Existe uma cena na entrevista de Jeffrey Epstein a Steve Bannon que deveria ser exibida em todas as escolas do mundo ocidental.
Não a cena em que o predador explica o sistema bancário fracionário com a fluência de quem conhece a engenharia do dinheiro por dentro.
Não a cena em que descreve, sem um tremor de autoconsciência, a experiência de negociar a compra do Bear Stearns pelo JPMorgan a cobrar, de uma cela de dois metros e meio por três, vestindo um macacão marrom com a palavra trustee grafada errada nas costas. A cena decisiva é outra.
Quando Bannon menciona Jesus de Nazaré, que também nunca escreveu nada, que também falava e outros registravam, Epstein responde: “Achei que ele fosse carpinteiro.” E sorri. Não é um sorriso de humor. É o sorriso de quem olha para baixo. O sorriso do homem que jantou com reis, geneticistas e presidentes, que administrava fortunas sem contrato verificável, que operou a maior rede de abuso sexual documentada da história moderna e que, diante da menção ao filho de um carpinteiro que dividiu a história em antes e depois, oferece um deboche.
Um deboche reflexo, automático, desprovido de elaboração.
Ali está o diagnóstico inteiro.
Ali está a revelação de que tipo de alma habita o centro dessas estruturas de poder. E ali, precisamente ali, começa a revolta dos cordeiros.
I. A democracia da informação, ou: quando o rebanho aprende a ler
Quando o governo americano liberou os documentos do caso Epstein, não o fez por virtude. Fez porque foi obrigado. E fez do modo mais desonesto que a burocracia permite: milhões de páginas em PDFs não indexados, sem mecanismo de busca funcional, sem contexto, sem cruzamento.
Era o equivalente a jogar uma biblioteca inteira de Alexandria no chão de um ginásio e dizer ao público: “Está tudo aí. Boa sorte.” O tom era de generosidade. A intenção era de sepultamento.
O site justice.gov/epstein permite pesquisar documentos com a eficiência e a velocidade de quem não quer que você encontre nada.
Os arquivos são enormes, a navegação é tortuosa, a relação entre documentos é opaca.
Para um jornalista tradicional, munido de um notebook e boa vontade, seria necessária uma vida inteira para cruzar todas as informações relevantes. Era esse o plano.
A inteligência artificial mudou a equação.
Com ferramentas de análise de dados, indexação via Elasticsearch e um grafo de conexões em Neo4j, os milhões de documentos foram transformados em algo inteligível.
O resultado: 1,3 milhão de entidades nomeadas. Pessoas, organizações, locais, valores monetários. 5,5 milhões de relacionamentos mapeados entre essas entidades. 190 mil endereços de email extraídos, muitos dos quais não foram censurados pelas autoridades.
Porque quando se joga uma biblioteca no chão de um ginásio, confiando que ninguém vai ler, esquece-se de que alguém pode ensinar uma máquina a ler por você.
Claude, modelo de inteligência artificial da Anthropic, operou como um assistente de investigação incansável: buscando padrões, cruzando nomes, lendo documentos inteiros, identificando conexões que nenhum ser humano teria tempo ou estômago de estabelecer sozinho.
O modelo de capacidade máxima conduziu subinvestigações autônomas sobre a linguagem codificada de Epstein, as conexões brasileiras, o programa de eugenia e a rede científica que orbitava o predador.
Pela primeira vez na história, um cidadão comum, munido das ferramentas certas, de uma conexão com a internet e de vontade, pôde fazer o que governos, promotores e órgãos de inteligência se recusaram a fazer durante duas décadas.
A democratização da informação deixou de ser promessa e virou fato consumado. Os poderosos que se beneficiaram do sigilo deveriam estar prestando atenção. Mas como são poderosos e não inteligentes (a distinção é crucial), provavelmente não estão.
Há um detalhe que merece registro cuidadoso. Após a publicação do primeiro artigo e a disponibilização do repositório público no GitHub, aproximadamente 1392 arquivos foram removidos do servidor oficial de documentos.
Alguns diriam que é coincidência. Outros diriam que, quando cidadãos começam a ler o que o governo publicou, o governo descobre que publicou demais.
O repositório permanece aberto aqui. Os dossiês completos estão disponíveis para qualquer pessoa que queira verificar, expandir ou contestar as conclusões apresentadas aqui. A verdade, ao contrário do que pensam seus inimigos, não precisa de proteção. Precisa apenas de hospedagem.
II. A ciência que ninguém ensina: quando os psicopatas governam
Existe um livro que deveria ser leitura obrigatória em todas as faculdades de ciência política, direito e administração pública do planeta. Não é. Pelas mesmas razões que o fazem necessário. O livro é Ponerologia: Psicopatas no Poder, do psicólogo polonês Andrew Lobaczewski. O termo vem do grego poneros, que significa mal, perverso.
Lobaczewski escreveu-o durante o regime comunista na Polônia e publicou-o sob circunstâncias quase tão sombrias quanto seu conteúdo. É o tipo de obra cuja existência o sistema considera inconveniente, o que é sempre um bom sinal de que merece ser lida.
A tese central é elegante na sua simplicidade e aterradora nas suas implicações. Em qualquer sistema de poder suficientemente grande e suficientemente antigo, os psicopatas tendem a migrar para o topo.
Não porque sejam mais inteligentes. Porque são desprovidos dos freios morais que impedem a maioria das pessoas de mentir, manipular, trair e destruir para obter vantagem. Em democracias saudáveis, os filtros institucionais, a imprensa livre, o judiciário independente, a sociedade civil vigilante mantêm os psicopatas em xeque. Quando esses filtros falham, o resultado é o que Lobaczewski chama de patocracia: o governo dos patológicos.
O caso Epstein não é uma aberração. É um sintoma. Considere a sequência.
Um homem sem diploma ensina numa escola de elite. Entra num dos maiores bancos do mundo sem credenciais. Administra a fortuna de um bilionário sem contrato formal verificável. Opera uma rede de tráfico sexual por duas décadas. Recebe, ao ser finalmente preso, uma sentença de treze meses com privilégios de saída diária. Quando a operação é finalmente desmantelada, os cúmplices recebem imunidade, as vítimas não são informadas e o acusado principal morre na prisão antes de poder falar.
Em nenhum ponto dessa cadeia um único adulto em posição de autoridade fez a coisa certa na hora certa.
Isso não é incompetência. É sistema.
A corrupção que permeia essas redes de poder não é primariamente financeira. É moral. A corrupção financeira é consequência; a corrupção moral é causa. E funciona por sinalização. Quando o presidente dos Estados Unidos tem um caso extraconjugal com uma estagiária na Casa Branca e a nação responde com um encolher de ombros coletivo, a mensagem que chega à classe dirigente é inequívoca: está tudo bem. O desvio é normal. A transgressão não tem custo. A libertinagem sexual, longe de ser fraqueza privada, torna-se moeda de troca e mecanismo de controle. Quem participa entra no círculo. Quem se recusa fica de fora.
Epstein entendeu isso melhor do que ninguém. Sua genialidade, se é que podemos profanar a palavra, não estava nas finanças. Estava na compreensão de que, num mundo onde os poderosos têm apetites que não podem satisfazer publicamente, o homem que fornece a satisfação em ambiente controlado se torna indispensável. E o homem que filma tudo se torna intocável.
III. “Achei que ele fosse carpinteiro.” A alma do sistema, desnuda
Voltemos à entrevista.
Epstein descreve, com a familiaridade de quem frequenta o clube, seu ingresso no conselho da Rockefeller University. Conta que David Rockefeller o apresentou à Comissão Trilateral. Que na ficha de inscrição, ao lado de presidentes e laureados do Nobel, escreveu: “Jeffrey Epstein. Just a good kid.” Achava engraçado. Ninguém mais achou.
Ele fala sobre o sistema bancário de reservas fracionárias com a clareza de quem explica a um aluno lento como o mundo funciona. Descreve a crise de 2008 como quem descreve um experimento de laboratório que deu errado, com a mesma frieza clínica, a mesma distância emocional. Bannon pergunta repetidamente, quase implorando por um lampejo de humanidade: “Você nunca teve um momento de autoconsciência? Nunca se perguntou como chegou àquela cela?” Epstein responde que não. Que a cela e a mansão são “dois lados da mesma moeda”. Que ele se considera um eremita, não um estoico. Que os estoicos não são muito felizes.
É o retrato perfeito do que Lobaczewski descreveu.
A ausência total de remorso disfarçada de sofisticação filosófica. A falta de empatia embalada em linguagem de salão. E então vem o momento. Bannon compara Epstein ao Satanás de Milton, o arcanjo que preferiu reinar no Inferno a servir no Céu. Epstein diz que o diabo lhe dá medo. E Bannon, num raro momento de sinceridade brutal, diz: “Você tem todos os atributos. É incrivelmente inteligente. O diabo é brilhante.”
Minutos depois, quando Bannon menciona que Sócrates, Platão e Jesus nunca escreveram nada, que apenas falavam e outros registravam, Epstein interrompe: “Achei que ele fosse carpinteiro.”
É preciso pausar aqui e pesar cada grama desse momento.
O homem que armazenou esperma num banco de criopreservação na Califórnia. O homem que encomendou trinta kits de DNA da 23andMe num único pedido. O homem que planejava inseminar vinte mulheres simultaneamente num rancho no deserto do Novo México. O homem cujos documentos registram a expressão “premies we are breeding”, pronunciada por um neurocientista que ele financiava. O homem em cuja residência foi encontrado um quadro de Bill Clinton vestido de mulher. Esse homem, diante da menção ao Cristo, o único nome da história que um carpinteiro pôde assinar e que dividiu o calendário do mundo inteiro, responde com desdém.
Não foi um acidente retórico. Foi uma confissão involuntária. Os demônios sempre reconhecem quem os venceu. E a maneira como o reconhecem é desprezando-o. Não com ódio. O ódio pressupõe respeito. Com desdém. Com o encolher de ombros de quem diz: “Era só um carpinteiro.” Como se a história da redenção humana fosse uma nota de rodapé na biografia do sistema financeiro.
Ali está o rosto do inimigo. E é fundamental que os cordeiros o reconheçam.
IV. O Rancho que Ninguém Investigou
Se Little St. James, a “ilha do pedófilo”, era a vitrine da depravação de Epstein, conhecida pela imprensa, filmada por drones, invadida pelo FBI em agosto de 2019, o Zorro Ranch era o cofre. E o cofre nunca foi aberto.
A propriedade fica em Stanley, Novo México. Uma localidade com população aproximada de 95 habitantes. Dez mil acres de deserto, uma mansão de 33 mil pés quadrados, pista de pouso privada, heliponto e isolamento total. Para chegar lá sem avião, é preciso percorrer estradas de terra por quilômetros sem encontrar uma única alma. Para as vítimas levadas até lá, era como desaparecer da face da Terra. Literalmente.
O FBI obteve mandados de busca para a mansão de Nova York na East 71st Street. Obteve mandado para Little St. James. Obteve mandado para a casa de Palm Beach. Mas nunca, em nenhum momento, obteve mandado para o Zorro Ranch.
Por quê?
Os documentos sugerem respostas que nenhuma autoridade quer ouvir. Vítimas relataram estupros no rancho. Uma delas foi abusada durante três anos. Outra foi arrastada de uma piscina interna para uma cama. Uma mãe ouviu de Epstein que ele “patrocinava viagens educacionais para estudantes de ensino médio” no Novo México. Sua filha, criança sem meios de comunicação, foi mantida prisioneira nos “remotos dez mil acres”.
Mas é o que vem a seguir que faz o sangue gelar.
Em novembro de 2019, um homem chamado Edward Aragon compareceu ao escritório do FBI em Albuquerque para relatar um email que recebera oferecendo “sete vídeos de abuso sexual e a localização de duas meninas estrangeiras enterradas no Zorro Ranch” pelo preço de um bitcoin. O FBI registrou a informação. Não há registro de que tenha agido sobre ela.
Em abril de 2020, um informante disse ao FBI de Albuquerque que o Zorro Ranch e as cabanas afiliadas eram usados como local para violência sexual e para infectar vítimas com doenças sexualmente transmissíveis, usadas então como chantagem. E acrescentou: uma vítima feminina foi estuprada múltiplas vezes e ficou grávida. O bebê foi então “sacrificado e enterrado na Christ United Methodist Church, perto de Albuquerque”. O informante acrescentou que as vítimas “já haviam estado em contato com a polícia em múltiplas ocasiões, mas a polícia não fez nada”.
Outro depoimento, de uma testemunha nascida em 1982: “Epstein e Maxwell voavam num jato saindo de Las Vegas, levando meninas para o Novo México. Era um ‘fuck fest’ no avião. O corpo de uma criança foi enterrado debaixo do prédio, no Novo México.”
Esses são documentos oficiais do FBI. Relatos registrados por agentes federais em formulários padronizados. Transferidos para as unidades investigativas competentes. E nada aconteceu.
Nada.
O FBI nunca executou um mandado de busca no Zorro Ranch. A propriedade foi vendida em 2023 para compradores cuja identidade permanece desconhecida. Se havia corpos enterrados naqueles dez mil acres, eles continuam lá ou foram removidos antes da venda. A América nunca saberá, porque a América nunca olhou.
A pergunta que fica para o leitor é simples e devastadora: se o FBI recebe, em formulário oficial, a informação de que há corpos de crianças enterrados numa propriedade e não obtém mandado de busca, quem é que o FBI está protegendo?
V. O Programa de Reprodução: Cronologia de Uma Obsessão
Há uma diferença entre especulação e documentação. O que segue é documentação.
Maio de 2014. Jeffrey Epstein assina contrato de armazenamento de esperma com a California Cryobank LLC. Endereço do cliente: 9 East 71st Street, Nova York. Cláusula de falecimento, Opção B: em caso de morte, as amostras devem ser liberadas ao representante legal ou executor testamentário. Epstein nomearia Boris Nikolic, chefe do think tank privado de Bill Gates, como executor testamentário, dois dias antes de morrer. Dois dias.
Maio de 2016. Entrada no calendário de Epstein: “1 hour sperm bank.” Na mesma página, entradas adjacentes: “1 hour new passport” e “Discussion at Black Family Office” (Leon Black, fundador da Apollo Global Management). Quem agenda banco de esperma, passaporte novo e reunião com um dos maiores fundos de investimento do mundo no mesmo dia tem um plano. Não tem uma agenda; tem um programa.
Junho de 2016. Mark Jude Tramo, neurocientista de Harvard e UCLA financiado por Epstein, envia o email que contém as palavras mais perturbadoras de todo o corpus. Discutindo um projeto chamado Virtual Womb para bebês prematuros, Tramo escreve: “got me thinking about getting going again on inventing/patenting a Virtual Womb for all those premies we are breeding.” O termo breeding. “Prematuros que estamos reproduzindo.” No vocabulário médico, o padrão seria delivering ou born prematurely. Mas Tramo não escreveu para um colega médico. Escreveu para Jeffrey Epstein. Um homem que planejava inseminar vinte mulheres simultaneamente.
Junho de 2017. A sequência que constitui, talvez, a evidência circunstancial mais poderosa de todo o caso.
Dias 5 e 6: o médico pessoal de Epstein visita o Zorro Ranch com a esposa. Dia 8: trinta kits de DNA da 23andMe são encomendados. Quantidade: 30. Preço total: $6.084,95. Cartão: American Express de Epstein. Todos os trinta kits registrados sob o nome “Sultan Binsulayem”. Para quem eram os outros 29 kits? Dias 9 a 13: Epstein está no Zorro Ranch. Dia 18: chamada por Skype com Mark Tramo, o neurocientista que escreveu “premies we are breeding”.
Tudo em treze dias. Visita médica. Encomenda massiva de kits genéticos. Presença do proprietário. Chamada com o cientista. A sequência fala por si mesma.
Setembro de 2018. Epstein escreve a Tramo: “I’d like to fund reverse engineering of music. Are rhythms genetic?” Tramo responde com uma dissertação sobre estudos de gêmeos monozigóticos e a base genética da aptidão musical. A pergunta de Epstein não é casual. É a pergunta de um homem que quer saber se os traços que ele valoriza são hereditários. Se são, vale a pena “semear a raça humana com seu DNA”, como reportou o New York Times em 2019.
Os documentos confirmam, elemento por elemento, que a reportagem do Times não era especulação jornalística. Era a descrição de um programa em andamento. Um programa de eugenia operado por um predador sexual no deserto do Novo México, financiado por dinheiro que ninguém consegue rastrear, apoiado por geneticistas de Harvard e MIT.
E o dado médico que ilumina toda a operação: exames laboratoriais revelam que Epstein tinha testosterona de 94 ng/dL, quando a referência normal para homens adultos é de 250 a 827. Hipogonadismo severo.
O homem que operou a maior rede de abuso sexual da história moderna tinha a testosterona de um idoso debilitado.
A disfunção explica a necessidade de estimulação extrema e o armazenamento de esperma no banco de criopreservação: Epstein sabia que sua capacidade reprodutiva estava comprometida. Seu programa de eugenia era, em parte, uma corrida contra o próprio corpo.
VI. A Rede Científica: Harvard, MIT, UCLA e o Neurocientista que Chamou Crimes de “Pecadilhos”
O artigo anterior listou os acadêmicos conectados a Epstein. Este capítulo aprofunda relações que os dossiês revelaram em detalhe perturbador e que levantam uma pergunta que todo pai e mãe de estudante universitário deveriam fazer: quem, exatamente, está formando os filhos de vocês?
A relação entre Epstein e Mark Jude Tramo, neurocientista formado em Harvard e professor na UCLA, é a mais extensamente documentada de todo o corpus científico. Foram 451 documentos, aproximadamente 1.200 emails, ao longo de dezessete anos. Tramo foi introduzido a Epstein pelo reitor de Harvard, Harvey Fineberg. Dirigia o Institute for Music and Brain Science (iMABS), uma organização que Epstein financiou com pelo menos cem mil dólares.
Mas os documentos revelam algo que vai além do financiamento. Epstein controlava o iMABS. Vetava estagiários. Verificava o status fiscal. Decidia valores de doação. Recebia, via cópia oculta, todos os emails profissionais de Tramo: comunicações com colegas na UCLA, propostas enviadas a membros de conselho. Epstein não financiava Tramo. Epstein era Tramo. O cientista havia se tornado uma extensão operacional do pedófilo.
Quando, em 2010, Tramo encaminhou mensagens de estudantes a Epstein, a resposta do predador foi: “Are either of these cute?” Alguma delas é bonita? Tramo respondeu: “We’ll see! (you’re terrible!)”. E pôs um emoji. Quando a imprensa publicou essa troca, Tramo inicialmente negou. Doze horas depois, reverteu e admitiu. Em outubro de 2007, no mesmo dia em que Epstein se declarou culpado na Flórida, Tramo enviou um email de lealdade chamando os crimes do patrão de “pecadilhos”. Insignificâncias.
Nathan Wolfe, fundador da Metabiota, empresa dedicada à previsão de pandemias e financiada pela DARPA, Google e Gates Foundation, enviou a Epstein referências acadêmicas sobre questionários de comportamento sexual e rastreamento de doenças sexualmente transmissíveis. E propôs um “cohort study”, um estudo de coorte sobre mudanças no comportamento sexual.
A pergunta que o documento levanta é esta: por que um especialista em pandemias enviaria a um traficante sexual ferramentas científicas validadas para monitorar comportamento sexual? Quem seria a coorte desse estudo? As mulheres transportadas por Epstein?
E em março de 2017, uma simulação de pandemia por cepas virais foi encaminhada ao email de Epstein, junto com um whitepaper sobre “Neurotechnologies as weapons in national intelligence and defense”. Os documentos eram entregáveis do BGC3, o think tank privado de Bill Gates.
Em maio de 2017, um email trilateral entre Epstein, Gates e Boris Nikolic discute um fundo no qual a palavra “pandemic” aparece em comunicação direta, dois anos e meio antes da COVID-19.
Os documentos não provam que Epstein financiou pesquisa de criação de pandemias. O que provam é algo diverso e, a seu modo, igualmente perturbador: um pedófilo condenado estava posicionado no exato ponto de interseção entre riqueza, ciência de fronteira e poder político, usando cada eixo para amplificar os demais. Enquanto isso, em paralelo, desenvolvia planos documentados de inseminação de mulheres no deserto.
Sobre Gates e Epstein, há um email que merece menção. Em novembro de 2010, Epstein escreve sobre um jantar: “girls should be from 5-7, gates from 7-”. A leitura mais direta: mulheres das 17h às 19h, Gates chegando às 19h.
Gates jantou na residência de Epstein dezenas de vezes entre 2010 e 2017. Em setembro de 2014, Gates escreveu a Epstein mencionando que estava “seeing the President on budget and Ebola”, compartilhando com um pedófilo condenado informações sobre uma reunião com o presidente dos Estados Unidos.
VII. O que não sabemos, ou: a pergunta que muda tudo
Chegamos ao ponto onde o jornalismo convencional recua e o investigador autêntico avança. Não porque abandone os fatos. Porque entende que os fatos documentados abrem janelas para realidades maiores, e que recusar-se a olhar por essas janelas é uma forma de covardia intelectual.
Se um pedófilo condenado pode operar por duas décadas no centro do poder ocidental, com a proteção ativa de agências de inteligência, financiado por bilionários, assessorado por geneticistas de Harvard e coberto por procuradores gerais que depois são promovidos, que outras operações estão em andamento neste exato momento?
A pergunta não é retórica. É operacional.
O projeto MK-Ultra existiu. Isso é fato histórico desclassificado, não teoria conspiratória. Foi um programa da CIA dedicado ao estudo de técnicas de controle mental, ativo de 1953 a pelo menos 1973, revelado ao público em 1975 pela Comissão Church do Senado americano.
O diretor da CIA Richard Helms ordenou a destruição da maioria dos documentos em 1973, mas cerca de 20 mil páginas sobreviveram num erro de arquivamento. O programa envolveu administração de LSD e outras drogas a indivíduos sem seu consentimento, técnicas de hipnose, privação sensorial e indução de trauma.
Theodore Kaczynski, o Unabomber, foi sujeito de experimentos psicológicos em Harvard quando tinha dezesseis anos, conduzidos pelo professor Henry Murray, que tinha vínculos documentados com a OSS, precursora da CIA.
Os documentos Epstein confirmam uma conexão indireta com esse universo: David Gelernter, professor de Yale que foi vítima de uma das bombas de Kaczynski e perdeu a mão direita no atentado, foi integrado à rede de Epstein via John Brockman.
Uma gravação transcrita de 60 mil caracteres no corpus mostra Epstein discutindo o atentado de Gelernter na mesma conversa em que fala sobre um agressor sexual, uma prostituta e o Príncipe Andrew.
O sistema de handlers, no qual vítimas de trauma extremo recebem controladores que direcionam seu comportamento, é extensão lógica do MK-Ultra.
A tese, articulada em publicações documentais como as de Brice Taylor, é que o trauma repetitivo e sistemático pode induzir transtorno dissociativo de identidade, e que cada identidade dissociada pode ser “programada” para funções específicas. A fronteira entre o documentado e o alegado é fina. Mantê-la é essencial para a credibilidade de qualquer investigação.
Mas é igualmente essencial não fechar os olhos.
Os diários de vítimas no corpus Epstein documentam seleção por fenótipo (”Why my hair color and eye color?”), gravidezes forçadas (”I am not your personal incubator!”), nutrição controlada (”SPECIAL NUTRITION”), e a consciência agonizante de ser usada como reprodutora (”Superior Gene Pool ?!?”).
Um formulário oficial do FBI registra que um associado de Epstein, conectado a financistas de Nova York e ao predador britânico Jimmy Savile, declarou a outros que “bebia o sangue de crianças e que isso revigorava sua vida sexual”.
Os documentos Epstein são suficientemente horripilantes sem embelezamento. É um sistema de controle por trauma, isolamento, dependência financeira e ameaça. Não é necessário invocar programas secretos da CIA para explicar o horror. Mas é irresponsável ignorar que esses programas existiram, que foram documentados e que as técnicas que desenvolveram estão disponíveis para qualquer predador com recursos suficientes.
E então a pergunta se amplia: se isso é o que está documentado, o que não está?
VIII. Os Schizos, os Normies e os Psychos: Uma Taxonomia da Verdade
A internet, na sua sabedoria acidental, produziu uma taxonomia que nenhum departamento de sociologia teria a honestidade de criar. Há três categorias de seres humanos em relação à verdade.
Os normies são a maioria. Pessoas decentes, trabalhadoras, que querem cuidar de suas famílias, pagar suas contas, assistir a seus programas e viver em paz. Confiam nas instituições porque lhes disseram que as instituições são confiáveis. Confiam na medicina porque o médico usa jaleco branco. Confiam no governo porque o governo tem bandeira. Confiam na imprensa porque a imprensa se apresenta como guardiã da verdade. Os normies não são burros. São confiantes. E essa confiança é a matéria-prima que os psicopatas exploram.
Os psychos, na terminologia da internet, são os predadores. Os Epsteins, os Maxwells, os que operam no topo da cadeia alimentar humana. Não são muitos. Talvez 1% a 4% da população, segundo estudos de psicologia clínica. Mas concentram-se nos pontos de poder porque a ausência de consciência moral é uma vantagem competitiva em ambientes onde a moralidade é punida. Reconhecem-se entre si. Protegem-se mutuamente. E alimentam-se dos normies com a naturalidade de quem não vê problema nisso, porque, para um psicopata, não há problema. Há apenas oportunidade.
E então há os schizos. Os chapéus de alumínio. Os “conspiracionistas”. Os que olham para o mundo e dizem: algo está errado. Os que sentem que as explicações oficiais não encaixam. Que a narrativa não fecha. Que o imperador está nu.
Por décadas, esses foram ridicularizados, marginalizados, diagnosticados, medicados, cancelados e silenciados. A expressão “teoria da conspiração” foi popularizada pela CIA após o assassinato de Kennedy precisamente para desacreditar qualquer pessoa que questionasse a versão oficial. Fato documentado. Não teoria.
E aqui está a ironia amarga que deveria manter todo normie acordado à noite: os schizos estavam certos.
Estavam certos sobre Epstein. Estavam certos sobre as redes de pedofilia nas elites. Estavam certos sobre o MK-Ultra, que era “teoria da conspiração”, até que os documentos foram desclassificados. Estavam certos sobre a vigilância em massa, que era “paranoia”, até que Edward Snowden provou que era política governamental. Estavam certos sobre o envolvimento de agências de inteligência no tráfico de drogas (Irã-Contras). Estavam certos sobre experimentos biológicos em populações sem consentimento (Tuskegee). Estavam certos sobre a manipulação de eleições por serviços secretos (dezenas de países documentados).
Cada uma dessas “teorias da conspiração” é hoje fato histórico aceito. E em cada caso, o padrão foi idêntico: alegação, ridicularização, revelação, normalização, esquecimento. Repita.
O que mais não sabemos?
A clonagem humana é tecnicamente possível desde Dolly, a ovelha, em 1996. Trinta anos atrás. A tecnologia avançou exponencialmente desde então. Não há razão técnica para que não tenha sido feita. Há apenas declarações oficiais de que não foi. Das mesmas instituições que disseram que o MK-Ultra não existia. Das mesmas instituições que disseram que Epstein agiu sozinho.
A criação de personalidades alternativas, os chamados “alters”, através de trauma programado, é documentada na literatura clínica sobre transtorno dissociativo de identidade. Que agências de inteligência exploraram essa possibilidade é fato desclassificado. Que pararam de fazê-lo é alegação sem verificação.
Estruturas de poder familiar com abuso ritualístico geracional existem na literatura de casos clínicos e em depoimentos de sobreviventes. A magnitude é debatida. A existência, não. O pânico em torno do “abuso ritual satânico” dos anos 1980 foi amplamente desacreditado como histeria coletiva. Mas a desacreditação foi tão zelosa, tão coordenada, tão eficiente, que é legítimo perguntar: foi desacreditação ou foi encobrimento?
Programas de despovoamento são discutidos abertamente em conferências de alto nível, nas metas de organizações internacionais e nos escritos de filantropos bilionários que investem simultaneamente em vacinas e em controle de natalidade. Apontar essa contradição não é teoria da conspiração. É leitura.
Os normies precisam parar de ouvir os psychos que lhes dizem que está tudo bem. E precisam começar a ouvir os schizos que lhes dizem que algo está muito errado. Não porque os schizos sejam infalíveis. Porque os schizos são os únicos que estão prestando atenção.
IX. João de Deus: O Espelho Brasileiro
A conexão entre Jeffrey Epstein e João de Deus, o curandeiro brasileiro condenado a 370 anos de prisão, não é teoria. É email no corpus, datado de dezembro de 2020, enviado aos investigadores do caso Epstein: uma mulher “falou que isso acontecia no Zorro Ranch. Disse, em registro oficial, que Epstein lhe ofereceu dinheiro para fazer isso. Gerar bebês para uso no mercado negro.”
A operação de João de Deus, conforme revelada pela ativista Sabrina Bittencourt antes de sua morte, envolvia meninas mantidas em cativeiro em Abadiânia, Goiás, forçadas a engravidar repetidamente. Os bebês eram vendidos no mercado negro por quantias que chegavam a cinquenta mil dólares. Após uma década de produção, as mulheres eram eliminadas.
Sabrina Bittencourt foi encontrada morta em Barcelona em fevereiro de 2019, aos 38 anos. A causa oficial foi suicídio. Seu filho mais velho escreveu: “Ela deu o último passo para que pudéssemos viver. Eles mataram minha mãe.”
O paralelo com o Zorro Ranch é estrutural. Propriedades isoladas em áreas remotas. Vítimas sem meios de comunicação ou fuga. Gravidezes forçadas. Bebês cujo destino permanece desconhecido. Homens conectados a círculos de poder internacional. Bill Clinton visitou João de Deus. Os mesmos nomes que orbitam Epstein orbitam o curandeiro brasileiro.
O leitor que acha isso longe demais de sua realidade deveria considerar a distância real. Abadiânia fica em Goiás. Não na Lua. O tráfico internacional de crianças não é uma abstração. É uma indústria. E ela opera, como toda indústria, em cadeias de fornecimento que conectam o local ao global.
X. A Linguagem Real do Mal: Pizza, Carne Charque e o Urologista
Este capítulo é o mais difícil de escrever, porque a credibilidade de uma investigação depende tanto do que ela afirma quanto do que ela nega, e porque a fronteira entre coincidência e código é, neste caso, perturbadoramente fina.
Os dossiês de investigação conduziram uma análise exaustiva dos termos alimentícios associados à teoria Pizzagate no corpus Epstein. Os números brutos são estes: “pizza” aparece 242 vezes, “hot dog” 21 vezes.
A maioria desses resultados, sim, é literal. Arturo’s Pizza na Houston Street era o restaurante favorito de Epstein. Patsy’s, Joe’s Pizza, menus de restaurante, pedidos de entrega. Mas dizer que “todos são literais” e encerrar o capítulo seria desonestidade intelectual. Porque nem todos são literais. E os que não são merecem atenção.
O urologista e a pizzaria
Dr. Harry Fisch é um dos urologistas mais renomados de Nova York. Especialista em reprodução masculina, testosterona e disfunção erétil. Professor da Weill Cornell Medicine. Autor de livros sobre fertilidade masculina. Nos documentos Epstein, ele aparece 413 vezes. Quatrocentas e treze. Mais que Jean-Luc Brunel. Mais que Sarah Kellen. Mais que Nadia Marcinkova.
Dr. Fisch era o médico pessoal de Epstein para questões urológicas e reprodutivas. Lembremos: Epstein tinha testosterona de 94 ng/dL, hipogonadismo severo. Dr. Fisch prescrevia medicamentos que Lesley Groff mandava buscar na Chelsea Drug Store (EFTA00835735: “Dr. Fisch is not in the office... she needs to know what the prescription is for that you would like called in to Chelsea Drug store”).
Fisch organizava consultas com outros especialistas para Epstein (EFTA02236239). Fisch atendia também Karyna Shuliak, a última namorada (EFTA02301384). Fisch cobrava $2.850 por consultas para “amigos” de Epstein (EFTA02232626). Fisch se reunia com Epstein e Ehud Barak, ex-primeiro-ministro de Israel, simultaneamente (EFTA02276482: “1:15pm Dr. Fisch to join JE and Ehud”).
Agora, o detalhe que incomoda.
A agenda de Epstein para 5 de junho de 2018 registra: “12:45 in Pizza Place with Dr. Fisch and Barry Josephson” (EFTA00285548). E treze dias depois, em 18 de junho de 2018, um email de Epstein para Lesley Groff diz apenas: “1230 pizza place” (EFTA02249319). Groff responde perguntando: “Is Dr. Fisch a doctor appt or fun at your house?” A pergunta de Groff é reveladora. Ela não sabe se o encontro com o Dr. Fisch é consulta médica ou diversão social.
As fronteiras entre médico e amigo, entre profissional e cúmplice, estavam borradas.
O urologista que trata a disfunção erétil de um predador sexual condenado, que prescreve medicamentos para ereção, que cobra milhares de dólares por consultas para “amigos” anônimos, almoça com esse predador numa “pizza place”. Isso prova que pizza é código? Não. Mas prova que a relação entre comida, medicina sexual e o círculo íntimo de Epstein merece investigação muito mais profunda do que um “todos literais” permite.
A Pizza Monster
Em 26 de abril de 2016, um email com o assunto “Re: The Pizza Monster!” circula entre Epstein e associados (EFTA02464505, EFTA02356175). Uma mulher na órbita de Epstein é apelidada de “Pizza Monster” ou simplesmente “the pizza”. Epstein comenta: “she looks pregnant.” A resposta: “You mean radiating a soft glow with the look of bliss and excitement. Yeah, that’s the pizza...”
Poderia ser literal? Sim. Uma mulher que come muita pizza e está inchada. Poderia ser outra coisa? A expressão “radiating a soft glow with the look of bliss and excitement” é uma descrição estranhamente poética para indigestão por pizza. E no universo de um homem que operava um programa de reprodução documentado, dizer que uma mulher “parece grávida” e atribuir isso a “pizza” gera, no mínimo, desconforto.
Beef jerky: 25 quilos de carne crua e a palavra “analyze”
A obsessão de Epstein com beef jerky é documentada em 45 arquivos ao longo de quatro anos (2012-2016). Os números são extraordinários mesmo para um entusiasta culinário: 25 a 30 libras de carne crua por viagem ao Zorro Ranch, produção “quase diária”, consumo “no café da manhã, almoço e jantar” (EFTA02368899, EFTA01134382).
Em 27 de agosto de 2012, Epstein escreve a Steve Hanson: “did we analyze the jerky?” (EFTA02401272). Francis Derby, o chef pessoal, confirma a mesma linguagem: “the stuff needed to be analyzed.” A palavra “analyze” para se referir a charque caseiro é, no mínimo, incomum. Poderia ser à análise nutricional, dada a dieta extremamente restritiva de Epstein? Talvez. Mas o fato de que tanto Epstein quanto Derby usam exatamente a mesma formulação sugere um procedimento combinado previamente, com significado compartilhado entre eles.
E depois há o destino profissional de Derby. Após deixar o emprego de Epstein, o chef foi trabalhar num restaurante chamado “The Cannibal” na East 29th Street em Manhattan, especializado em charcutaria artesanal e beef jerky (EFTA02396657). O nome do restaurante é, de fato, uma homenagem ao ciclista belga Eddy Merckx. Mas um email no corpus descreve a notícia com uma exclamação que soa como piada interna: “He is working at a restaurant called Cannibal and cooks... wait for it... Beef Jerky and Steak!” O “wait for it” sugere que quem escreveu achava que havia algo engraçado, ou ao menos irônico, na coincidência.
Steve Hanson: 1.077 menções e “Girl for BF”
Steve Hanson, presidente do grupo de restaurantes BR Guest Hospitality, aparece 1.077 vezes nos documentos Epstein. Para efeito de comparação, Brunel aparece 616. Sarah Kellen, 131.
O documento EFTA02412165 contém um email de Hanson para Epstein com o assunto “Fw: Girl for BF”. BF é Blue Fin, um restaurante de Hanson. O email encaminha uma mulher para o restaurante via Epstein. No documento EFTA02358134, Hanson coordena com Jean-Luc Brunel uma viagem ao Zorro Ranch e a Las Vegas: “is flying to ranch tomorrow. Steve Hanson on Sat, we will go from here to Vegas. You can come.”
Hanson voou em avião privado para o ranch (EFTA02313220). No mesmo período, Sarah Kellen pediu a Hanson que encontrasse um chef pessoal para Epstein: salário de $125 mil, disposto a viajar para a ilha e o ranch.
A mesma agenda que lista encontros com Hanson registra, no mesmo dia (EFTA00292668): “8:30 Blood Test”, “11:00 Frances the Chef”, “4:00 Appt w/Brock Pierce” (empresário de criptomoeda acusado de abuso) e “7:30 Dinner w/Terje, Reid Weingarten, Sultan. Steve Hanson’s chef to cook.”
THAIMASSAGE: cursos de massagem tailandesa por PayPal
Via PayPal, Epstein pagou $425 e $175 em cursos de “Thai Massage” enviados para 9 East 71st Street (EFTA00325425, EFTA00323231). Os cursos se chamavam “Side Lying, Inverted & Seated” e “Putting It All Together -- Refinement”, nomes técnicos legítimos de massagem tailandesa. O pagamento foi feito a “Jack Apfelbaum”.
No contexto de um homem cuja operação inteira girava em torno de “massagens” como eufemismo para abuso sexual, o investimento em treinamento profissional de massagem para membros de seu staff doméstico é, no mínimo, um dado que merece registro.
O’Connell: o predador paralelo e as contas eBay
O documento EFTA00083270, um relatório de investigador privado enviado ao FBI em julho de 2020, traça paralelos entre Epstein e William O’Connell, um predador de Quincy, Massachusetts, que operava a menos de uma milha da residência de Epstein em Palm Beach.
O relatório documenta contas eBay associadas ao universo Epstein: ghislaine55, ghislaine88, ghislaine33, ghislaine94, jepstein e duas com nomes perturbadores: “88girls” e “sellherfanny”.
As contas não foram verificadas independentemente. Mas o documento foi considerado suficientemente sério para ser encaminhado ao FBI. E o caso O’Connell contém um detalhe arrepiante: uma vítima de 14 anos morreu num “acidente de carro em chamas” uma semana antes do julgamento de O’Connell.
Os termos que merecem mais investigação
A investigação computacional dos termos alimentícios revelou que a esmagadora maioria é literal. Mas revelou também zonas de ambiguidade que uma análise honesta não pode ignorar:
- “Muffin” (84 hits): A maioria é culinária, sim. Mas “bran muffin fix” em Paris e “ate my last muffin” de Eva Dubin, cuja família tem conexões documentadas com Ernst Gubler (o homem que declarou ao FBI “beber o sangue de crianças”), merecem um segundo olhar.
- “Daddy” (105 hits): Epstein se referia a si mesmo como “daddy” em pelo menos um email confirmado: “spent time with daddy, great fun” (EFTA01301242). Karyna Shuliak enviou email com assunto “Daddy” e foto anexa (EFTA02297690). Para um homem de 66 anos com namoradas de vinte e poucos, o termo transcende o culinário.
- “Fresh” (confirmado como código): “She looks very fresh” (EFTA02372945). Sam Jaradeh promovendo “fresh new girls”. Contato em Kiev descrevendo mulher como “very fresh”. Este é código documentado, não comida.
O veredicto que não é veredicto
A questão não é se pizza é código para criança nos documentos Epstein. Provavelmente não é. A maioria das 242 menções de pizza é, de fato, Arturo’s na Houston Street.
A questão é outra e mais perturbadora: por que o urologista especialista em ereção de um predador sexual condenado almoça com ele numa “pizza place” e menciona “grape soda” logo após indicar para Epstein tomar um remédio para ereção?
Por que uma mulher na órbita de um programa de reprodução documentado é chamada de “Pizza Monster” e descrita como “parecendo grávida”?
Por que um restaurateur com 1.077 menções nos documentos manda email com assunto “Girl for BF”?
Por que o chef pessoal vai trabalhar num restaurante chamado “The Cannibal”?
Por que contas eBay ligadas ao caso se chamam “88girls” e “sellherfanny”?
Cada um desses fatos, isolado, tem explicação inocente. Juntos, formam um padrão que a ciência forense chama de “evidência circunstancial convergente”: nenhuma peça prova nada sozinha, mas a convergência de todas aponta numa direção que seria irresponsável ignorar.
A linguagem codificada confirmada de Epstein era “massage”, “fresh”, “new friend”, “the girls”, “Girls Trips”. Isso está documentado, além de qualquer dúvida. Mas afirmar que toda a linguagem de Epstein já foi decodificada, que não há mais nada a encontrar, que toda referência alimentícia é inocente, seria uma conclusão prematura.
O que falta é a investigação que ninguém fez. E enquanto essa investigação não for feita, a única posição honesta é a de quem mantém o dossiê aberto. Não para alimentar paranoia. Para exigir respostas.
XI. A Pergunta A Trump
A justiça é judiciosa quando é universal. E, portanto, é preciso falar sobre Donald Trump.
Os registros de voo mostram que Trump voou uma única vez no avião de Epstein, um voo breve de Nova Jersey para Nova York, com familiares, e nunca para a ilha. Bill Clinton, por contraste, voou 27 vezes para Little St. James. Não há emails de Trump no corpus. Não há coordenação logística. Não há “Girls Trips” envolvendo Trump.
A foto de Trump com Epstein em eventos sociais de Nova York prova que eles se conheciam, o que nenhuma das partes jamais negou. Mas existir no mesmo ambiente social de Nova York nos anos 1990 e participar de uma rede de tráfico sexual são coisas categoricamente diferentes.
Trump expulsou Epstein de Mar-a-Lago após Epstein tentar recrutar a filha de um funcionário. Trump não bebe e não usa drogas, por causa da morte de seu irmão por alcoolismo. Sua relação com Roy Cohn, o advogado ligado ao submundo de Nova York, foi necessidade operacional num mercado imobiliário que exigia, literalmente, negociação com a máfia.
E a pergunta mais importante não é sobre participação. É sobre ação.
Trump é presidente dos Estados Unidos. Tem o poder de ordenar a investigação completa do caso Epstein, incluindo o Zorro Ranch.
Até o momento em que este artigo é publicado, não o fez. Pam Bondi, que sentou em cima do primeiro caso contra Epstein quando era procuradora na Flórida, é agora Procuradora-Geral dos Estados Unidos, nomeada por Trump. E continua inativa.
Nenhuma prisão desde a divulgação desses arquivos. Nenhuma investigação anunciada. Nenhuma responsabilização direta nos EUA. Vimos consequências até no Reino Unido, ainda que poucas. Mas vimos. Nos EUA? Nada. Até quando?
Vinte e nove indivíduos receberam acordos do Departamento de Estado para que seus nomes permanecessem ocultos. Quem são? Que crimes cometeram?
Os cordeiros têm o direito de perguntar. E de exigir resposta.
XII. Como Você Se Protege: Um Manual Para Cordeiros
Este capítulo não é abstração. É orientação.
Primeiro: entenda a natureza do predador. O psicopata não parece um monstro. Parece o cara mais simpático da sala. Epstein era descrito por seus pares como charmoso, generoso, brilhante. O predador opera por sedução, não por intimidação. Quando a intimidação vem, a vítima já está presa na teia.
Segundo: proteja seus filhos. A rede Epstein recrutava meninas de 13 a 16 anos. Recrutava-as em escolas, em estúdios de massagem, em academias de dança. Recrutava-as oferecendo dinheiro, oportunidades, conexões. A melhor proteção não é a vigilância constante, que é impossível. É a formação moral e a confiança familiar. Uma criança que sabe que pode contar qualquer coisa aos pais sem ser julgada é uma criança que o predador não consegue silenciar.
Terceiro: desconfie do dinheiro fácil. A rede Epstein operava por cooptação financeira. Universidades aceitaram seu dinheiro. Cientistas aceitaram seu financiamento. Políticos aceitaram suas doações. Em todos os casos, o dinheiro veio com cordas invisíveis que se tornaram correntes visíveis. Quando alguém oferece dinheiro sem razão proporcional, a razão é você.
Quarto: busque informação fora dos canais oficiais. A imprensa que deveria ter investigado Epstein não o fez por duas décadas. As universidades que deveriam ter rejeitado seu dinheiro o aceitaram com entusiasmo. O FBI que deveria ter investigado o Zorro Ranch nunca obteve mandado. Os canais oficiais falharam em todas as instâncias. A informação que salvou este caso veio de documentos vazados, de investigações independentes e de cidadãos com ferramentas e vontade.
Quinto: fortaleça sua fé. Não é por acaso que Epstein desprezou Cristo. Não é por acaso que essas redes de poder operam com uma inversão sistemática dos valores cristãos. A inocência é explorada. A pureza é corrompida. A verdade é sufocada. A família é destruída. A fé é ridicularizada. Em cada um desses atos, o padrão é o mesmo: a inversão do bem. O cristão que conhece esse padrão reconhece-o quando o vê. E quem o reconhece não pode ser enganado por ele.
XIII. O Fechamento Que Não Fecha
A investigação baseada nos arquivos Epstein revelou uma realidade que nenhuma ficção seria capaz de inventar e nenhuma instituição se dispõe a enfrentar.
Revelou um rancho no deserto onde vítimas foram estupradas, engravidadas e, segundo relatos oficiais ao FBI, onde bebês foram sacrificados e corpos foram enterrados. Revelou que o FBI registrou essas informações e não obteve mandado de busca. Revelou uma rede científica em que geneticistas, virologistas e neurocientistas de Harvard, MIT e UCLA trabalhavam sob a supervisão financeira e operacional de um pedófilo condenado. Revelou que Bill Gates jantou dezenas de vezes na residência desse pedófilo, compartilhou com ele informações sobre reuniões com o presidente dos Estados Unidos e coordenou um fundo com ele como intermediário. Revelou que a linguagem do horror não precisava de códigos: bastavam as palavras “massage”, “fresh” e “the girls”.
E revelou, acima de tudo, que o silêncio das instituições não é acidental. É estrutural. É o som que os lobos fazem quando combinam o próximo ataque.
As vítimas que sobreviveram carregam cicatrizes que nenhum tribunal pode reparar. As que não sobreviveram não têm voz. Os bebês cujo destino permanece desconhecido não têm nome. O Zorro Ranch nunca foi investigado. Os 29 indivíduos protegidos por acordos de sigilo nunca foram identificados. Maxwell joga tênis na prisão.
Mas algo mudou. Algo que os lobos não previram.
Os cordeiros aprenderam a ler.
Os cordeiros têm inteligência artificial. Têm repositórios públicos no GitHub. Têm podcasts que alcançam milhões. Têm a obstinação que nasce da indignação justa. E têm algo que nenhum psicopata, por mais brilhante que seja, jamais poderá replicar: consciência moral. A capacidade de olhar para o sofrimento alheio e sentir. De olhar para a injustiça e revoltar-se. De olhar para a mentira e recusar-se a participar dela.
Epstein disse que Jesus era carpinteiro. Disse como quem diz que era pouca coisa. Mas o carpinteiro virou mesas no templo. Expulsou os cambistas. Olhou nos olhos dos poderosos e disse: vocês são sepulcros caiados, bonitos por fora e podres por dentro. E por isso o mataram. E por isso ele venceu.
Os documentos estão abertos. A inteligência artificial está disponível. O silêncio já não é uma opção.
A revolta dos cordeiros não pede permissão. Pede justiça.
E ela virá. Pelos homens ou apesar deles. Os arquivos Epstein sugerem, com a eloquência fria dos fatos, que a segunda hipótese é mais provável que a primeira. Mas os cordeiros, ao contrário dos lobos, têm um recurso que os números não medem e que os algoritmos não capturam.
Têm esperança. E isso, para desespero dos sepulcros caiados, é mais perigoso do que qualquer mandado de busca.
---
Episódio completo do Ressonância Cognitiva #13 no YouTube:
*Entrevista de Jeffrey Epstein com Steve Bannon:
Repositório de dados e código:
Artigo anterior: [A Anatomia do Monstro]
Sobre os autores do episódio:
Leonardo Dias (x.com/leonardodias) é cientista de dados, empresário, jornalista e fundador da Arvor. Conduziu a investigação computacional dos documentos Epstein com ferramentas de IA.
Marcos Paulo Candelouro (x.com/oCaramelo7) é cientista político, historiador e jornalista. Articulista na Gazeta do Povo
Cissa Bailey (x.com/CissaBailey) é analista política e jornalista












