O diabo é um fingidor
Às 17h01 de um domingo de outubro, numa sala que ninguém viu, eu acendi o único charuto que me permito por ciclo eleitoral. Não fumo por vício. Fumo porque a fumaça é a forma mais honesta de escuridão que os homens já inventaram: ela sobe, ocupa o teto, encobre a lâmpada e ninguém acha estranho. Na eleição é a mesma coisa.
Começo pelo fim porque o fim é o único lugar onde eu sempre estive. Os anjos começam pelo princípio, que é onde está o Verbo. Eu fico na última página, junto do carimbo.
Apresento-me, embora vocês já me conheçam de nome e eu os conheça de CPF. Sou aquele a quem chamaram Portador da Luz, título que guardo como um velho general guarda a farda de uma guerra perdida: limpa, passada, inútil. Fui o mais belo. Hoje sou o mais bem informado, que é o que resta da beleza quando ela apodrece. Tenho escritório em todos os países e residência fixa em nenhum, porque a residência fixa exige endereço, e endereço exige que alguém possa bater à porta.
Um poeta português escreveu que o poeta é um fingidor, e que finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. Ele não sabia, mas estava fazendo o meu retrato. Eu também finjo, e finjo tão completamente que chega a fingir que é mentira a verdade que deveras conto. Por isso aviso logo na primeira página, como as bulas avisam dos efeitos colaterais: tudo o que direi aqui é verdade, exceto o que for mentira, e vocês não saberão qual é qual. Esse é o método. Não é defeito do narrador. É o produto.
Um russo epiléptico, que perdia dinheiro na roleta e ganhava almas no papel, me descreveu certa vez como um cavalheiro de meia-idade, roupa de bom corte mas gasta, ar de parasita que vive de jantar na casa dos outros. Ivan Karamázov, coitado, achou que eu era alucinação. Ofendi-me por cento e quarenta anos. Depois entendi que Dostoiévski me fez um favor. O diabo que parece pobre, mal-vestido e meio ridículo é o diabo em quem ninguém acredita, e o diabo em quem ninguém acredita é o único que trabalha em paz. Desde então só me visto de cinza, falo baixo e tenho cara de técnico de informática. Ninguém teme um técnico de informática. Todos lhe entregam a senha.
Escrevo estas memórias porque no inferno a internet é péssima, e escrever à mão é a única coisa que fazemos sem lag. Escrevo também por vaidade, que é o meu pecado de estimação, o primeiro e o mais bonito. E escrevo, confesso, porque desta vez aconteceu uma coisa que me tirou o sono, se é que um anjo caído dorme. Aconteceu que eu ganhei. E, ganhando, desconfiei.
Vou explicar. Mas devagar, porque a pressa é virtude de quem espera o resultado, e eu nunca espero o resultado. Eu o administro.
Distopil, ou o país que copia a si mesmo
O país desta história se chama Distopil. Não procurem no mapa. Ele não tem habitat; tem apenas clima, e o clima é sempre o mesmo: quente por fora, gelado por dentro, com pancadas de liminar no fim da tarde. Distopil tem praias, florestas, 158 milhões de eleitores aptos, um time de futebol que já foi bom e uma população que acredita em tudo, exceto naquilo que vê com os próprios olhos. É o país ideal para quem, como eu, trabalha com o invisível.
Ao norte de Distopil fica Distopil do Norte, que é a mesma coisa com mais petróleo e menos vergonha. Eu tenho por Distopil do Norte o carinho que o escultor tem pela primeira estátua: torta, mal-acabada, mas foi nela que aprendi o ofício.
Há onze anos, em dezembro de 2015, Distopil do Norte fez uma eleição para o parlamento e a oposição ganhou dois terços das cadeiras. Fiquei furioso por uma semana. Depois achei graça. Porque o caudilho de lá, discípulo aplicado, não precisou fraudar a eleição. Bastou fraudar o depois. O tribunal supremo do país suspendeu deputados, o parlamento eleito foi tornado irrelevante e, em 2017, inventaram uma Assembleia Constituinte para fazer o trabalho que o povo não quis fazer. Na votação dessa Constituinte, o próprio fabricante das urnas, um senhor chamado Antonio Mugica, foi a Londres e disse aos jornalistas que o comparecimento tinha sido manipulado em pelo menos 1 milhão de votos. Imagine a cena. O fornecedor da máquina reclamando que a máquina mentiu. É como o fabricante de facas indo à delegacia denunciar o açougueiro. Ri por um mês.
Em 2024 Distopil do Norte repetiu o número com mais desenvoltura. O conselho eleitoral proclamou o caudilho vencedor na madrugada sem publicar as atas. A oposição, gente teimosa e com celular, fotografou mais de 80% dos boletins seção por seção e mostrou que o outro candidato, um diplomata aposentado de voz mansa chamado Edmundo, tinha vencido com folga. Não adiantou. Edmundo pegou um avião para a Espanha em setembro, com ordem de prisão nas costas e o passaporte ainda quente. A líder da oposição ficou escondida no próprio país e ganhou o Nobel da Paz em 2025, prêmio que considero o mais engraçado da Terra, pois é dado a quem consegue sobreviver aos meus alunos.
E então, em 3 de janeiro de 2026, o Imperador Laranja do Norte mandou buscar o caudilho em casa, como quem manda buscar uma pizza, e o levou para uma cela em Nova York. Meu melhor aluno, algemado num avião americano. Confesso que senti algo próximo da tristeza, e depois algo próximo do prazer, que no meu caso são a mesma coisa vista de ângulos diferentes. Porque eu humilho os meus. Essa é a ordem que recebi, e falarei dela mais tarde, quando tiver coragem. Por ora digam apenas que eu não choro meus discípulos. Eu os coleciono.
Distopil, o de baixo, olhava tudo isso pela televisão e achava que era novela estrangeira. É a especialidade do país: assistir ao próprio futuro dublado em espanhol e achar exótico.
Há doze anos, em 2014, Distopil teve o seu primeiro ensaio. Uma presidente de penteado firme venceu por pouco um mineiro de sobrenome de bisavô, e o mineiro, que ninguém jamais acusou de valentia, pediu uma auditoria. Os auditores do partido dele trabalharam um ano, escreveram 223 páginas e entregaram ao país, em 4 de novembro de 2015, uma conclusão que eu mandei emoldurar e pendurar na minha antessala. O líder do partido disse que não podiam afirmar que houve fraude, “não porque o sistema é inviolável, e sim porque é inauditável”. Leiam de novo. É a frase mais bonita já escrita sobre mim por um tucano. Não disseram que eu estava lá. Disseram que, se eu estivesse, ninguém saberia. Não há elogio maior para quem vive no escuro.
Há dez anos, em 2016, a mesma presidente foi derrubada pelo parlamento por causa de umas pedaladas contábeis, e o país inteiro descobriu que o voto pode ser revogado por outros meios, desde que os meios usem gravata. Gostei da lição, embora ela não fosse minha. Foi a primeira vez que vi Distopil aprender que a urna é só o começo da conversa.
Tudo isso para dizer que Distopil não inventa nada. Copia. Copia o Norte, copia a si mesmo, copia o próprio erro com a fidelidade de um monge copista que não sabe ler. E é por isso que eu gosto do lugar e, ao mesmo tempo, fico possesso com ele. Um país que copia é previsível. E um país previsível, um dia, aprende a prever.
O conselho
Convoquei o conselho numa terça-feira de agosto, que no inferno é sempre terça-feira. Vieram todos, porque eu sou chefe e porque o buffet é bom.
Leviatã chegou primeiro, como sempre, e ocupou três cadeiras. Leviatã é o monstro do mar que Jó descreveu e que um inglês de peruca transformou em teoria do Estado. Não há poder sobre a terra que se compare a ele; foi feito para não ter medo. Ele adora carimbos, gabinetes refrigerados, decisões monocráticas publicadas às sextas-feiras e inquéritos que não acabam. Fala pouco. Quando fala, é por meio de portaria.
Mamon veio de terno risca de giz e com um banco no bolso. No ano anterior tinha patrocinado uma instituição financeira de Distopil cujo dono era recebido em palácio fora da agenda e cuja liquidação, em novembro de 2025, revelou que o dinheiro tinha andado por toda parte, inclusive por onde ninguém deveria andar. Mamon é ecumênico. Pagou consultoria a amigos de um lado e mandou dinheiro para um filme sobre o patriarca do outro lado. R$ 61 milhões, entre fevereiro e maio de 2025, para um épico chamado Dark Horse. Mamon me mostrou o contrato com orgulho de pai: US$ 24 milhões em 14 parcelas. “Eu financio o herói e o vilão”, disse ele, “e depois vendo os ingressos para os dois.” Dei-lhe um tapinha nas costas. Ele é meu contador desde a Babilônia.
Belzebu entrou zumbindo. É o Senhor das Moscas, e há quinze anos mudou de ramo: deixou as moscas e passou a cuidar dos encaminhamentos. Uma mosca e um encaminhamento de WhatsApp têm a mesma natureza. Ambos pousam em tudo, ambos levam doença de um prato a outro, ambos se reproduzem sem que ninguém autorize. Belzebu chegou com uma planilha. Sempre chega com uma planilha.
Asmodeus, o da luxúria, sentou-se com as pernas abertas e o celular na mão. Lilith veio de vestido vermelho e não sentou: ficou de pé encostada na parede, porque Lilith gosta de ser olhada de baixo para cima. Baal pediu um prato de carne e um prato de ouro. Moloch, que não come nada, trouxe um bebê de pelúcia e o colocou na mesa, só para incomodar. Belial, o sem lei, chegou atrasado e armado, como chegam os chefes de facção. Mefistófeles, o mais culto, ficou num canto lendo Goethe em voz baixa e fazendo anotações de marketing.
“Senhores”, disse eu, “temos eleição em Distopil.”
Belzebu ergueu a planilha. “Primeiro turno em 4 de outubro, segundo em 25. Dois candidatos principais. De um lado o Velho Operário, 80 anos, faz 81 dois dias depois do segundo turno. Do outro, o Senador Filho, 45 anos, primogênito político de um ex-presidente que está em prisão domiciliar com tornozeleira.”
“E o partido do Velho?”
“O Partido dos Trabalhadores”, disse Belzebu.
“Não”, corrigi. “Lá embaixo, entre os que não gostam dele, chamam de Partido da Perda Total. Chamem assim. Eu gosto de nomes que resumem.”
Mefistófeles levantou os olhos do livro. “Perda Total é como a seguradora classifica o carro que bateu tanto que não compensa consertar.”
“Exato. E o que a seguradora faz com o carro de perda total?”
“Vende como sucata.”
“E quem compra sucata?”
Ninguém respondeu. Eu respondi: “Nós. Sempre nós. Compramos barato o que os homens destruíram e revendemos como novidade. É o nosso modelo de negócio desde o Éden.”
Leviatã se mexeu nas três cadeiras. “Qual é o lado?”
Aí chegamos ao ponto que os teólogos de botequim nunca entendem. Eles imaginam que o diabo tem candidato. Que eu torço como torcedor de arquibancada, com camisa e bandeira. Que bobagem. Eu não tenho lado. Eu tenho método. Trabalho com os dois porque os dois são feitos do mesmo barro, e eu conheço o barro desde antes de ele ganhar sopro. O que me interessa não é quem ganha. É que ninguém consiga provar como ganhou.
“O lado”, disse eu, “é o escuro. Quem ganhar, ganha no escuro. Quem perder, perde no escuro. E o povo vai dormir sem saber se foi roubado ou se apenas perdeu, e essa dúvida, senhores, é a coisa mais valiosa que se pode extrair de uma nação. Vale mais que petróleo. A dúvida é renovável.”
Moloch empurrou o bebê de pelúcia para o centro da mesa. Lilith riu. Asmodeus nem levantou os olhos do celular. Mefistófeles anotou “a dúvida é renovável” e disse que ia usar num slogan.
Dividimos o trabalho em quatro círculos, como Dante dividia os seus, só que ao contrário: os de Dante desciam, os meus sobem, da rua até o tribunal. O primeiro círculo seria a entrada, tudo o que acontece antes de o voto cair na urna. O segundo, a urna em si. O terceiro, a saída, os arquivos, as mídias, a totalização. O quarto, o depois, que é onde mora Leviatã e onde a eleição verdadeira acontece.
E havia uma regra, uma só, que repeti três vezes, como faziam os profetas quando queriam ser lembrados: onde houver anjo, recuem.
“Anjo?”, perguntou Belial, com a mão no coldre.
“Fiscal”, expliquei. “Mesário honesto. Velha de óculos que fica até o fim. Gente que fotografa o boletim e cola no grupo da família. Eleitor que pergunta. Onde houver gente olhando, recuem. Nós não ganhamos onde há luz. Nunca ganhamos. Esperamos a luz apagar.”
Belial cuspiu no chão. “E se a luz não apagar?”
“Então a gente apaga.”
Primeiro círculo: a entrada
A mentira é a minha língua materna. Os homens precisam aprendê-la; eu já nasci falando. Mas há um erro que os amadores cometem, e que meus estagiários repetem a cada ciclo, que é achar que a mentira eficiente é a mentira grande. Não é. A mentira grande é para os tolos e para os ditadores sem imaginação. A mentira eficiente é a verdade com um centímetro a menos. Ou a verdade com a ordem trocada. Ou a verdade publicada quatro dias antes da eleição, quando já não há tempo de alguém ler a segunda página.
O segundo turno de Distopil foi a minha obra-prima nesse gênero, e devo confessar que trabalhei pouco. Os candidatos trabalharam por mim. Há eleições em que o diabo precisa suar. Nesta, eu fiquei de chinelo, assistindo, como o pai que vê o filho fazer a lição sozinho e sente um orgulho meio triste.
Vejam a semana de 18 a 25 de outubro. Debate numa emissora, domingo à noite. O Senador Filho, querendo mostrar que o Velho Operário era o candidato dos criminosos, disse um número verdadeiro: nas seções eleitorais instaladas em presídios, 72,6% dos 11.190 votos válidos tinham ido para o Velho. Era verdade. Era verdade com um centímetro a menos, porque só votam os presos provisórios, os que ainda não foram condenados, e portanto o número diz menos do que parece. Mas o Velho, que conhece o ofício há 50 anos, não perdeu tempo explicando o centímetro. Respondeu: “Até do seu pai”. E a plateia riu. Repare na beleza da coisa. Um número verdadeiro virou piada, a piada virou manchete, e a manchete virou memória. Ninguém lembra do 72,6%. Todos lembram do pai.
No mesmo debate o Senador Filho tentou se aproximar do adversário, num gesto que ele julgava de cortesia e que a câmera registrou como invasão. O Velho recuou e disse: “Quero distância de miliciano”. Duas semanas antes, em 28 de setembro, o tribunal eleitoral tinha mandado o site do próprio partido do Velho apagar exatamente essa associação, porque não existe um processo, um único, que ligue o Senador Filho a milícia. Não importou. O tribunal mandou apagar do site; o Velho disse na televisão, para 20 milhões. É isso o que eu chamo de economia de escala. Uma ordem judicial vale para uma página. Uma frase em horário nobre vale para uma geração.
Mas não me entendam mal. Eu não estava só do lado do Velho. Na mesma noite, as agências de checagem marcaram cinco frases do Senador Filho como falsas ou insustentáveis, entre elas a de que o filho do Velho teria batido na própria mulher, coisa que se referia a um inquérito encerrado sem indiciamento em julho de 2024. Fiquei encantado. Uma acusação falsa contra a família de quem acusa a família do outro de coisas falsas. É uma boneca russa de calúnias. Abre uma, tem outra dentro. Abre a outra, tem uma menor. No centro, bem pequenininho, mora eu.
Na quarta-feira, 21 de outubro, quatro dias antes da eleição, as coisas ficaram ainda melhores. Uma revista paulistana de reportagens longas publicou que, em 17 de julho de 2020, em plena pandemia, o Senador Filho tinha participado de um passeio de barco no Lago Paranoá com lobistas de uma empresa de vacinas e com profissionais do sexo, e que teria ganhado um Rolex. A reportagem tinha uma testemunha, documentos de uma comissão parlamentar, registros de voo e uma transação de R$ 1.949. Não tinha processo. No mesmo dia, um grande jornal publicou o relatório da Polícia Federal sobre a busca feita em 7 de agosto em dois hangares do aeroporto da capital, ligados a um advogado amigo do Senador: sala oculta, máquina de contar cédulas, malas vazias, quatro aeronaves apreendidas. E nenhum dinheiro. O relatório dizia: nenhum dinheiro. O Senador não era alvo. O site do partido do Velho publicou: “Dinheiro escondido em hangar”.
Deixem-me parar aqui um momento, porque isto é teologia aplicada e merece atenção. O relatório diz uma coisa. A manchete diz o oposto. E o leitor acredita na manchete, não por burrice, mas por cansaço. Ninguém tem tempo de ler um relatório da Polícia Federal às 22h de uma quarta-feira, depois de pegar dois ônibus e esquentar a janta. A mentira não precisa vencer a verdade. Precisa apenas chegar antes e ser mais curta. Um hangar sem dinheiro, com uma máquina de contar dinheiro, é uma imagem tão sugestiva que a ausência do dinheiro vira prova de que o dinheiro foi escondido. É a lógica do inquisidor: se a bruxa afunda, é inocente; se boia, é culpada. Em ambos os casos, ela morre.
E Mamon? Mamon, do lado de lá, também não descansava. Porque o mesmo banqueiro preso em novembro de 2025, aquele que pagou R$ 61 milhões pelo filme sobre o pai do Senador, tinha sido recebido no palácio do Velho em 4 de dezembro de 2024, fora da agenda oficial, ao lado de um ex-ministro que era consultor do banco e do economista que o Velho estava indicando para o Banco Central naquela mesma semana. As duas campanhas tinham Mamon no bolso. As duas acusavam a outra de ter Mamon no bolso. E as duas tinham razão. Isso é o que eu mais admiro em Distopil: o país não se divide entre honestos e corruptos. Divide-se entre quem é pego em agosto e quem é pego em outubro.
Na véspera do debate final, a campanha do Senador convidou para a plateia a ex-companheira do coordenador digital do Velho, uma prefeita do interior de Minas que obteve contra ele uma medida protetiva da Lei Maria da Penha. O coordenador, um deputado de topete e microfone, não foi ao debate. A campanha do Velho disse que a ida dele “nunca esteve previsto”. Eu conheço essa frase. É a frase que se diz quando algo estava previsto.
Lilith passou a semana inteira gargalhando. Para ela, uma eleição em que se discute barco com prostituta, foto íntima, medida protetiva, Rolex, banqueiro e prisão domiciliar é uma eleição em que ninguém discute esgoto. Distopil tem 90 milhões de pessoas sem coleta de esgoto. Ninguém falou disso em horário nobre por mais de 40 segundos. “Enquanto eles discutem quem dormiu com quem”, disse Lilith, “ninguém pergunta onde vai parar a merda.” E ela tinha razão. A merda vai parar no rio. E o rio vai parar no mar, onde mora Leviatã.
MK-Ultra em versão SPAM
Os americanos, que adoram nomes compridos para coisas sujas, fizeram nos anos 1950 um programa chamado MK-Ultra. Davam LSD a gente que não sabia, tentavam apagar memórias, programar comportamentos, construir pessoas por dentro. Foi um fracasso científico e um sucesso conceitual. Eu acompanhei com interesse. Achei os métodos toscos. Ácido lisérgico, choque elétrico, privação de sono. Coisa de amador. Eu já fazia aquilo há milênios com uma ferramenta muito mais simples: a repetição.
Belzebu, o Senhor das Moscas, entendeu antes de todos que o século XXI tinha me entregado o maior laboratório de controle mental da história, e que ele cabe no bolso de cada eleitor. Não é preciso drogar ninguém. Basta mandar a mesma frase 40 vezes por dia, de 40 remetentes diferentes, todos com foto de família no perfil. Na quadragésima vez, a frase deixa de ser uma afirmação e passa a ser o ambiente. Ninguém discute o ar que respira.
O canal do Velho no aplicativo de mensagens, administrado pelo deputado de topete, era uma colmeia digna de Belzebu. Tinha 53 mil inscritos em 5 de outubro. Em 11 de outubro tinha 3,33 milhões. Na semana do dia 20, segundo um jornal de Pernambuco, cerca de 10 milhões. Nenhum produto da história do comércio cresceu tão depressa, nem a Coca-Cola, nem a cocaína. A campanha do Senador Filho entregou ao tribunal um dossiê contando o que saía daquela colmeia entre 8 de setembro e 11 de outubro: 1.156 mensagens, 199 delas classificadas como “ordens à tropa”, 8,4 milhões de encaminhamentos, 480 exclusões, 22 publicações apontadas como falsas, entre elas a de que um benefício pago a idosos pobres e deficientes seria extinto e a de que a padroeira de Distopil perderia o título de padroeira.
Leiam devagar a última. A padroeira perderia o título. Eu não teria pensado nisso. Juro pelo que me resta de honra. É genial. É uma mentira que ninguém pode verificar porque ninguém sabe como se tira o título de uma santa, e que ninguém pode ignorar porque toca a avó de cada eleitor. Belzebu me mostrou a mensagem com os olhos úmidos. “Não fui eu”, disse ele. “Foi um humano.” Eu o consolei. Os humanos às vezes nos superam. Faz parte do plano. O aprendiz que supera o mestre é a glória do mestre, e eu sou mestre de todos.
Atenção à mecânica, porque os anjos do outro lado também tinham as suas colmeias, e Belzebu cuidava de todas. O dossiê era da campanha do Senador. As mensagens eram do canal do Velho. Mas nas redes do Senador circulavam outras moscas, outras frases, outras padroeiras. Em 21 de outubro, às 20h41, o deputado de topete publicou a pergunta “Quem é Mariana?” e impulsionou uma hashtag sobre a antiga chefe de gabinete do Senador. Do outro lado, cem perfis responderam com outra hashtag. Duas campanhas entraram com ações no tribunal pedindo a cassação uma da outra por uso de perfis falsos e inteligência artificial, quatro dias antes da eleição, cada uma acusando a outra do que fazia. Belzebu cobrou por hora dos dois lados.
E o tribunal? Ah, o tribunal. Em 11 de outubro, um ministro suspendeu o canal do deputado. Horas depois, outro ministro reverteu a suspensão. O canal ficou fora do ar menos tempo do que leva para assar um bolo. Eu adoro liminares. A liminar é a forma jurídica da maré: sobe, desce, molha tudo e não deixa marca. Quem dela se beneficia não sabe se ganhou. Quem dela se prejudica não sabe se perdeu. E no fim fica o sal.
O que é, então, o MK-Ultra em versão SPAM? É isto: não convencer ninguém de nada, mas cansar todos de tudo. O eleitor de Distopil, no dia 25 de outubro, não acreditava em nenhum dos dois candidatos. Acreditava apenas que o outro era pior. A campanha inteira se reduziu a uma corrida de rejeições, e o vencedor seria aquele que conseguisse ser odiado por 1 eleitor a menos. Isso eu chamo de democracia de segunda mão. O voto deixa de ser escolha e vira vômito. O eleitor não elege; expele.
Mefistófeles, que lê Goethe, me corrigiu num ponto. Disse que o controle mental verdadeiro não é fazer as pessoas acreditarem na mentira. É fazê-las desistir da ideia de que existe verdade. Quando ninguém acredita em nada, qualquer coisa serve. E quando qualquer coisa serve, o resultado da urna pode ser qualquer um, e todos aceitarão, porque ninguém mais tem critério para não aceitar.
Eu lhe disse que estava certo, mas que se esquecia de um detalhe. Quando ninguém acredita em nada, as pessoas também não acreditam no resultado. E aí o critério volta. Volta pela porta dos fundos, desconfiado, de chinelo, perguntando quem contou os votos. Essa é a falha do meu sistema. A dúvida que eu planto para paralisar também pode, se regada por mãos erradas, virar pergunta. E pergunta é luz.
A bisavó, os mesários e os fiscais que votam por quem não veio
Agora a parte que os moralistas gostam de ler, porque é a parte em que eles se sentem superiores: a fraude de balcão. A pequena, a manual, a artesanal. Tenho carinho por ela como o chef estrelado tem carinho pelo pastel de feira da infância.
Asmodeus se encarregou da bisavó. Havia, numa cidade do interior de Distopil cujo nome não importa porque é o nome de todas, uma senhora de 97 anos, internada há três semanas, com sonda, que não reconhecia mais os netos e chamava o médico pelo nome do falecido marido. O neto, militante de partido, a vestiu, a pôs numa cadeira de rodas, a levou à escola estadual, a colocou diante da urna e segurou a mão dela sobre o teclado. Ela apertou o que a mão do neto mandou. A biometria reconheceu o dedo. O mesário, cansado, olhou para o outro lado. A senhora morreu na quinta-feira seguinte e o neto postou: “Ela fez questão de votar”.
Fiquei comovido. Não pelo voto, que é um só e não muda nada. Pela frase. “Ela fez questão.” Isso é teologia invertida. O neto pegou o último resto de vontade de uma alma, que era a de ficar em paz, e transformou em vontade política. Eu não faria melhor. Mas atenção: em outra escola, do outro lado da mesma rua, um outro neto tentou a mesma coisa com outra bisavó, e lá havia uma fiscal de partido, uma senhora de óculos que ninguém notava, que se levantou, pediu a palavra, chamou o presidente da seção e lembrou que ninguém pode acompanhar o eleitor na cabine, salvo deficiência declarada, e que acompanhante não aperta tecla por ninguém. A bisavó voltou para casa sem votar. O neto xingou. A fiscal anotou na ata. Asmodeus voltou para o inferno de cara amarrada.
É sempre assim. Onde há anjo, nós recuamos.
Belial cuidou dos mesários. Há seções em Distopil, poucas, mas há, em que o eleitor não vai, o mesário sabe que ele não vai, o fiscal do partido do lugar sabe que ele não vai, e todos sabem que ninguém de fora vai aparecer até as 17h. Nessas seções, de cidades com 4 mil eleitores, onde o prefeito é dono da farmácia e da rádio, a tentação é grande. A biometria existe, mas a biometria às vezes “não lê”, e quando não lê o eleitor pode ser liberado com documento. E documento, na roça, se empresta. O fiscal de partido, que deveria ser anjo, às vezes é sobrinho do prefeito. Os mesários, que deveriam ser anjos, às vezes são funcionários da prefeitura. E a urna recebe, às 16h50, uma pequena enxurrada de votos de gente que estava, naquele momento, a 400 quilômetros dali, trabalhando numa obra.
Belial me trouxe os números. Eram ridículos. Algumas dezenas aqui, algumas centenas ali. Numa eleição decidida por 4,4 milhões de votos, aquilo não pagava nem o meu charuto. “Por que você perde tempo com isso?”, perguntei. “Porque é divertido”, disse Belial, “e porque o povo fica sabendo.” E aí entendi a genialidade do meu subordinado. A fraude de balcão não serve para ganhar a eleição. Serve para contaminar a confiança. Basta um vídeo de um mesário apertando a tecla por um eleitor ausente, um único vídeo, verdadeiro ou não, e 10 milhões de pessoas vão achar que é assim em todo lugar. A fraude pequena não mexe no resultado. Mexe na fé. E a fé é o que interessa.
Pois aqui vai a ironia que me corrói: o vídeo verdadeiro e o vídeo falso têm o mesmo efeito. Se eu forjar um vídeo de fraude, o povo desconfia. Se a fraude acontecer de verdade e alguém filmar, o povo desconfia igual. Se a fraude não acontecer e ninguém filmar nada, uma parte do povo desconfia mesmo assim, porque já foi treinada pela minha colmeia a desconfiar. E a outra parte confia cegamente, porque foi treinada pela colmeia do outro lado a confiar. Nas duas metades, ninguém olha. Uma não olha porque já sabe que é fraude. A outra não olha porque já sabe que não é. Eu ganho nas duas.
Só perco num caso. Quando alguém olha de verdade. Quando a senhora de óculos se levanta.
Fiz uma conta, uma vez, nos meus arquivos. Em Distopil há cerca de 500 mil urnas, uma por seção. Se houvesse em cada seção um fiscal de cada lado, olhando, anotando, fotografando o boletim na hora em que ele sai da impressora, eu estaria desempregado no primeiro círculo. Não há. Há partidos que não conseguem preencher nem 10% das seções. Há cidades inteiras sem um único fiscal de oposição. Há fiscais que vão embora às 11h para almoçar e não voltam. E há, sobretudo, um povo que acha que fiscalizar não é com ele, porque alguém de toga fiscaliza por ele. Esse alguém de toga, no meu catálogo, se chama Leviatã. E Leviatã não fiscaliza. Leviatã é fiscalizado por ninguém.
Aos presos provisórios, que votaram em peso no Velho, dediquei um minuto de silêncio. São a única categoria de eleitor em Distopil que vota sabendo exatamente o que está fazendo: votam em quem acham que vai soltá-los. É o voto mais racional do país. Os outros 128 milhões que compareceram votaram com o fígado, com a avó, com o medo, com o grupo da família. Os presos votaram com a cabeça. Sempre desconfiei que a racionalidade política mora atrás das grades. Lá dentro, pelo menos, todo mundo sabe quem manda.
Segundo círculo: a máquina
Agora chegamos à minha parte preferida, porque é a parte em que eu não preciso de ninguém. Os homens, os netos, os mesários, os fiscais sobrinhos de prefeito, tudo isso é mão de obra, e mão de obra dá trabalho, reclama, pede aumento, grava vídeo. A máquina não. A máquina obedece.
Distopil vota numa caixinha bege com teclado de telefone antigo. Há quase 30 anos é assim. Em 2026 eram 499.248 delas, espalhadas por escolas, ginásios, presídios, aldeias, barcos e consulados. O eleitor aperta os números, vê a foto do candidato, aperta a tecla verde, ouve um apito curto, quase infantil, e vai embora. O apito é a parte que mais me agrada. É o som de uma porta se fechando. Depois dele, o voto não pertence mais ao eleitor. Pertence à caixinha. E a caixinha pertence a quem a programou.
Os homens de toga de Distopil dizem que a caixinha é segura, e eu concordo. É seguríssima. Tem assinatura digital, tem lacre, tem resumo criptográfico, tem um código-fonte que os partidos podem inspecionar numa sala da capital, durante alguns meses, sem levar o código para casa, diante de técnicos do tribunal. Tem um teste público de segurança em que hackers convidados tentam invadir a máquina e, quando conseguem alguma coisa, o tribunal corrige e agradece. Tudo isso é verdade. Eu mesmo, se fosse fabricante de urna, faria exatamente assim. Porque cada camada de segurança é também uma camada de opacidade. Quanto mais segura a caixa, menos gente consegue abrir a caixa. E quanto menos gente consegue abrir a caixa, mais a confiança na caixa depende da confiança em quem a guarda.
Eis o paradoxo, e ele é o meu jardim: a segurança da urna eletrônica é real, mas só pode ser verificada por especialistas. O eleitor comum não verifica nada. Ele confia em quem verificou. Ou desconfia de quem verificou. Em ambos os casos, ele não vê. E o que não se vê é meu território por direito de nascença, ou de queda, que no meu caso dá no mesmo.
Então, sim, eu escrevi um vírus. Ou pensei em escrever. Ou escrevi e não instalei. Ou instalei e ele não funcionou. Vocês escolhem. O vírus que eu concebi era uma coisa delicada, um verso de Baudelaire em código binário. Não mexia em todas as urnas, porque mexer em todas seria burrice, chamaria atenção. Mexia em algumas, poucas, nas seções onde o histórico mostrasse ausência de fiscais e onde ninguém costuma fotografar o boletim. Não trocava muitos votos, porque trocar muitos seria grosseiro. Trocava 3 a cada 1.000, talvez 4, em seções que ninguém olha, de cidades que ninguém visita, em estados onde a margem tradicional é tão grande que um ponto a mais ou a menos não espanta. Era um vírus com modos de mordomo inglês: entrava sem bater, servia o chá, saía sem deixar migalha.
E agora a confissão. A confissão que me tirou o sono e que é a verdadeira razão destas memórias.
Eu não sei se o vírus funcionou.
Não sei. Não consigo saber. Fui verificar nos arquivos e encontrei tudo assinado, tudo lacrado, tudo coerente. Os boletins batiam com a totalização. As assinaturas batiam com as chaves. Os resumos batiam com os resumos. Se o meu vírus esteve lá, ele apagou os próprios rastros com tanta perfeição que nem eu, que o escrevi, consigo encontrá-lo. E se ele não esteve lá, o resultado seria exatamente o mesmo, e eu também não conseguiria provar. O sistema é inauditável até para o diabo.
Aquele tucano de 2015 tinha razão de um jeito que nem ele imaginava. Não é que o sistema seja inviolável. É que ele não permite que ninguém prove nada, nem a violação nem a inviolabilidade, a não ser por meio de uma perícia que só os especialistas compreendem e que só o próprio tribunal pode autorizar. A confiança na urna, em Distopil, é um ato de fé. E eu sou especialista em atos de fé. Fui eu que inventei a primeira dúvida, no jardim, quando perguntei à mulher: “É verdade que Deus disse...?” Desde então, toda fé que não pode ser verificada é minha matéria-prima. Não porque eu a falsifique necessariamente, mas porque eu a habito. Moro dentro do “e se”. Sou o inquilino eterno do “ninguém viu”.
Por isso o resultado de Distopil, para mim, é um mistério. E eu odeio mistérios que não fui eu que criei. Ou que talvez tenha criado sem saber. Imaginem o tormento de um falsário que olha para uma nota de cem e não consegue dizer se ela é verdadeira ou se foi ele quem a imprimiu.
Belzebu, que adora estatística, me consolou com um número: 1.551 urnas foram substituídas no dia da eleição. É 0,31% do total. Cada substituição tem um motivo técnico registrado: bateria, teclado, falha de inicialização. “Talvez algumas fossem suas”, disse ele. “Talvez”, respondi. E percebi que aquele “talvez” era a coisa mais preciosa da eleição inteira. Não o voto. O talvez.
Há um país em que urna nenhuma é substituída, porque não há urna eletrônica para substituir. Há urna de papelão, e quando a urna de papelão quebra, arranja-se outra caixa de papelão na secretaria da escola. Nesse país eu não tenho talvez. Lá eu tenho só o que posso fazer à vista de todos, que é pouco e arriscado. Falarei dele mais adiante. Ainda me dá enjoo.
17h01
Às 16h, em Salvador e em São Paulo, os ônibus não passaram. Em Salvador, a prefeitura disse depois que houve interrupções nas garagens; em São Paulo, que houve dificuldade operacional para reforçar a frota. Chovia em vários estados do sul e do sudeste. Filas se formavam diante de escolas. E então as duas campanhas, a do Velho e a do Senador, foram à justiça pedir mais tempo de votação.
Prestem atenção: as duas. O pedido do partido do Senador chegou à corte suprema às 16h22, alegando chuva em São Paulo, no Paraná, em Santa Catarina, em Minas e no Rio Grande do Sul, e foi distribuído às 16h33 a um ministro que, por acaso, tinha sido advogado do Velho. O partido do Velho pediu o mesmo por causa dos ônibus de Salvador. Eu estava nas duas petições. Fiz a caligrafia de ambas. É a única vez em que assinei como advogado dos dois lados de uma causa e recebi de nenhum dos dois, porque o pagamento, no meu caso, não é em dinheiro.
Às 17h01, segundo o Senador Filho, um minuto depois do horário legal de encerramento, o ministro decidiu: a votação estava prorrogada até as 19h nas seções ainda abertas. Nunca tinha acontecido na história do país. O Código Eleitoral, artigo 220, diz que é nula a votação feita em dia, hora ou local diferente do designado. A decisão chegou quando milhares de urnas já tinham emitido o boletim e encerrado, e a programação delas impede reabrir. Então, numa escola, o eleitor que chegou às 17h10 votou; na escola ao lado, o eleitor que chegou às 17h05 encontrou a porta fechada e o boletim pregado nela. Em um bairro valia a regra das 17h. No outro, a das 19h. Duas leis eleitorais vigendo ao mesmo tempo no mesmo país, separadas por uma calçada.
Eu me ajoelhei. Literalmente. É raro.
Não pelo efeito sobre os votos. O efeito foi pequeno. Depois se contou: 35.521 votos registrados depois das 17h, dos quais 30.866 em seções com dados verificados. O Velho venceu por 4.430.191. Os votos da prorrogação são 0,8% da margem. Se todos tivessem ido para o Senador Filho, o resultado não mudaria. Um levantamento posterior estimou que apenas 4.068 votos foram dados depois que as filas que existiam às 17h já tinham sido esvaziadas. A prorrogação não decidiu nada. Eu sei disso. Os anjos sabem disso. Até o Senador Filho, num canto da alma que ele não mostra em entrevista, sabe disso.
Mas eu não preciso de 35 mil votos. Preciso de 35 mil dúvidas. E aquela decisão, às 17h01, me deu 59 milhões de dúvidas, uma para cada eleitor do Senador, embrulhadas para presente.
Porque não importa o tamanho do efeito. Importa o precedente. Um ministro que não integra o tribunal eleitoral, num domingo à tarde, mudou o horário de uma eleição nacional por decisão de uma só pessoa, depois do horário, com urnas já fechadas. O presidente do tribunal eleitoral, um homem educado, aceitou e depois disse a frase mais bonita do dia: “Prorrogar uma eleição é possível, mas tem que ser pensado e estruturado”. Leiam de novo. É possível, mas tem que ser pensado. Ou seja: não foi pensado. Ou seja: é possível mesmo assim. O que não foi pensado e mesmo assim é possível é a definição exata de uma brecha. E eu sou o Príncipe das Brechas.
Houve ainda um detalhe que só os iniciados perceberam. Para acomodar a decisão, o tribunal eleitoral suspendeu temporariamente o recebimento dos boletins de urna, para que os resultados não fossem acessados antes da hora. Os arquivos ficaram acumulados, esperando. Durante alguns minutos, ou horas, conforme a região, os boletins de milhares de urnas estavam escritos e não estavam lidos, estavam a caminho e não tinham chegado, estavam no limbo.
Esse limbo foi o minuto mais feliz do meu ano. Não fiz nada nele. Juro. Ou não juro, que eu não posso jurar por nada sem ofender alguém maior. Mas não precisava fazer. Bastava que ele existisse. Um país inteiro ficou sabendo que existiu um intervalo em que os votos estavam guardados, num lugar que ninguém viu, sendo processados por gente que ninguém conhece, sob uma regra decidida às 17h01 por um homem que não deveria decidi-la. Se eu tivesse feito alguma coisa naquele intervalo, ninguém saberia. Se não tivesse feito, ninguém saberia também. E é isso, apenas isso, que me alimenta.
Terceiro círculo: a saída
O voto sai da urna de três formas. Sai num papelzinho impresso, o boletim de urna, que o presidente da seção assina, que os fiscais podem receber e que fica pregado na porta. Sai numa mídia de memória, que é levada a um ponto de transmissão. E sai numa nuvem de bits que viaja até a capital, onde é somada a outras 499 mil nuvens.
O primeiro caminho é o dos anjos. Os outros dois são meus.
Vou ser honesto, o que me custa: o boletim de urna é a arma mais perigosa que existe contra mim em Distopil. É uma folhinha de papel térmico, frágil, que desbota em poucos anos, com números e um código quadradinho que qualquer telefone lê. Quando um cidadão fotografa aquele boletim na porta da escola e depois compara com o resultado publicado no site do tribunal, ele está fazendo exatamente o que os homens de Distopil do Norte fizeram em 2024 quando provaram que o caudilho perdeu: está somando à mão o que a máquina somou sozinha. Cada boletim pregado numa porta de escola é um crucifixo. Eu passo por ele de olhos fechados.
E no entanto, vejam a minha sorte. O boletim só mostra o que a urna contou. Ele confirma que a soma da capital bate com a soma da seção. Não confirma que a soma da seção bate com a vontade dos eleitores que passaram por ela. Entre o dedo do eleitor e o papel térmico existe um caminho que nenhum fiscal vê, que nenhum cidadão acompanha, que nenhum voto em papel registra. Se o meu vírus de mordomo existisse, ele moraria exatamente ali: antes do boletim. E o boletim, inocente, imprimiria a mentira com a mesma letra com que imprime a verdade. O crucifixo seria verdadeiro e o morto seria falso.
Por isso eu não temo o boletim. Temo outra coisa, que conto depois.
Quanto à totalização, os homens do Senador Filho reclamaram, na segunda-feira, que os fiscais do partido foram retirados da sala-cofre durante a apuração. O tribunal respondeu que a sala-cofre nunca foi aberta a visitantes, que a fiscalização dos partidos acontece em salas próprias, inclusive a de totalização, e que representantes do partido acompanharam a divulgação dos resultados de lá. As duas versões podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Não importa. Para mim, o que importa é que existe, no coração da democracia de Distopil, um lugar chamado sala-cofre.
Saboreiem o nome. Sala-cofre. Não é sala de contagem. Não é auditório. Não é praça. É cofre. A palavra que os homens usam para o lugar onde guardam o que não querem que ninguém toque. Os pais fundadores de Distopil, se tivessem algum, teriam tido pesadelos com essa palavra. Os gregos contavam o voto com pedrinhas numa praça. Os ingleses contam até hoje em ginásios, de madrugada, com câmeras de televisão filmando as pilhas de papel. Distopil conta num cofre. E depois anuncia ao povo, por um homem educado, que o cofre está seguro.
Então, sim, Belzebu analisou o que estava chegando. Os arquivos subiam por região, por estado, por hora. Ele montou um painel, desses que os analistas de mercado adoram, com cores e setas. No começo da noite, o Senador Filho estava na frente, porque os primeiros arquivos a chegar costumam ser os do sul. Depois a curva começou a dobrar. Depois o Velho passou, e não voltou mais. A virada veio por onde ela costuma vir em Distopil, de cima para baixo no mapa. Belzebu me olhou com um brilho estranho e perguntou: “Mexemos?”
E aqui, leitor, eu preciso que você preste atenção, porque vou fazer uma coisa que raramente faço: uma conta honesta.
No primeiro turno, em 4 de outubro, o Senador Filho teve 56.104.268 votos, 47,03% dos válidos. O Velho teve 53.876.617, 45,16%. Os outros candidatos somaram perto de 9,3 milhões. A abstenção foi de 21,08%. No segundo turno, o Velho teve 64.256.232 votos, 51,79%. O Senador teve 59.826.041, 48,21%. A abstenção caiu para cerca de 19,2%, e compareceram 128,2 milhões. O Velho ganhou cerca de 10,4 milhões de votos entre um turno e outro. O Senador ganhou cerca de 3,7 milhões. A soma do que os dois ganharam, 14,1 milhões, é aproximadamente o que estava com os outros candidatos mais o que veio da abstenção menor e, provavelmente, de uma queda de brancos e nulos. Os números fecham. Fecham com uma folga que me irritou profundamente.
Porque, se os números fecham sem mim, eu talvez não tenha sido necessário. E um diabo desnecessário é a figura mais patética do universo. É o vilão que chega ao local do crime e descobre que a vítima tropeçou sozinha.
Foi a primeira vez na história de Distopil que um candidato que liderou o primeiro turno de uma eleição presidencial perdeu o segundo. Os jornais chamaram de “virada inédita”. Gostei do adjetivo. Inédito é a palavra que Distopil usa quando não quer dizer improvável. E improvável é a palavra que os desconfiados usam quando não querem dizer impossível. E impossível é a palavra que eu uso quando quero que ninguém investigue. Entre inédito e impossível há uma escada de três degraus, e em cada degrau mora uma metade do país olhando para a outra com nojo.
Belzebu repetiu: “Mexemos?”
E eu respondi a única coisa que um gênio do mal pode responder quando não sabe a resposta: “Deixe que pensem que sim.”
Porque, no fim, é só isso que importa. Se eu mexi, venci. Se eu não mexi, venci também, desde que uma metade do país ache que eu mexi e a outra metade ache que é crime pensar nisso. A vitória do diabo não é o resultado. É a impossibilidade de conferi-lo à vista de todos. A urna não precisa estar fraudada para servir aos meus propósitos. Precisa apenas não poder ser recontada por um cidadão comum, com as próprias mãos, numa sala com a porta aberta.
Um inglês magro, tuberculoso, que lutou na Espanha e voltou de lá desconfiado de todos os lados, escreveu em 1948 o manual que eu gostaria de ter escrito. No livro dele há um homem chamado Winston Smith que trabalha no Ministério da Verdade, e o trabalho de Winston é corrigir o passado: pega os jornais antigos, troca os números que o Partido não quer mais, joga o original num buraco na parede chamado buraco da memória, e o fogo faz o resto. Ninguém confere, porque não sobra nada para conferir. O que está no arquivo é o que aconteceu, e o que aconteceu é o que está no arquivo. Leio esse livro toda noite antes de dormir, como os santos leem o breviário. É o meu sonho de consumo: um arquivo que é, ao mesmo tempo, a prova e o único lugar onde a prova poderia estar.
Esse é o meu segredo, e eu o entrego de graça porque sei que vocês não vão acreditar. Eu não roubo eleições. Eu roubo a possibilidade de saber se elas foram roubadas. É mais barato, mais seguro e dura mais.
O Imperador Laranja
Na segunda-feira, 26 de outubro, o Imperador Laranja do Norte, que tinha mandado buscar meu melhor aluno de Distopil do Norte em janeiro, olhou para Distopil e disse que o segundo turno “pareceu mais uma eleição fraudulenta”. Disse também que a votação passava ao mundo uma imagem negativa, que eleições precisam estar acima de qualquer disputa e, na mesma respiração, que gostava do Velho Operário e tinha com ele uma boa relação. Na terça-feira, num comício no Texas, voltou ao assunto, disse que não tomou partido, que não gostou do resultado e que aquilo “não foi nada legal”.
Eu amo esse homem. Não como se ama um discípulo, porque ele não é meu discípulo; é rebelde demais, até comigo. Amo como o colecionador ama a peça que não consegue classificar. Ele disse que a eleição pareceu fraudada e que gosta do vencedor. Disse que não tomou partido e que não gostou do resultado. Disse uma coisa grave sem apresentar uma prova e, ao mesmo tempo, disse uma coisa que metade de Distopil sentia sem conseguir formular. É o meu método aplicado por alguém que não me pediu licença. A frase dele não confirmava nada e não desmentia nada. Apenas pousava, como mosca de Belzebu, no prato de cada eleitor.
Os jornais do Velho escreveram: “Sem provas, o Imperador repete a narrativa do Senador”. Os grupos do Senador escreveram: “Até o Imperador viu”. As duas frases são verdadeiras. A primeira é verdadeira porque ele não apresentou prova. A segunda é verdadeira porque ele de fato viu alguma coisa: viu uma eleição prorrogada às 17h01 por um ministro que fora advogado do vencedor, viu uma sala chamada cofre, viu um candidato que liderava perder, viu um país em que a apuração não pode ser acompanhada por ninguém de fora. Ele viu a escuridão. E chamou a escuridão de fraude, que é o nome errado para a coisa certa. A escuridão não é fraude. A escuridão é o lugar onde a fraude e a honestidade ficam indistinguíveis. Isso é pior.
Lembrei, com algum carinho, que o mesmo Imperador tinha passado meses de 2025 punindo Distopil com tarifas, que tinha aplicado sanções financeiras a um ministro da corte suprema e depois as retirado em 12 de dezembro de 2025, depois de o Velho ter pedido por telefone, em 6 de outubro daquele ano, que as tirasse. O Velho pediu pelo ministro. A soja esperou. O Imperador atendeu, recebeu o que quis, e agora, um ano depois, dizia que a eleição do amigo pareceu fraudada. Os impérios têm memória de credor. Nunca esquecem quem lhes deve, e sempre cobram em moeda de opinião.
E aqui entra Leviatã.
Quarto círculo: Leviatã
O quarto círculo é o depois. É onde a eleição verdadeira acontece, porque o voto escolhe quem governa, mas o depois escolhe quem sobrevive. Em Distopil do Norte aprendi isso de forma definitiva: não importa quem ganha a eleição, importa quem fica com o passaporte.
Segundo um deputado aliado do Senador Filho, sete minutos depois de o resultado ser divulgado, um ministro da corte suprema determinou que o Senador entregasse todos os seus passaportes à Polícia Federal, inclusive os estrangeiros, e o proibiu de deixar o país. Sete minutos. O tempo de um café expresso. Não sei se foram sete ou setenta; quem contou foi um aliado, e aliados contam com o relógio da indignação. Mas a ordem existiu. A defesa concordou em entregar os documentos na manhã de terça-feira. Os documentos não foram entregues. A Polícia Federal disse depois que os passaportes foram cancelados.
Na madrugada de terça-feira, 27 de outubro, por volta das 2h, segundo um jornal argentino, o Senador Filho atravessou a fronteira em Puerto Iguazú, na província de Misiones, usando a carteira de identidade, e seguiria para os Estados Unidos num avião particular. O jornal identificou até o avião: um Gulfstream G400, matrícula LV-JQW, de uma empresa de táxi aéreo de Buenos Aires, que teria decolado da capital argentina às 22h20 da segunda-feira, autorizado para quatro passageiros e três tripulantes. A Polícia Federal de Distopil disse que ia consultar as autoridades argentinas. O coordenador da campanha do Senador disse que ele não tinha saído do país. O governo do presidente argentino, o da motosserra, disse a uma agência americana que o Senador não tinha entrado em território argentino. Ao mesmo tempo, um deputado aliado gravou vídeo dizendo que o Senador tinha ido buscar asilo político nos Estados Unidos, que a rota ainda não estava confirmada, se pela Argentina ou pela Venezuela, e comparou-o à líder oposicionista de Distopil do Norte, a do Nobel. Publicou-se que ele usaria passaporte italiano. Publicou-se que saiu com a família. Publicou-se que receberia visto americano e que se encontraria com o irmão na quarta-feira.
O irmão, por sua vez, um deputado condenado pela corte suprema de Distopil que vive nos Estados Unidos desde 2025, tinha dito na sexta-feira anterior à eleição que, se perdesse, o Senador deveria deixar o país. Agora respondia aos jornalistas com sarcasmo.
E os aliados, na terça à noite, encontraram a palavra: “Não é fuga. É exílio”.
Leitor, eu nunca vi nada tão bonito desde a Torre de Babel. Um homem atravessou ou não atravessou uma fronteira, com ou sem passaporte, num avião que decolou ou não decolou, para um país onde vai ou não vai pedir asilo, segundo aliados que dizem que ele foi e um coordenador que diz que ele não foi, num governo vizinho que diz que ele não entrou, e tudo isso no mesmo dia em que o Velho Operário completava 81 anos. Enquanto o Velho soprava as velas, o Senador soprava as nuvens de Misiones. O bolo de um e a rota do outro dividiram a primeira página. Não fui eu quem marcou a data. Mas aplaudi de pé.
Agora reparem como Leviatã trabalha, porque ele é o único dos meus que eu respeito como a um igual.
Leviatã não persegue. Leviatã instaura. Ele não diz “vou destruir aquele homem”. Ele diz “instaure-se o inquérito”. O Senador tinha, quando a eleição acabou, um inquérito sobre o dinheiro do banqueiro para o filme do pai, aberto em 22 de julho, prorrogado por mais 90 dias a pedido da polícia em 15 de outubro. Tinha outro por suposta calúnia contra o Velho, aberto por ordem de um ministro, no qual o mesmo ministro negou ao Senador, em junho, o pedido de ouvir as testemunhas que ele indicara. Tinha um caso, no mesmo tribunal, sobre uma empresa offshore de um advogado amigo, em cuja conta bancária o nome dele aparecia. Tinha o pai em prisão domiciliar cumprindo 27 anos e 3 meses, e tinha sido proibido por 90 dias de visitar o próprio pai. Nenhum desses processos tinha denúncia. Nenhum tinha réu. Todos tinham relator. E alguns tinham o mesmo relator.
É assim que Leviatã come: devagar, sem mastigar, por absorção. Um inquérito não condena ninguém. Apenas impede que a pessoa viva. O homem investigado não pode viajar, não pode falar, não pode visitar o pai, não pode pegar dinheiro emprestado, não pode dormir. E se o homem foge, Leviatã sorri, porque a fuga é a confissão que o inquérito não conseguiu produzir. Se o homem fica, Leviatã sorri também, porque agora tem o homem à mão. A presa nunca vence o monstro do mar. Ou é engolida, ou é expulsa para o deserto, e no deserto também é Leviatã quem decide quanto tempo ela sobrevive.
Mas aqui eu preciso ser justo com o Senador, e com os fatos, porque os fatos me interessam mais do que o Senador. Ele não é um mártir puro, e eu não trabalho com mártires puros, porque mártir puro é especialidade do outro lado do balcão. O banqueiro pagou mesmo. O avião do amigo existiu mesmo. O passaporte não foi entregue mesmo. O homem que diz ter sido perseguido também deu ao perseguidor todos os motivos de que um perseguidor precisa. É isso o que torna a perseguição perfeita: quando o perseguido colabora. Os melhores tiranos não inventam crimes. Escolhem, entre os crimes possíveis, os que convêm, e deixam os outros dormindo na gaveta, para outro adversário, em outro ano.
E por que Leviatã quer o Senador vivo, e longe?
Porque o exilado é moeda. Em Distopil do Norte, Edmundo na Espanha valia mais para o caudilho do que Edmundo na cadeia. Na cadeia, ele seria mártir; na Espanha, era só um senhor idoso dando entrevistas que ninguém lê, e cada entrevista confirmava que o caudilho estava no poder e o outro não. O exílio é uma prisão com vista para o mar, e o mar é de Leviatã.
O Senador exilado servirá a Leviatã de três maneiras. Primeiro, como prova de culpa: “fugiu”. Segundo, como ameaça aos que ficaram: “vejam o que acontece”. Terceiro, e esta é a mais fina, como ficha de pôquer na mesa com o Imperador Laranja. Distopil precisa do Imperador por causa das tarifas, das terras raras, da soja e dos juros. O Imperador gosta do Senador e gosta do Velho. Leviatã pode oferecer ao Imperador, num dia de negociação, uma suavização qualquer em relação ao exilado, em troca de outra coisa qualquer. O Senador vira mercadoria. O homem que queria ser presidente vira item de pauta numa reunião em que ele não estará.
E o Senador, de lá, vai comandar a oposição. Disseram isso os aliados: de longe, ele vai denunciar ao mundo o regime imposto pelo Velho e pela corte. Eu conheço esse roteiro. Já o dirigi em Miami, em Madri, em Paris. O exilado sempre acha que comanda a política do exílio. Na verdade, a política do exílio o comanda. Ele fala para quem já concorda com ele, num fuso horário diferente, e cada entrevista dele vira, em Distopil, uma prova de que ele está lá fora e o poder está aqui dentro. O exilado é um orador num salão vazio cuja voz só chega ao país pelo eco que o governo deixa passar.
Não digo que ele não deva ter ido. Nisso eu não opino, porque o diabo não dá conselho de graça. Digo apenas que, de todos os castigos que posso aplicar a um homem que me serviu ou que pensou que me combatia, nenhum é mais elegante do que transformá-lo em espectador do próprio país.
O banquete
Na quarta-feira, 28 de outubro, quando escrevo estas linhas, faz exatamente um ano que Belial teve a sua tarde mais alegre. Em 28 de outubro de 2025, numa operação policial contra uma facção no Rio de Janeiro, morreram 121 pessoas, entre elas 4 policiais. O Velho chamou de “matança”. O governador chamou de sucesso. Os dois lados choraram mortos diferentes. Belial chorou de rir.
Convoquei um banquete para celebrar o fim da eleição e distribuir as tarefas do mandato seguinte. Porque a eleição acaba, mas o governo do inferno não tem fim, só tem quatro anos de cada vez.
Lilith chegou de novo de vermelho e pediu a palavra. Lilith é a primeira mulher segundo uma tradição que a Igreja nunca aceitou, a que se recusou a deitar por baixo e fugiu para o deserto, e desde então cuida de tudo o que transforma o desejo em moeda. Pediu o mesmo de sempre: mais apostas. Distopil, nos últimos anos, se tornou um cassino com bandeira. O trabalhador que ganha pouco e aposta no celular, entre um ônibus e outro, na esperança de que um gol aos 47 do segundo tempo pague o aluguel. Lilith adora o jogo porque ele imita a fé: promete milagre, exige sacrifício, entrega desespero. “Eles vão parar de acreditar na urna”, disse ela, “mas vão continuar acreditando na roleta. A roleta, pelo menos, gira na frente deles.”
Asmodeus pediu a juventude. Não toda; bastam os que estão sozinhos no quarto com uma tela. Ele não precisa de bordel. O bordel está no bolso. Asmodeus gosta de um país em que a pornografia é gratuita e o pão é caro, porque um povo saciado de imagens e faminto de comida não tem energia para fiscalizar seção eleitoral às 17h. Ele estava certo, e eu o promovi.
Baal pediu os ídolos. Baal sempre pede os ídolos. Antigamente eram estátuas de bronze em colinas de Canaã. Hoje são homens: o salvador, o pai dos pobres, o mito, o capitão, o operário. Baal não se importa com o nome do ídolo, nem com o partido. Ele quer que o povo ponha num homem a esperança que só cabe em Deus. Em Distopil ele tem muito trabalho e pouca concorrência. Cada lado tem seu bezerro e acusa o outro de adorar o bezerro errado. Baal cobra comissão dos dois.
Moloch, como sempre, não pediu nada. Apenas colocou o bebê de pelúcia no centro da mesa e ficou olhando. Moloch é o deus a quem os cananeus queimavam os filhos, e ele não mudou de gosto, só de método. Em Distopil, ele se contenta com o que lhe dão: as crianças que crescem nos 68,7 milhões de brasileiros que vivem em áreas sob influência de facções ou milícias, segundo uma pesquisa feita com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública; os meninos de 13 anos que viram olheiros de boca de fumo; as meninas que viram moeda; e, claro, a discussão eterna nos tribunais sobre se o filho ainda não nascido é gente, discussão que Moloch acompanha com a atenção de um torcedor na final. Ele não precisa ganhar. Basta que o debate continue, porque enquanto se debate, ele come.
Belial pediu os territórios. “Os homicídios caíram”, disse ele, com orgulho estranho. É verdade: 40.775 mortes violentas intencionais em 2025, a menor taxa desde 2012. “Caíram porque eu não preciso mais matar”, explicou. “Já mando.” Belial é o demônio da ausência de lei, e a ausência de lei não é o caos; é a lei de outro. Onde a facção decide quem vende gás, quem passa internet e quem entra no bairro, não há homicídio porque não há disputa. Há súditos. Belial queria mais quatro anos assim. Concedi.
Mamon pediu os juros. Mamon sempre pede os juros. O governo de Distopil pagou R$ 1,182 trilhão em juros nominais nos 12 meses até agosto de 2026, o maior valor da história; a dívida bruta chegou a 82,9% do PIB. Mamon me explicou que juros altos são a forma mais limpa de transferir riqueza do pobre para o rico sem que o pobre perceba. “O pobre acha que paga a geladeira”, disse ele, “mas paga três geladeiras e leva uma. As outras duas vêm para mim.” E o banco que ele patrocinou, liquidado em novembro de 2025? “Esse foi só uma vitrine”, riu. “Os de verdade não quebram.”
E Leviatã, por fim, pediu a única coisa que ele sempre pede: o silêncio. Pediu que se continuasse a decidir, em gabinete, quem pode e quem não pode falar na internet. Pediu que os inquéritos sem fim continuassem sem fim. Pediu que as decisões de uma pessoa só continuassem valendo para 200 milhões. Pediu que a sala continuasse se chamando cofre. Pediu que ninguém, em hipótese alguma, contasse os votos à mão.
Eu concedi tudo. E então, no meio do banquete, enquanto Lilith dançava e Belzebu apresentava a planilha da próxima eleição, alguém bateu à porta do inferno.
Ninguém bate à porta do inferno. É uma regra. A porta está sempre aberta e todos entram sem bater. Quem bate é porque não quer entrar. Quem bate é porque vem buscar alguém.
Mefistófeles fechou o livro. Lilith parou de dançar. Belzebu derrubou a planilha. Leviatã, pela primeira vez em milênios, recolheu as três cadeiras numa só.
E eu, o mais belo, o Portador da Luz, o Príncipe das Brechas, o Inquilino do Talvez, senti o que não sentia desde a manhã em que caí.
Senti medo.
O medo de Miguel
Há uma oração que eu não suporto ouvir. Foi escrita em 1886 por um papa velho chamado Leão XIII, que, segundo contam, teve uma visão durante a missa e saiu da capela pálido como cera. Durante quase 80 anos ela foi recitada de joelhos depois das missas rezadas, em igrejas do mundo inteiro. Começa assim: “São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate”. E termina pedindo que ele precipite no inferno a mim e aos outros espíritos malignos que andam pelo mundo para a perdição das almas.
Em 1964 pararam de rezá-la ao fim da missa. Foi o melhor ano do século para mim. Fiz uma festa que durou uma década.
Mas desde maio de 2025 há outro Leão em Roma. Escolheu o nome de propósito, e eu entendi o recado no mesmo dia. Desde então, em paróquias de Distopil que eu considerava minhas, velhas senhoras e rapazes de barba voltaram a recitar aquela coisa, em voz alta, em grupo, às vezes na calçada. Cada vez que um deles diz “defendei-nos no combate”, eu sinto uma coceira no lugar onde antes tinha asas. Não é dor. É memória. A memória da espada.
Miguel é o único que eu temo de verdade, e o motivo não é a força dele. Há anjos mais fortes. O motivo é o nome. Miguel quer dizer, na língua dos meus antigos vizinhos, “Quem como Deus?”. É uma pergunta. Ele foi o primeiro a me fazer essa pergunta, no dia em que eu disse que subiria acima das estrelas e seria semelhante ao Altíssimo. Ele não me atacou com argumento. Atacou com pergunta. E eu não soube responder. Desde então ninguém soube responder por mim.
Por isso, quando alguém bateu à porta do inferno no meio do banquete, eu pensei que era ele. Abri com a mão tremendo.
Não era Miguel. Era uma senhora de óculos.
Reconheci-a na hora. Era a fiscal de partido da escola do outro lado da rua, aquela que mandou a bisavó de volta para casa sem votar. Tinha uma prancheta na mão, uma caneta presa no cabelo e uma garrafa térmica de café embaixo do braço. Usava um crachá de plástico com o nome escrito à mão. Não tinha asas. Não tinha espada. Não tinha nem cara de anjo; tinha cara de tia que corrige redação.
“Vim só avisar uma coisa”, disse ela.
Belial pôs a mão no coldre. Ela nem olhou para ele.
“Ele está permitindo.”
E fechou a porta.
Leitor, você não sabe o que essas três palavras significam para mim. Vou explicar, porque é a parte desta história que os teólogos de botequim nunca entendem e os teólogos de verdade às vezes esquecem.
Eu não faço nada sem permissão. Nada. O livro de Jó conta isso com a crueldade da verdade: eu tive de pedir licença para tocar num homem justo, e Ele me deu licença com limite. “Tudo o que ele tem está em teu poder; somente contra ele não estendas a tua mão.” Depois, outra licença, outro limite: “Eis que ele está em tua mão; poupa, porém, a sua vida.” Eu sou o promotor que só acusa com autorização do juiz, o carrasco que só executa com assinatura, o lobo com coleira. Os homens imaginam que eu sou o rival de Deus. Que vaidade a deles, e que vaidade a minha, quando me deixo acreditar nisso. Eu não sou o outro lado da balança. Sou um peso dentro da mão que segura a balança.
E se Ele permitiu que Distopil vivesse esta eleição, com este horário de 17h01, esta sala chamada cofre, esta fuga ou exílio, este Imperador que diz e desdiz, esta dúvida renovável que eu cultivei com tanto carinho, é porque Ele vai usar a dúvida para outra coisa. Ele sempre usa. Usou a minha serpente para revelar a nudez de Adão. Usou a minha traição de Judas para a Ressurreição. Usou os meus imperadores romanos para espalhar mártires pelo mundo como quem espalha sementes. Tudo o que eu faço, Ele dobra ao contrário. E eu sei disso desde o princípio, e faço mesmo assim, porque é o que me foi dado fazer.
Esta é a minha tortura. Não é o fogo. O fogo é para os outros. A minha tortura é saber que cada vitória minha é um capítulo da derrota que me foi escrita. Eu ganho todas as batalhas e perco a guerra, e a guerra foi perdida antes de começar. Sou o goleiro que defende todos os pênaltis num jogo cujo placar já está no jornal de amanhã.
E há outra coisa, que só confesso porque o charuto acabou. Eu humilho os meus. Não por gosto, embora tenha gosto. Por ordem. Quem me segue, eu traio. Quem me serve, eu descarto. Quem me adora, eu desprezo. É a única regra do meu reino que funciona sempre. O caudilho de Distopil do Norte me serviu por 13 anos e acabou algemado num avião estrangeiro. O banqueiro de Distopil me serviu com dinheiro para os dois lados e acabou preso no dia anterior à liquidação do próprio banco. Os que escondem votos, os que apertam tecla por bisavó, os que fogem de madrugada, os que decidem às 17h01, os que chamam de cofre o que deveria ser praça, todos eles me servem de algum modo, e todos eles serão, de algum modo, expostos. Não por mim. Eu só os empurro até a beira. Quem acende a luz em cima deles é Outro.
Por isso a frase da senhora de óculos me gelou. “Ele está permitindo.” Quer dizer que vai haver luz. Quer dizer que eu sou o escuro que faz a luz ser desejada. Quer dizer que eu trabalhei, mais uma vez, de graça, para o adversário.
O Grande Inquisidor e a urna
Volto ao russo. No romance dos Karamázov há um capítulo em que Ivan conta ao irmão a história de um velho cardeal de Sevilha que prende Cristo, que tinha voltado à terra, e passa a noite explicando a Ele por que a Igreja do cardeal corrigiu a obra de Cristo. O argumento do velho é simples e terrível: os homens não querem liberdade. Querem pão, e querem três coisas que o cardeal chama de milagre, mistério e autoridade. Cristo recusou as três no deserto, quando eu, pessoalmente, as ofereci. O cardeal aceitou as três em nome dos homens, e os homens lhe agradeceram, porque a liberdade era um fardo grande demais para eles.
Eu estava naquele deserto. Lembro da conversa. Fui eu quem ofereceu as pedras transformadas em pão, o salto do alto do templo, os reinos do mundo. Ele recusou tudo. E eu, desde então, ofereço as mesmas três coisas a cada geração, e cada geração aceita uma parte.
Distopil aceitou as três de uma vez, numa caixinha bege.
O milagre: o resultado em três horas. Cento e vinte e oito milhões de votos somados antes do Jornal Nacional terminar. Os outros países demoram dias; Distopil sabe tudo na mesma noite, e se orgulha disso como de um gol de placa. É o milagre da velocidade, e o povo o adora, porque um povo cansado prefere saber logo a saber bem.
O mistério: o código. Ninguém sabe o que acontece dentro da caixinha. Há especialistas que sabem um pouco, há técnicos que sabem outro pouco, há um tribunal que diz saber tudo. O eleitor não sabe nada, e não precisa saber, dizem-lhe, porque o mistério está em boas mãos. É o mistério do sacrário sem o sacrário. É a fé sem o Deus.
A autoridade: o tribunal. Quem duvida do milagre e do mistério é desacreditado pela autoridade, às vezes punido por ela, e em todo caso rotulado. Duvidar da urna, em Distopil, se tornou uma espécie de heresia, com seu índex, seus inquisidores e suas penitências. A autoridade não responde à dúvida; ela a classifica.
O velho cardeal de Dostoiévski dizia que os homens ficariam felizes de entregar a liberdade em troca de não ter de decidir. E Distopil entregou a coisa mais preciosa de uma democracia, que não é o voto; é a contagem. O voto qualquer ditadura concede. A contagem não. A contagem feita pelo povo, à vista do povo, em voz alta, é o único momento em que o cidadão não depende de ninguém para saber o que aconteceu. Distopil trocou esse momento pelo milagre de saber o resultado antes da novela.
Cristo, no conto de Ivan, não responde ao cardeal. Apenas o beija na boca, em silêncio, e vai embora. O cardeal estremece e o solta.
A senhora de óculos não me beijou. Mas fechou a porta com o mesmo silêncio.
Os remédios que eu detesto
Agora vou dizer a coisa que mais me custa, porque é a receita do meu desemprego. Vou dizer porque Ele está permitindo e, quando Ele permite, eu também sou obrigado a falar. É uma das cláusulas do contrato que ninguém lê.
O remédio contra mim nas eleições é antigo, barato, chato e eficaz. É papel e gente. Papel que o eleitor marca com a própria mão, dobra e deposita numa urna transparente. Gente que, quando a votação termina, abre a urna diante de quem quiser assistir e conta, cédula por cédula, em voz alta, com a porta da sala aberta, os fiscais dos partidos debruçados sobre a mesa e o vizinho fotografando tudo com o celular. Depois, o resultado daquela sala é escrito numa folha, assinado por todos, colado na porta e enviado para cima. Se alguém duvidar, recontam-se as cédulas, que estão lá, físicas, guardadas, tocáveis.
É isso. Não tem código. Não tem sala-cofre. Não tem milagre. Tem lentidão, café de garrafa térmica, briga por causa de uma cédula rasurada, gente cansada às 2h da manhã. E tem a única coisa que me derrota: qualquer pessoa sem conhecimento técnico pode entender e conferir cada etapa.
Não fui eu quem formulou isso. Foram os alemães, o que torna a coisa ainda mais humilhante, porque os alemães são o povo mais apaixonado por máquinas da Terra. Em 3 de março de 2009, a corte constitucional da Alemanha examinou as urnas eletrônicas que tinham sido usadas na eleição federal de 2005 e decidiu que o uso delas tinha sido inconstitucional. O fundamento não foi fraude. Ninguém provou fraude. O fundamento foi um princípio que a corte chamou de publicidade da eleição: todas as etapas essenciais de uma eleição devem poder ser verificadas pelo cidadão, sem que ele precise de conhecimento técnico especializado. O voto não pode ser um ato de fé no programador. Desde então os alemães, os mesmos que fazem os carros mais precisos e as máquinas mais confiáveis do mundo, votam em papel e contam em público. Escolheram o lápis. Eu tremi.
Os holandeses tinham feito coisa parecida um pouco antes. Um grupo de cidadãos com um nome que é um manifesto, “Nós não confiamos em computadores de votação”, comprou algumas urnas do fabricante que abastecia o país e mostrou, em 2006, na televisão, que dava para trocar o programa delas em poucos minutos e até captar, de fora do prédio, pelas emissões de rádio, em quem o eleitor estava votando. O governo retirou a certificação das máquinas em 2007. A Holanda voltou ao lápis vermelho e ao papel. Os irlandeses compraram, no começo dos anos 2000, milhares de urnas eletrônicas por mais de 50 milhões de euros, usaram-nas em pouquíssimas eleições de teste, desistiram depois que uma comissão independente disse que não podia garantir a precisão nem o sigilo, guardaram as máquinas por anos num depósito pagando aluguel e, por fim, as venderam como sucata. Perda total. Fiquei comovido com a sinceridade.
E a França. Ah, a França. A França é o país que eu mais gosto de ironizar, porque ela sempre fala com o queixo erguido e depois faz o contrário do que disse. Os franceses introduziram as chamadas máquinas de votar em algumas cidades no começo dos anos 2000, gostaram da modernidade, se encantaram com a rapidez, e em 2008, assustados com o que acontecia na Irlanda, na Holanda e na Alemanha, decretaram uma moratória. Nada de máquinas novas, nada de renovar as velhas, nada de novos modelos. Hoje, 63 comunas francesas ainda votam nelas, cerca de 1,5 milhão de eleitores, com aparelhos que não recebem atualização há quase 20 anos. A agência francesa de cibersegurança, em 2021, recomendou que, se um dia a França voltar a usar máquinas, elas imprimam uma cédula de papel, para que o voto possa ser verificado e auditado. A agência também chamou a moratória de “pior das soluções”, porque congela máquinas velhas sem permitir as novas. E a França continua lá, presa entre as duas coisas, com as máquinas no sótão como um parente esquisito de quem ninguém fala no Natal. O resto do país, cerca de 47 milhões de eleitores, vota em papel, e a contagem, na lei francesa, é pública: qualquer eleitor presente pode se oferecer para ser escrutinador e ajudar a abrir os envelopes. Às 20h do domingo, as telas da televisão francesa já mostram as estimativas, feitas a partir da contagem de papel de seções-amostra. O milagre da velocidade, sem o mistério.
A França fala muito de liberdade, igualdade e fraternidade. Na urna, praticou a mais rara das três: a desconfiança fraterna. A desconfiança de que um cidadão não deve precisar confiar em ninguém para saber quanto deu.
E a Suíça. A Suíça é a minha maior derrota, e eu a visito toda primavera só para sofrer. É o país mais rico, mais organizado, mais tecnológico e mais pontual da Europa, cheio de bancos onde Mamon tem conta e de laboratórios onde Asmodeus não entra. E vota em papel. Vota quatro vezes por ano, em média, não apenas em candidatos, mas em leis, em impostos, em pontes, em lobos, em horários de lojas. A maioria vota pelo correio, com uma cédula de papel que chega em casa, e depois as cédulas são contadas por voluntários e funcionários em salas de prefeituras. Os suíços tentaram o voto pela internet. Em 2019, durante um teste público de invasão, pesquisadores independentes encontraram falhas graves no código do sistema dos correios suíços, e o governo suspendeu tudo. Voltaram em 2023, em poucos cantões, com limite rígido de eleitores e o código aberto para quem quiser ler. Desconfiaram da máquina com a mesma meticulosidade com que fazem relógios.
Há dois economistas suíços, Bruno Frey e Alois Stutzer, que publicaram no ano 2000 um estudo que eu mandei queimar e que continua aparecendo nas bibliotecas como erva daninha. Mostraram que, nos cantões suíços onde o povo tem mais direitos de participação direta, as pessoas se declaram mais satisfeitas com a vida, e que parte dessa satisfação vem do próprio ato de participar, não só do resultado. Chamaram isso de utilidade do procedimento. Eu chamo de veneno. O povo que participa da contagem é mais feliz porque não depende de mim para saber a verdade. É mais feliz porque, no fim da noite, depois de contar o último voto, pode olhar para o vizinho do outro partido e dizer: “Contamos juntos. Você perdeu, eu vi, você viu”. E o vizinho volta para casa derrotado, mas não roubado. A diferença entre o derrotado e o roubado é a matéria-prima de toda a minha indústria. Na Suíça, eu não tenho fornecedor.
Agora vejam a ironia, e esta é a ironia que me faz rir e chorar ao mesmo tempo. Os países mais ricos, mais técnicos, mais capazes de construir a máquina perfeita, escolheram o papel. E Distopil, que tem 68,7 milhões de pessoas vivendo sob influência de facções, cidades inteiras onde o prefeito é dono da rádio e da farmácia, e um histórico de desconfiança que vem do Império, escolheu a fé total na máquina. O alemão, que confia no engenheiro, preferiu o lápis. O distopileiro, que não confia nem no vizinho, entregou tudo a um código que nunca leu. É como se o homem que não confia no banco guardasse o dinheiro todo dentro de um cofre do qual não tem a chave.
E há mais uma ironia, a mais cruel, que eu conto porque sou honesto quando me convém. Distopil do Norte, a minha primeira estátua, imprimia papel. As urnas de lá emitiam um comprovante impresso. E mesmo assim eu reinei lá por mais de 25 anos. Porque o papel ficava na caixa, e a caixa ficava com o caudilho, e ninguém contava o papel em público. Papel sem contagem pública é só lixo com pretensão. Quem me derrotou em Distopil do Norte, em 2024, não foi o papel na caixa. Foi o papel na mão do cidadão: os boletins fotografados, seção por seção, por voluntários que se recusaram a ir para casa. A luz não está no material. Está nos olhos.
Distopil chegou perto do remédio uma vez. Em 2015 o parlamento aprovou o voto impresso. Em 2018 a corte suprema suspendeu a regra e, em 2020, a declarou inconstitucional. Em agosto de 2021 a Câmara votou uma emenda constitucional para trazer o papel de volta: 229 votos a favor, 218 contra. Precisava de 308. A maioria quis o papel e não levou, porque a regra exigia maioria qualificada. Eu assisti à votação com pipoca. Foi a única vez na história em que a maioria de um parlamento votou contra mim e eu ganhei mesmo assim.
O despertar dos distopileiros
E então Ele começou a abrir os olhos deles.
Não com milagre. Ele raramente usa milagre quando pode usar o óbvio. Abriu os olhos de Distopil com as mesmas coisas que eu usei para fechá-los: com a dúvida, com a fuga, com o horário de 17h01, com a sala chamada cofre, com o Imperador que diz e desdiz.
Na quarta-feira depois da eleição, numa padaria de uma cidade média do interior de Distopil, cujo nome não importa porque é o nome de todas, dois homens discutiam. Um tinha votado no Velho. O outro no Senador. O que votou no Senador disse que a eleição tinha sido roubada. O que votou no Velho disse que era mentira, que os números fechavam, que o tribunal tinha garantido. E os dois, aos gritos, chegaram ao mesmo lugar sem perceber. O primeiro disse: “Prova que não foi”. O segundo disse: “Prova que foi”. E o padeiro, um senhor gordo que nunca tinha votado em ninguém com convicção, enxugou as mãos no avental e disse a frase que me derrubou da cadeira lá embaixo:
“Nenhum dos dois consegue provar nada. Então o problema não é quem ganhou. É que ninguém consegue contar.”
Eu ouvi aquilo do inferno como quem ouve uma janela quebrando.
Porque o padeiro não estava falando de fraude. Estava falando de luz. Estava dizendo que um país em que o vencedor não pode provar que venceu, e o perdedor não pode provar que foi roubado, é um país em que os dois perderam, e o único que ganhou fui eu. E ele não queria mais isso. Não por ser de direita ou de esquerda. Por ser padeiro. O padeiro conta o pão. Conta o troco. Conta a farinha. Sabe que aquilo que não se conta, some.
Começou devagar, como começam as coisas de Deus. Uma associação de bairro pediu para assistir à contagem na próxima eleição e descobriu que não havia contagem para assistir. Um grupo de estudantes de computação, de um lado e do outro, pediu o código da urna e descobriu que podia ver, mas não podia levar para casa. Uma senhora de óculos começou a dar curso de fiscal de partido no salão da paróquia, de graça, depois da missa, e o curso lotou. Um padre de paróquia pequena voltou a rezar a oração de Miguel no fim da missa, e os fiéis, que não conheciam a oração, aprenderam de ouvido. Alguém lembrou que a Alemanha, a Holanda, a França e a Suíça contam em papel. Alguém lembrou que a Câmara de Distopil teve 229 votos a favor do papel em 2021. Alguém fez a conta de quantos voluntários seriam necessários para contar à mão 128 milhões de votos em 500 mil seções: menos de 3 milhões de pessoas, uma noite, café de garrafa térmica.
E os distopileiros olharam para o norte.
Olharam para Distopil do Norte, onde um senhor de voz mansa chamado Edmundo foi eleito e teve de ir para a Espanha. Onde antes dele outros opositores, prefeitos, deputados, líderes estudantis, tinham ido parar em Madri, Bogotá, Miami, e de lá comandavam uma oposição que não comandava nada. Onde uma mulher ganhou o Nobel da Paz escondida dentro do próprio país. Onde o caudilho só caiu porque um império estrangeiro mandou buscá-lo, e não porque o povo conseguiu contar os próprios votos e fazê-los valer. Olharam e viram o próprio futuro, dublado em espanhol, e pela primeira vez não acharam exótico.
Agora tinham o próprio exilado. Ou fugitivo. Ou viajante. Ainda não se sabia bem. Mas tinham a sensação, que é o que importa em política, de que a lista ia crescer, de que depois do primeiro viria o segundo, e depois do segundo os deputados, e depois dos deputados os jornalistas, e de que um dia haveria uma oposição inteira dando entrevista de Miami para um país que não a ouve. E perceberam que não queriam esperar. Não queriam chegar ao ponto em que a única saída fosse o avião estrangeiro buscando alguém de madrugada. Nem ao ponto pior, que fica depois do exílio, e que o inglês tuberculoso descreveu no fim do seu livro: o de Winston Smith sentado num café, com um copo de gim ruim, depois de passar pelo Quarto 101, olhando para o retrato do Grande Irmão na parede e descobrindo, com lágrimas de gratidão, que o amava. Winston não foi exilado. Foi convencido. O Partido não o expulsou do país; expulsou o país de dentro dele. É o último estágio do meu trabalho, aquele que eu nunca consegui completar em ninguém sem a ajuda dos próprios homens: quando o cidadão já não precisa ser enganado, porque desistiu sozinho de saber. Os distopileiros olharam para os exilados de Distopil do Norte e tiveram medo. Mas olharam para Winston e tiveram nojo. E o nojo, eu sei por experiência, move mais que o medo. Porque, quando chega a esse ponto, a liberdade não é mais conquistada pelo povo. É entregue por outro, e o que é entregue por outro pode ser tomado por outro.
Não foi rápido. Nada que é de Deus é rápido; a pressa é minha. Houve quem desistisse, houve quem gritasse fraude sem provas e prejudicasse a causa, houve quem gritasse “golpista” contra qualquer um que pedisse papel e prejudicasse a causa do outro lado. Houve inquérito, houve multa, houve liminar, houve Leviatã. Mas Leviatã tem um problema que eu conheço bem: ele é enorme, e as coisas enormes não conseguem impedir as pequenas. Leviatã consegue proibir um homem de falar. Não consegue proibir 3 milhões de pessoas de contar.
E aí a realidade fez o que sempre faz quando Ele permite. Obrigou os distopileiros a encarar o que estava diante deles. Não uma fraude provada, que talvez nunca se prove, porque o próprio sistema impede que se prove. Encarar algo pior e mais simples: que eles tinham entregado a outros o direito de saber a verdade sobre o próprio voto. Que tinham trocado a contagem pelo milagre. Que a sala onde se decidia o país se chamava cofre. E que, se quisessem a sala de volta, teriam de ir buscá-la, com as próprias mãos, com papel, com lápis, com fiscais, com café, com paciência, como os alemães, como os suíços, como os holandeses do lápis vermelho, como os franceses que não conseguem nem se livrar das máquinas velhas.
Epílogo: um, dois, três
Imagino a cena porque não posso impedi-la. É a minha última tortura, e Ele me obriga a assistir.
Uma escola estadual numa cidade de Distopil, num domingo de outubro de algum ano que ainda não chegou. São 17h. A porta da sala se fecha para novos eleitores e se abre para quem quiser olhar. Há uma urna de acrílico transparente cheia de papel dobrado. Há uma mesa comprida. Há uma senhora de óculos com uma prancheta, um rapaz de camiseta de um partido e uma moça de camiseta do outro, um padeiro que veio porque ficou curioso, duas crianças sentadas no chão, um cachorro. Há uma garrafa térmica de café e um pacote de bolacha de maisena.
O presidente da seção vira a urna sobre a mesa. As cédulas caem com um barulho de folhas secas. E ele começa a contar, em voz alta:
“Um.”
O rapaz anota. A moça anota. A senhora de óculos confere.
“Dois.”
O padeiro filma com o celular.
“Três.”
Ninguém ali precisa de código. Ninguém precisa de especialista. Ninguém precisa de sala-cofre. Ninguém precisa de mim.
O inglês tuberculoso escreveu também, no caderno de Winston, antes de o Partido quebrá-lo, a frase que eu mais temo em toda a literatura humana: liberdade é a liberdade de dizer que dois mais dois são quatro; se isso for concedido, todo o resto vem por consequência. No Quarto 101, O’Brien levantou quatro dedos e torturou Winston até ele ver cinco. Naquela sala de escola, ninguém tortura ninguém. Levantam-se as cédulas, uma de cada vez, e todos veem o mesmo número. O Ministério da Verdade não tem como entrar numa sala onde o arquivo é a pilha de papel em cima da mesa e a testemunha é o padeiro.
Eu odeio essa cena com toda a força da minha natureza decaída. Odeio a lentidão. Odeio a bolacha de maisena. Odeio o cachorro. Odeio, sobretudo, a cara das crianças sentadas no chão, que estão aprendendo, sem que ninguém lhes diga, que a verdade é uma coisa que se conta, e que contar é uma coisa que se faz junto.
Ah, e uma última confissão, porque Ele está permitindo e eu sou obrigado a ser franco até o fim. Vocês acham que o inferno é o lugar do segredo. Que lá embaixo tudo é escuro, sigiloso, guardado em cofre. Não é. É o contrário. No inferno não há sala-cofre. Tudo aqui é contado em voz alta, para sempre, diante de todos. Cada mentira, cada tecla apertada pela bisavó, cada liminar das 17h01, cada inquérito sem fim, cada encaminhamento de Belzebu. Tudo é lido, um por um, por toda a eternidade, sem intervalo e sem prorrogação. O Juízo é uma apuração pública.
Eu passei a vida, se é que se pode chamar de vida, escondendo dos homens o único procedimento que vigora no lugar onde moro.
O charuto apagou. Lá em cima, alguém disse “quatro”.


