. O documento EFTA00605561 preservava a seguinte passagem:
> “Selective breeding can produce unusual plants and animals; applied biology can only increase our skills at ‘species engineering’. We will ultimately consider, perhaps will have to consider, species-engineering for ourselves.”
Engenharia de espécies para nós mesmos. A linguagem é deliberadamente neutra, quase resignada, mas a conclusão é inequívoca: a engenharia genética que hoje aplicamos a soja e salmão será, inevitavelmente, aplicada a seres humanos. O documento não pergunta “se”. Apenas “quando”. [CONFIRMADO]
Em novembro de 2010, o círculo de Epstein discutia “genius...and eugenics” (EFTA02414772), justapondo genialidade e seleção genética como se fossem termos complementares. Em setembro de 2018, Epstein perguntou diretamente a Mark Tramo: “Are rythms genetic?” (EFTA01021558). Se ritmos cerebrais são genéticos, podem ser selecionados. Se podem ser selecionados, podem ser “melhorados” por reprodução controlada. A inocência aparente da pergunta dissolve-se quando lembramos quem a faz e para quê. [CONFIRMADO]
Craig Venter, o homem que sequenciou o genoma humano e criou a primeira célula sintética da história, estava no circuito. Epstein convidou Bill Gates para um fim de semana na Arizona com “Steve Pinker, Craig Venter and a very selct group” (EFTA00967759). O erro de digitação, “selct” em vez de “select”, é autêntico. Epstein escrevia como quem negocia: com pressa e sem revisão. Mas a lista de convidados era cuidadosamente curada.
Em 2016, um artigo de Venter na revista Science, ainda sob embargo editorial, foi distribuído por Epstein a uma lista de elite que incluía Elon Musk, Mark Zuckerberg e membros da família Safra (EFTA00734558). Informação científica de fronteira, sob embargo, distribuída a bilionários antes da publicação. É o equivalente intelectual da informação privilegiada no mercado financeiro: quem recebe primeiro, lucra primeiro. Epstein não era cientista. Era intermediário: coletava informação de fronteira em jantares privados, distribuía-a seletivamente a bilionários e colhia, em troca, acesso, investimento e proteção social. O modelo de negócio era tão elegante quanto perverso: monetizar a curiosidade dos ricos com a pesquisa dos geniais, tudo financiado pela exploração dos vulneráveis. [CONFIRMADO]
A gametogênese in vitro, que Bishop descrevia em outubro de 2018 como a chave para “practically unlimited modifications” (EFTA01019549), avança hoje em múltiplos laboratórios ao redor do mundo. Se funcionar em humanos, elimina duas limitações fundamentais da reprodução: a idade (mulheres poderiam produzir óvulos indefinidamente) e o número (em vez de colher 10 a 20 óvulos por ciclo, seria possível produzir milhares). Combinada com CRISPR, a tecnologia permite selecionar, entre milhares de embriões, aqueles com as características genéticas desejadas. É a eugenia do século XXI: não pela eliminação dos “indesejáveis”, como no modelo nazista, mas pela seleção positiva dos “desejáveis” entre uma oferta virtualmente ilimitada de embriões.
Quando Bishop escreveu “the world will never be the same again, much less the future of the human species”, não estava exagerando. Estava descrevendo, com a lucidez gélida de quem planeja sem se importar, o momento em que a espécie humana deixaria de ser resultado da evolução natural e passaria a ser produto de engenharia. A diferença entre a seleção natural de Darwin e a seleção artificial de Epstein é que Darwin não cobrava 9,5 milhões de dólares pelo serviço.
O programa de Nowak em Harvard, chamado Programa de Dinâmica Evolucionária, estudava, com rigor matemático, as leis que governam a evolução de populações. Nowak desenvolveu modelos sobre como a cooperação emerge em grupos competitivos, como mutações se fixam em populações e como a seleção natural opera em diferentes escalas. A pesquisa é brilhante e legítima. Mas quando financiada por 6,5 milhões de dólares de Epstein e 5 milhões de Leon Black, a pergunta inevitável é: para que aplicação, exatamente, o financiador pretendia usar os resultados? Nowak nunca respondeu satisfatoriamente.
Epílogo: As perguntas que ficam
Há uma frase atribuída a G.K. Chesterton que merece citação: “Quando os homens param de acreditar em Deus, não é que passam a acreditar em nada; passam a acreditar em qualquer coisa.” Os cientistas do círculo de Epstein não acreditavam em Deus. Acreditavam na genômica, na longevidade, no transhumanismo, na melhoria da espécie, nos fundamentos da moral desvinculados de qualquer moral fundante. E, porque acreditavam em qualquer coisa, aceitaram o dinheiro de qualquer um.
O caso Epstein não é, no fundo, um caso criminal. É um caso civilizacional. É a demonstração empírica de que a ciência sem Deus, sem limites transcendentes, sem a noção de que o ser humano é criatura e não criador, torna-se inevitavelmente instrumento de predação. Não porque a ciência seja má, mas porque o homem sem freios é mau. E quando o homem sem freios tem dinheiro ilimitado, acesso a tecnologia de ponta e uma rede de proteção que inclui ex-presidentes, ex-primeiros-ministros e diretores de agências de inteligência, o resultado é o que os 384.890 documentos descrevem: a engenharia da espécie humana como projeto privado de um criminoso sexual.
O programa de Epstein não acabou em agosto de 2019. Apenas perdeu seu patrono. Os componentes permanecem. As células iPS podem ainda estar num freezer de Harvard. O esperma armazenado no California Cryobank pode ainda estar preservado. Os 30 kits de 23andMe geraram dados genômicos que existem em algum servidor. Os 29 kits cujo destino é desconhecido nunca foram rastreados. O “outro entregável” de Bishop jamais foi identificado. O laboratório no exterior que reportava “5% transfection efficiency” em camundongos nunca foi localizado. O Zorro Ranch nunca foi revistado. O estudo de coorte de comportamento sexual proposto por Wolfe não teve destino esclarecido. O conteúdo do relatório sobre neurotecnologia como arma permanece classificado.
O FBI nunca bateu àquela porta. Harvard devolveu 186 mil dólares remanescentes das doações de Epstein, mas ficou com os 6,5 milhões doados a Nowak, com os 5 milhões de Leon Black para o mesmo programa e com os fundos canalizados a Church via Georgarage. Devolveu o troco. Ficou com o grosso. George Church emitiu um “pedido de desculpas enfático” em 2019, sete anos depois de ter começado a aceitar o dinheiro. Joi Ito renunciou à direção do MIT Media Lab, mas apenas quando a imprensa tornou sua posição insustentável. Bill Gates admitiu “erro de julgamento”, mas não explicou por que o erro se repetiu dezenas de vezes ao longo de sete anos de jantares na residência de um criminoso sexual registrado. Eric Lander foi nomeado conselheiro científico de Biden e caiu por assédio. Lawrence Krauss caiu por assédio. O padrão é tão recorrente que parece seleção natural: o ecossistema Epstein atraía predadores.
Nem todos aceitaram. É importante registrar que a comunidade científica não se rendeu em massa ao charme e ao dinheiro de Epstein. Steven Pinker, psicólogo de Harvard mencionado em 24 documentos do corpus, declarou que encontrou Epstein em dois eventos acadêmicos nos anos 2000, mas que a relação nunca foi além disso. Outros cientistas, cujos nomes não aparecem nos documentos, podem ter sido abordados e recusado. A existência de quem recusou torna a escolha de quem aceitou mais significativa. Church, Nowak, Boyden, Lloyd, Minsky, Tramo, Krauss, Wolfe, Venter e os demais não foram vítimas de um esquema irresistível. Foram adultos que optaram por aceitar dinheiro e hospitalidade de um homem cuja condenação por crimes sexuais era pública desde 2008. A rede científica de Epstein não foi imposta. Foi voluntária.
A ciência não está contaminada porque um pedófilo a financiou. Está contaminada porque o sistema permitiu que um pedófilo condenado continuasse financiando-a, e os cientistas continuaram aceitando, porque o dinheiro não tem cheiro. Ou tem?
O New York Times descreveu as ideias de Epstein como “a modern-day version of eugenics.” A vítima que registrou “I am not your personal incubator!” disse a mesma coisa, apenas com mais honestidade e menos recursos retóricos. Entre o jornalista e a vítima, a diferença não era de informação. Era de pele no jogo: o jornalista escreveu uma reportagem, a vítima viveu a reportagem.
Robert Trivers, biólogo evolucionário de Rutgers e uma das maiores autoridades mundiais em autoengano, também era financiado por Epstein. A ironia de um especialista em autoengano aceitar dinheiro de um traficante sexual é quase literária. Trivers escreveu livros inteiros sobre como os seres humanos enganam-se a si mesmos para justificar ações que sabem ser erradas. Depois, demonstrou a teoria na própria vida.
A pergunta que encerra esta investigação não é “o que aconteceu?”, porque 384.890 documentos respondem a isso com detalhe suficiente para causar insônia. A pergunta é mais simples e mais terrível: quem assumiu o projeto?
As técnicas avançaram exponencialmente desde 2019. A gametogênese in vitro progride em múltiplos laboratórios ao redor do mundo. O CRISPR ficou mais preciso, mais barato e mais acessível. O gene drive pode alterar espécies inteiras em poucas gerações. A optogenética controla neurônios individuais com luz. He Jiankui saiu da prisão e abriu novo laboratório em Pequim. Bryan Bishop é hoje diretor de tecnologia de um banco — e mantém online, em diyhpl.us, não apenas o FAQ de designer babies e o catálogo de 6.863 modificações genéticas, mas um ecossistema inteiro de pesquisa habilitadora: instruções para criar ovários supranumerários (arquivo), uma proposta de seleção dirigida de famílias humanas para inteligência (arquivo), enciclopédias de técnicas de edição genética (arquivo) e métodos de delivery de terapia genética (arquivo), um programa de longevidade que vai de senolíticos a transplante de corpo inteiro (arquivo), um framework de reparo de dano genômico para alcançar “senescência negligenciável” (arquivo) e um manifesto transhumanista cujo “Princípio Proacionário” sustenta que as restrições à tecnologia é que devem se justificar, não o contrário (arquivo). O projeto não está num rancho isolado nem num laboratório ultramarino. Está na internet aberta, expandido, esperando o próximo financiador — e vai muito além do FAQ de designer babies. O mesmo wiki hospeda uma página dedicada a ovários supranumerários (arquivo), com instruções detalhadas, passo a passo, sobre como criar ovários extras em mamíferos: induzir um segundo genital ridge, travar identidade ovariana, capturar células germinativas primordiais via quimiotaxia CXCL12-CXCR4, fornecer contexto ductal e escalar o nicho somático. A motivação implícita é brutal: mais ovários significam mais óvulos, mais embriões para selecionar, mais matéria-prima para o projeto VelociHomo. Outra página, “directed evolution” (arquivo), propõe abertamente um “long-term human family selective breeding project for cognitive traits” — seleção dirigida de famílias humanas para inteligência, memória, longevidade e ciclos de sono reduzidos. É o programa Zorro Ranch traduzido para linguagem técnica, com referências a artigos científicos. Uma terceira página sobre longevidade (arquivo) cataloga intervenções de senolíticos a terapia genética e transplante de corpo inteiro, conectando-se diretamente à rede Thiel-Nygard-Victor que o dossiê documenta. E a página sobre transhumanismo (arquivo) articula a filosofia que sustenta tudo isso: o “Princípio Proacionário”, segundo o qual o ônus da prova recai não sobre quem desenvolve tecnologia potencialmente perigosa, mas sobre quem pretende restringi-la. É a base ideológica do “total deniability” proposto a Epstein: inovação sem limites regulatórios, ciência sem comitês de ética, engenharia genética humana como exercício de liberdade individual. Wolfe fundou a Metabiota, que depois foi absorvida pela Ginkgo Bioworks. E em algum lugar, talvez num freezer de universidade prestigiosa, as peças do quebra-cabeça de Epstein aguardam alguém com dinheiro, ambição e a mesma indiferença moral do seu criador original.
As crianças CRISPR estão vivas. Os documentos falam. Os mortos estão calados. As investigações não acontecem. Os laboratórios continuam funcionando. Os relatórios sobre neurotecnologia como arma estão em alguma gaveta do BGC3. O fundo de cem bilhões não desapareceu. O estudo de coorte de Wolfe não foi explicado. Os 29 kits de 23andMe cujo destino é desconhecido não foram rastreados. E as “meninas romenas” que Tarnita viu nos jantares científicos de Epstein nunca foram identificadas.
A promessa da ciência moderna é que o conhecimento liberta. O caso Epstein demonstra que, nas mãos erradas, o conhecimento escraviza. A diferença entre as duas possibilidades não é tecnológica. É moral. E a moral, como Epstein bem sabia ao incluí-la na sua lista de interesses, é o último obstáculo entre o homem e a onipotência. Remova-a, e o que sobra é um predador com CRISPR.
Há uma conexão que poucos ousam mencionar. O caso de João de Deus, no Brasil, espelha o programa de Epstein com diferenças apenas de sofisticação e escala. O médium goiano, condenado por dezenas de crimes sexuais, mantinha o que autoridades brasileiras descreveram como “baby farm”, fazenda de bebês, na qual mulheres em cativeiro eram engravidadas para produzir crianças destinadas à venda. O Zorro Ranch de Epstein, com seu contrato de criopreservação, seus kits de DNA sob nome falso e suas cláusulas testamentárias para filhos por gestação substitutiva, era a versão de primeiro mundo do mesmo modelo: produção planificada de seres humanos fora de qualquer controle estatal. A diferença é que João de Deus operava num ambiente de pobreza rural, e Epstein operava num ambiente de riqueza extrema com acesso a CRISPR, células iPS e 20 dos maiores cientistas do mundo. A escala do dano potencial é proporcionalmente diferente.
O escritor C.S. Lewis escreveu que “o que chamamos de poder do homem sobre a natureza é, na verdade, o poder de alguns homens sobre outros homens, tendo a natureza como instrumento.” Lewis não conhecia CRISPR, não sabia o que era optogenética e jamais ouvira falar de gametogênese in vitro. Mas descreveu, com a precisão de quem lê o futuro pelo caráter humano, exatamente o que os documentos de Epstein revelam: a ciência como instrumento de dominação. Não a dominação do ignorante pelo sábio, que ao menos teria a desculpa da pedagogia. A dominação do fraco pelo poderoso, que não tem desculpa nenhuma.
Ninguém diz “no rush”.
Mas ninguém tem pressa de investigar.
E a cada dia que passa sem investigação, a tecnologia avança, os preços caem, o acesso se democratiza e a barreira entre o possível e o realizado se torna mais fina. Quando alguém finalmente tiver pressa, pode ser tarde demais.
Escala de Classificação
CONFIRMADO — Documento primário identificado no corpus (emails, contratos, registros). PARCIAL — Evidência indireta ou parcialmente corroborada. ALEGADO — Fonte confiável sem documento primário localizado. DEBUNKED — Investigado e refutado pela evidência.
Documentos-chave citados
Os 42 documentos primários referenciados neste artigo, organizados por tema:
A proposta de clonagem e designer babies — diyhpl.us/wiki/designer-baby-faq (FAQ completo do projeto Heritage Molecular, arquivo); diyhpl.us/wiki/genetic-modifications (catálogo de 6.863 modificações genéticas, arquivo); diyhpl.us/wiki/germline-genetic-engineering-technology (plataforma VelociHomo); diyhpl.us/wiki/extra_ovaries (instruções para ovários supranumerários, arquivo); diyhpl.us/wiki/directed_evolution (seleção dirigida de humanos para inteligência e longevidade, arquivo); diyhpl.us/wiki/selective_breeding (seleção artificial); diyhpl.us/wiki/transhumanism (manifesto transhumanista e Princípio Proacionário, arquivo); diyhpl.us/wiki/longevity (intervenções anti-aging, senolíticos, transplante de corpo, arquivo); diyhpl.us/wiki/gene-editing (enciclopédia de técnicas CRISPR/TALENs/ZFNs, arquivo); diyhpl.us/wiki/gene-therapy (métodos de delivery genético: AAV, nanopartículas, eletroporação, arquivo); diyhpl.us/wiki/DNA_damage_repair (reparo de dano genômico e “doom loop” do envelhecimento, arquivo); diyhpl.us página principal (arquivo); EFTA00478987 (chamada appear.in/taxmastergenetics, 2 ago. 2018); EFTA02600038 (Hill oferece contravigilância “nível Snowden”); EFTA01004795 (proposta formal de Bishop, “the other deliverable”, “deniability”); EFTA01004839 (”absolute anonymity... brand the child as a freak”); EFTA01003966 (planilha “designer baby and human cloning company”, US$ 9,5M); EFTA01019439 (”self-experimentation is not explicitly banned”); EFTA01019549 (Japão legaliza edição embrionária, “unlimited modifications”); EFTA00804855 (”tetraploid complementation... we will try it out”); EFTA01015526 (Bishop: “5% transfection efficiency” em laboratório no exterior); EFTA01015238 (transcrição ao vivo de He Jiankui enviada a Epstein).
Zorro Ranch e programa reprodutivo — EFTA00069900 (NYT: plano de inseminar 20 mulheres, cabeça e pênis congelados); EFTA00313936 (contrato California Cryobank com cláusulas post-mortem); EFTA00454054 (30 kits 23andMe sob nome falso “Sultan Binsulayem”); EFTA01127977 (orçamento de US$ 2M/ano em fertilização e criopreservação); EFTA00074130 (5 DVDs reportados ao SDNY, bebê enterrado, corpos de meninas); EFTA02731373-95 (diário da vítima: “Superior Gene Pool”, “Nazi like”, “I am not your personal incubator!”).
Rede científica e financiamento — EFTA00732645 (lista de 20+ cientistas financiados por Epstein); EFTA00583251 (Leon Black, US$ 2M para fundo de genômica/Church em Harvard); EFTA00587177 (Leon Black, US$ 5M para Programa de Dinâmica Evolucionária/Nowak); EFTA00679322 (Epstein verifica status fiscal do instituto de Tramo); EFTA02443029 (Epstein veta estagiário de Tramo); EFTA01583862 (US$ 20.000 para World Transhumanist Association); EFTA02437581 (Epstein descreve seu portfólio: “quantum computing, string theory, loop quantum gravity, chinese chi...”).
Gates, pandemias e virologia — EFTA02389903 (email trilateral Gates-Nikolic-Epstein: Ebola, “pandemic” como área-chave); EFTA02381427 (BGC3: “strain pandemic simulation” + “neurotechnologies as weapons”); EFTA02378487 (Wolfe envia questionários de comportamento sexual a Epstein); EFTA02433195 (Epstein oferece apartamento e carro a Wolfe na Flórida).
Eugenia e lavagem reputacional — EFTA00666830 (”Are We Ready for Eugenics?”, “I think you’ll like it”); EFTA00605561 (”species-engineering for ourselves”); EFTA02414772 (discussão sobre “genius... and eugenics”); EFTA01021558 (Epstein a Tramo: “are rythms genetic?”); EFTA00734558 (artigo pré-embargo de Venter distribuído à rede de elite); EFTA00967759 (convite a Gates: “Craig Venter and a very selct group”).
Controle mental e escopolamina — EFTA00865569 (Verglas encaminha artigo sobre escopolamina); EFTA00163098 (vítima: “I gave him a LOT of that Scopolamine”); EFTA00154698 (vítima: “hazy like I was drugged or under hypnosis”); EFTA00673252 (artigo de Deirdre Barrett sobre hipnose entregue a Epstein).
Longevidade e sangue jovem — EFTA00353065 (PDF “Rejuvenate” enviado a Epstein); EFTA02457661 (”Peter Thiel, Address for sweaters”, Thiel Capital, US$ 40M).
Testemunhos das vítimas — EFTA02731425 (vítima sobre Larry Summers: “fucking disgusting”); EFTA02731427-28 (vítima sobre Leon Black: mordida, sangue no carpete).
Nota metodológica
As contagens de documentos citadas neste artigo (por exemplo, “3.095 hits para Krauss”) referem-se a ocorrências no índice Elasticsearch do corpus de 384.890 documentos liberados pelo DOJ. Contagens altas não implicam, necessariamente, envolvimento direto com Epstein: um nome pode aparecer em artigos de imprensa, listas de contatos ou documentos compartilhados por terceiros. No entanto, contagens muito elevadas (acima de 500) são indicativas de relação substantiva, especialmente quando corroboradas por correspondência direta preservada no corpus.
A análise de grafo (Neo4j) mede co-ocorrência documental: dois nomes que aparecem no mesmo documento são contados como “par conectado”. O grafo totalmente conectado dos dez cientistas principais significa que cada par compartilha ao menos um documento, não necessariamente que todos se encontraram pessoalmente. As contagens mais elevadas (como as 1.884 co-ocorrências de Nikolic com Epstein) são, porém, indicativas de relação operacional real, confirmada por correspondência direta.
Nenhuma afirmação neste artigo constitui acusação criminal. O objetivo é estritamente jornalístico: documentar relações verificáveis, levantar perguntas que merecem investigação e preservar, para o registro público, informações que de outra forma se perderiam na vastidão de um acervo de quase 400 mil documentos.
Investigação: Leonardo Dias / Arvor
Metodologia: Elasticsearch (384.890 documentos) + Neo4j (1,3M nós, 5,5M relações) + fontes públicas
Classificação: Investigação Jornalística
25 de fevereiro de 2026




